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Réveilon, Parte 4

Por Inês Pedrosa

31 de dezembro de 2011 | 03h00

Chega de cismar em milagres, homem. Milagre bastante é estarmos nós ainda sobre a terra, não entendes?

Elvira estava cheia das ladainhas do marido. Agora o velho dera em enumerar milagres como quem faz contas de mercearia; tornara-se tão beato que Elvira sentia um rasto de incenso quando se aproximava dele. Na cama, a beatice esfumava-se-lhe num instante - valia-lhe isso. Mas tinha saudades do cheiro a tabaco e vinho carrascão que se desprendia de Pedro quando o conhecera - um cheiro másculo que lhe excitava aquela parte da alma que caminha mais encostada à pele. Elvira duvidava que houvesse outra: uma alma desligada dos apetites carnais, flutuando pela tralha interior de cada um como um anjo cumpridor e controleiro. A alma é uma coisa suja de sangue e memórias, uma coisa que a idade torna cada vez mais pesada, como o estômago ou as pernas. Tomara afeição a Pedro por lhe parecer mais livre do que todos ali da aldeia, quando ainda havia aldeia e ela voltara da cidade, desenganada. O grande predador local deixara-se conquistar por ela, que se considerava uma artista falhada da sedução.

- Estuda, menina, estuda bastante para arranjares um bom casamento - nunca esquecera estas palavras da mãe, tremidas, no abraço em que a despachara para casa da tia, lá longe, na cidade. Ganhara amor aos estudos, aos livros onde os sonhos adquiriam a espessura dos corpos e depois a um Miguel que estudara música e tocava violino numa orquestra. Entregara-se-lhe tanto que empreendera em escrever versos e ficara quase bonita, com os olhos acesos e a pele macia como se tivesse sido criada entre cremes e sedas. Aprendera a sublinhar a negro os olhos para o puxar para dentro do incêndio da sua paixão. Ele dizia-lhe que encontrara nela a sua alma gémea, e Elvira caíra nessa fé. Porém, na véspera da passagem de ano, confessara-lhe que não podia festejar com ela porque já era casado e tinha um filho. Elvira estava nua e transpirada nos braços dele, numa casa que pensava dele e afinal era emprestada por um amigo. Enquanto procurava a roupa, de cócoras, no chão, jurou que nunca mais passaria por uma humilhação semelhante. Deambulou até ao nascer do sol pelas ruas desertas da cidade, embriagando-se de prédios e progressos inacessíveis, e regressou à aldeia nesse mesmo dia.

O amor não lhe passou tão depressa quanto a fúria: agarrava-se àquela melodia da alma gémea que lhe dedilhava o sexo como uma orquestra fantasma. Serviu-se do prazer que Miguel lhe revelara para a alfabetização erótica de Pedro, que era nula. Pedro casara com Elvira em estado de virgindade quanto ao desejo feminino: nunca sequer lhe ocorrera que tal matéria existisse, menos ainda que pudesse ampliar de um modo tão concreto as delícias do sexo. A princípio assustou-se: perguntava a si mesmo como podia ter uma só mulher a capacidade de lhe apresentar tão variadas versões do paraíso. Mal lhe virava as costas desatava a sofrer e tinha ganas de a amaldiçoar por esse feitiço. Todas as outras lhe pareciam de repente esboços imperfeitos de Elvira, a ponto de perder a vontade de as subjugar. Olhava para a vizinha Ana Maria e, mais do que vergonha do acto praticado, tinha medo de que um dia ela o confidenciasse a Elvira. Apavorava-o que o abandonasse, não concebia a existência sem os dedos letrados da mulher. Feito de loucura este pensamento; Elvira não se atreveria a enciumar-se por casos do passado - não chegara ela a namoriscar Políbio? Mas o coração é pouco dado a lógicas. Acresce que Pedro se habituara a racionar o pensamento na mesma medida em que gastava o corpo. O deslumbramento por Elvira virara-o do avesso, e levaria a vida inteira a acostumar-se, sem sossego, a essa revolução. Por isso não queria mesmo pôr os pés na casa do precipício: temia que Elvira farejasse o triste pecado que ali cometera. Da intuição de Políbio não havia que cuidar porque nunca chegara a nascer. Homem que é homem não desconfia do amigo, nem encosta o nariz no peito do outro à procura de briga.

Elvira sorria diante do resmonear de Pedro contra a casa do precipício. Estava certa de que havia uma história mal resolvida entre ele e Ana Maria - via-se-lhes nos olhos, a um e a outro. Uma história que os embaraçava; nunca passavam dos bons-dias, mal trocavam palavras. Preferia não fazer perguntas; evitaria assim que lhas fizessem, porque as perguntas são contagiosas. Parecia-lhe infantil a superstição de que a passagem de ano naquela casa funcionaria como um desafio a deus e aos milagres que dele haviam recebido. Para ela todas as passagens de ano eram tristes. Tentara apagar a recordação do fim do seu namoro com Miguel procurando-o, uma vez que ele viera tocar na cidade próxima. Dessa noite de suposta redenção resultara uma gravidez muito mal desfeita, que a conduzira às portas da morte. Elvira sabia que a sua sobrevivência se devia à pureza da raiva e não à ternura oratória de Pedro. Decidira, simplesmente, que não podia permitir que um homem que nunca lhe dera nada a matasse.

Ao longo dos anos reformulou esta apreciação; devia a Miguel o conhecimento do prazer, a consciência das possibilidades do seu corpo de mulher. Em algumas ocasiões lograra mesmo encontrar Miguel no corpo de Pedro: para isso serviam os livros e a imaginação que através deles se desenvolvia. No dia a dia, enervava-a a distância insuperável entre um e outro; peguilhava com Pedro por insignificâncias, invejosa do excesso de felicidade do marido. Pedro aceitava com bonomia esses saltos de humor, isolado no aquário luminoso da sua própria paixão. Alquebrado pela velhice, continuava a desejá-la, e os limites do corpo ateavam-lhe a criatividade. Amava cada uma das pregas e rugas do corpo da mulher, percorria-lhe com dedos vagarosos cada curva e recanto, lavava-a com a língua até a deixar brilhante como uma pedra preciosa. Quando finalmente entrava nela sentia-se um jovem com asas, um anjo lúbrico em êxtase celestial. Uma boa passagem de ano seria essa: meter-se dentro da sua casa, a mulher amada. Era culpa sua que os outros velhos precisassem de companhia? Era culpa sua que o milagre do amor não lhes tivesse batido à porta? Tudo o que lhe fazia falta estava ali. Ao contrário dos velhos do precipício, que se lamuriavam por não terem tido filhos nem disporem agora de netos que lhes alegrassem as festas, Pedro alegrava-se por não ter que dividir Elvira com mais ninguém. Filhos e netos eram ralações e despesas; na hora da decadência empacotavam a velharia em lares e escabichavam-lhe os haveres sem sequer aguardarem pela hora da morte. Pedro tinha uma caçadeira, não tanto para se defender dos ladrões, que nenhum se afoitaria a ir tão longe por tão pouco, mas para garantir que morreria assim que Elvira se finasse, caso deus ousasse a grosseria de a levar primeiro. Pedira à mulher que lhe fizesse gentileza idêntica se a morte o escolhesse antes. Elvira argumentara com a zanga de deus contra os que lhe roubam o poder.

- Não te apoquentes, mulher, deus distingue os que se matam contra ele dos que se deixam morrer de amor. O próprio filho dele se deixou matar para nos salvar.

Elvira pensou que dera demasiado lastro à curiosidade do marido sobre os livros. Era um pensamento que lhe acudia muito: para que se metera a ensinar a pensar um homem que passava tão bem sem isso? A vaidade não era boa conselheira, não. Pusera-lhe ideias na cabeça, e acabava a ter de se defender de prometer matar-se. Disse-lhe que ele baralhava tudo, e então o que havia de ser das galinhas, dos porcos, dos gatos e dos cães - e Pedro tornava que os vizinhos tomariam conta da bicharada, ele é que não podia entrar no céu sem a levar pela mão.

- Falamos disso mais tarde. Nenhum de nós está para morrer hoje - era a resposta dela, pronta a mudar de assunto.

Nisto ia o penúltimo dia de Dezembro adiantado, Políbio e Ana Maria polindo e brunindo e desempoeirando a louça melhor para a despedida do ano. Pedro veio à porta, olhou para o céu e anunciou trovoada.

- Oxalá venha forte, para que nem eles cá nos apareçam com a ceia, à última da hora.

Elvira retorquiu-lhe de dentro que não fosse mau nem agoirento, mas a frase foi engolida pelo estrondo do trovão. O céu desmoronou-se em água grossa açoitada pelo vendaval. O mundo transformou-se num animal uivante. Elvira e Pedro trancaram as portas e as portadas das janelas, e Pedro ajoelhou-se a rezar diante do Senhor do coração em chamas, enquanto Elvira se metia debaixo dos cobertores da cama, de olhos fechados para não ver os clarões dos raios, a pedir a Deus que não os levasse aos dois naquele dia.

O volume dos estrondos crescia, juntando-se ao barulho da chuva nas telhas e da água arrastando madeiras e pedras em torno da casa. E gritos - sim, gritos de socorro, entrecortados pelo som arrepiante da natureza descontrolada. O casal enfiou as suas capas de chuva, em silêncio uníssono, e saiu para a rua. Vislumbraram um par de vultos no meio da névoa gerada pelo dilúvio - Políbio e Ana Maria, molhados até aos ossos, sem capas nem casacos, desorbitados de pavor. Políbio gaguejava:

- A nossa casa. Uma desgraça. Acudam-nos.

A casa fora tragada pelo precipício. Um empurrão impiedoso de deus. Só haviam tido tempo de correr para a rua, no instante em que sentiram que as paredes se desconjuntavam e o chão lhes deslizava debaixo dos pés. Parecia bruxedo, diria mais tarde Ana Maria, vestida com uma roupa de Elvira, com os olhos desorbitados pousados nos olhos de Pedro. Ou maldição.

- E agora, o que vai ser de nós? - perguntava Ana Maria.

- Ficam conosco. - respondeu Elvira. - Temos um quarto de arrumos. E que não tivéssemos. Amanhamos aí um colchão e amanhã vamos à vila comprar uma cama.

Pedro botou a canja no lume e começou a cortar pão e chouriço. Depois da janta a chuva amainou. Os homens foram ao celeiro e trouxeram um saco de feno com o qual compuseram um colchão. As mulheres começaram a avinhar as carnes e a preparar as louças para a noite de ano-novo.

Nas casas antigas do monte apenas uma tem gente - a casa da ponta da igreja, onde moram dois casais mais velhos do que o próprio tempo, rodeados por cães, gatos, porcos, galinhas e coelhos. Arrufam-se, resmungam, gemem quando têm de se curvar sobre a terra e arrastam os pés. Não têm pressa de chegar à próxima passagem de ano. Os dias não lhes custam a passar; nenhum é igual ao outro.

A AUTORA

Nome: Inês Pedrosa

Idade: 49 anos

Origem: Coimbra,Portugal

Principais obras:A Eternidade e o Desejo (Alfaguara, 2008), Os Íntimos (Alfaguara, 2010) e Nas Tuas Mãos(Alfaguara, 2011)

A ILUSTRADORA

Nome: Catarina Bessell

Idade: 27 anos

Origem: São Paulo (SP)

Principal obra: Ilustrações do Olhar Estrangeiro (Trabalho apresentado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP)

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