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Réveilon, Parte 3

Por Ronaldo Correia de Brito

31 de dezembro de 2011 | 03h00

Choveu um mês inteiro, deixando escorregadios os caminhos da serra por onde Pedro se deslocava com sua tropa de burros, cinco animais ao todo, abastecendo as aldeias de farinha, carne defumada, peixe, azeite e até mesmo vinho, quando a safra de alguns não bastava para o ano. Vendia e trocava, aceitando qualquer negócio, desde que garantisse o lucro da viagem. Nunca tinha dia certo de volta, tomando desvios, encompridando itinerários, indo aonde sabia existir alguém disposto a comprar e a vender. Recebia encomendas, o tecido preto que cobrisse a viuvez da mulher ainda jovem, as rendas de um timão de batizado, certo jarro de estanho para o altar da igreja, um ruge que avivasse as cores do rosto num dia de festa, miçangas, brincos, diademas vistosos para os cabelos. Pedidos sussurrados ou escritos com letras toscas em folhas de papel, garatujas inúteis que ele não sabia decifrar, dependendo da leitura dos vendedores que despachavam as encomendas. Disfarçava a cegueira do analfabetismo na conversa comprida, uma lábia sedutora de homem curtido em lugarejos de uma só rua, comércio miúdo, mesas de estalagem. Beirava os trinta anos, mas nunca se decidia a casar, saciando-se nas casas de portas e janelas fáceis, onde entrava sem pedir licença.

Convencido de que seu lugar era mesmo a estrada, a sombra das árvores, as palhas de um celeiro e o amor apressado das fêmeas alheias, tocava os dias. Melhor desse jeito, menos trabalhoso, resmungava aos companheiros burros. Daria outro preço aos aconchegos de uma casa, quando na velhice sentisse a falta de um escalda-pés ou um chá antes de dormir. Preço bem maior se desejasse escutar um boa-noite com a luz apagada e perceber alguém atento à narração do pesadelo que o assombrou e fez lembrar a morte. Vara o escuro pensando nessas coisas, enquanto a chuva cai sem promessa de parar algum dia, encharcando os ossos. Os cadarços das botas se rompem e os pés brancos enregelam até ficarem roxos. Exausto, sonha que uma porta se abre, dando entrada a uma sala onde reconhece objetos, há anos no mesmo lugar, cobrindo-se de mofo e pó, ali desde sempre como a velha cadeira em que poderia sentar junto ao lume e aquecer-se. Porém, o que sopra da lareira imaginária são lufadas de vento frio, a fumaça da lenha queimando não passa de neblina espessa e o estofado da cadeira, chão coberto de lama. Mal consegue enxergar o pedaço de chouriço que leva à boca, nem o pão molhado pela chuva.

Pedro atribui à festa de ano-novo, na casa da ponta do precipício, as lembranças que o invadem sem obediência à escolha. Cansou de buracos à sua frente durante as viagens, abismos que poderiam tragá-lo num cochilo. O vazio convida ao salto, basta mirar lá embaixo e ceder ao impulso que todos guardam dentro de si. É por temor ao desconhecido que se recusa a pensar na festa, num lugar fora da sombra a que se recolheu? Mesmo tendo lacrado certa lembrança ruim num pote de barro, sem remexê-la nos anos em que o rosto se cobriu de rugas, Pedro não esqueceu o juramento de que nunca mais entraria na casa por onde se esgueirou como um ladrão afoito, em busca do prazer que fora concedido ao estranho.

Um simples convite desperta as intrigas que já se calaram, reacende na lembrança dois olhos brilhando de rancor. A fotografia de revista poderia ser a de Ana Maria acocorada no chão, Pedro recompondo as vestes, o caminhar nada inocente de Políbio, descendo a encosta após haver enterrado o estranho. E nos anos pela frente, até que a velhice fosse uma paralisia, nenhuma conversa sobre os selos da virgindade, nem menção aos desejos de transpor o mar, apenas falas curtas sobre quase nada, provando que é possível resguardar os segredos, enterrá-los como aos mortos. Finalmente chega o dia em que eles se cansam da inércia, se remexem na cova e espantam os vivos.

Mesmo quando caminharam juntos, subindo e descendo encostas, tocando os burros aos gritos, dormindo quase abraçados de tão próximos, nos telheiros onde se abrigavam do frio e da chuva, mesmo assim, Pedro e Políbio não falaram de outra coisa que não fosse o preço alto do vinho, a safra de azeite, o sabor de umas broas de milho com assado de porco, que apreciaram em certo albergue. Os antigos garantem que os defuntos comem a terra do chão. Melhor para os vivos se não os pranteiam nem acendem velas nos seus túmulos, preenchendo o tempo de outras maneiras. Podem rir e se ocupar com os enxovais de um casamento, coisinhas simples para quem se habituou às poucas necessidades. Não era serviço de Ana Maria sair na companhia de homens, subindo e descendo serras, comprando os apetrechos da casa pintada de cal virgem branca, o sinal da pureza virgem que Pedro não desfrutou. Bela e estranha morada na ponta de um precipício, lugar onde Satanás tenta Jesus desde séculos, segundo as falas do padre.

Ia Políbio sozinho, ou melhor, acompanhando a viagem de Pedro. A lista de compras e muitas recomendações na cabeça, cédulas guardadas em esconderijos na roupa. Dentro de um mês justo, casaria. E os mesmos sinos das bodas seriam escutados por anos a fio, lá onde a casa se abeira do precipício, tocando horas e datas, até os anos se gastarem, os velhos morrerem de velhos, os jovens buscarem outros rumos e o próprio campanário ruir.

Antes que essas coisas acontecessem e só restassem quatro velhos e seus temores de uma festa, Pedro percorreu a rua do vilarejo com os animais estropiados, parou em frente à casa da ponta da igreja e, sem bater palmas nem gritar ô de casa, entrou de sala adentro. O cenário mudara bastante desde sua última partida, há quase três meses. Naquele mesmo cômodo recebera a encomenda de linhas, fitas e botões, da viúva costureira, e vinha entregá-la. No lugar de móveis capengas encontra uns bancos toscos, uma mesinha repleta de livros e cadernos, como se ali funcionasse uma escola. Funcionava. Elvira, a filha da viúva, que todos juravam nunca mais voltaria àquele lugar onde o diabo perdera o rumo, voltara. Sem planos melhores para os anos que gastou em estudos, morando numa cidade longe com uma tia velha também viúva, Elvira decidiu ensinar as crianças a ler.

Acontece o primeiro milagre da conversão de Pedro. Ele, que uma vez ou outra se vestia decente em colete preto, parecendo bonito embora fosse o mesmo homem rude acostumado a conviver com os burros, sente o peso das botas, da lama que suja o piso, do corpo sem sinuosidade para mover-se entre as carteiras. Os olhos se enchem de lágrimas quando avistam os livros descansando sobre a mesa. As mãos folheiam algumas páginas e surge o desejo de conhecer os mistérios que se guardam ali. Sem trato com as mulheres além do que ganha a força, ou recitando umas cantadas sujas, ele jura casar-se com a dona dos livros, a criatura que decifra os enigmas de todas aquelas letras, nem que para alcançar o intento precise vender a alma a Satanás ou tornar-se o mais devoto servo de Deus. Selando o juramento, o sino toca no campanário ao lado, na verdade chama para a missa, porém o rapaz interpreta como um sim à promessa. Ajoelha-se diante da mesa e nessa posição a mãe e a filha o encontram.

- Pedro! O que está fazendo?

- Me ajoelhei quando ouvi o sino.

- Minha filha voltou. Lembra dela?

- Ela foi embora pequena.

Entrega os aviamentos, recebe o dinheiro sem graça, mira os olhos de Elvira e acha neles o que nunca viu nas outras mulheres. Conhece o enredo da família, a vida das pessoas é um legado comum aos moradores da aldeia. Quando o homem da casa morreu, o ganho com as costuras não foi suficiente para alimentar duas bocas. Elvira deixou a mãe sozinha, a casa onde primeiro viu a luz do sol, a promessa de um casamento com Políbio. Não voltou para exigir o que lhe fora prometido. Veio amparar a mãe e reavivar no coração a lembrança do sino, que aos poucos se calava.

- Ainda são os mesmos burros? - pergunta.

- Alguns morreram.

- Escutava os guizos e corria pra janela.

- E por que não correu, agora?

- Não sou mais menina.

Pedro estranhou que ela deixasse de amar as coisas, apenas porque crescera. Pediu licença e partiu de cabeça baixa.

O segundo milagre aconteceu tempos depois, quando a aldeia se esvaziara de boa parte dos moradores, o padre vinha somente para a extrema-unção, as paredes da igreja ameaçavam ruir. Mal se ouvia as vozes das crianças, na rua e na escola. Na falta de ocupação, Elvira costurava vestidos para as freguesas da mãe, que nunca se conformaram com a perda da modista. Sobrava a janela, de onde espreitava o marido, anunciado pelos guizos dos burros e a poeira que subia dos cascos. Pedro também vigiava de longe, como se fosse enxergar a meninazinha prometida a outro, a trança dos cabelos presa por um laço de fitas, cabelos e fitas despencando na moldura da janela. Fazia a conta dos dias gastos longe da esposa, um desperdício de enlevos, sussurros e afagos. Não podia carregar a casa nas costas, nem viver sem as viagens.

A porta e a janela da única casa que interessava a Pedro estavam fechadas, sem ninguém a esperá-lo, na tarde em que ele gritou com seus burros, desejando que ouvidos mais inteligentes o ouvissem. Era a primeira vez que acontecia essa ausência e Pedro temeu o pior. Sem ligar para os animais e as cargas, cuidando em não fazer barulho, ele adentrou pela casa, à procura da mulher. Estirada na cama, com apenas uma vela a clarear o quarto, Elvira se ardia em febre, amarela como se fosse morrer. Há dias não comia, nem bebia, sob os cuidados de ninguém. E assim ficou por mais tempo, sumindo, sumindo, parecendo que iria de vez, como os moradores da aldeia, deixando apenas o silêncio e o vazio.

Pedro nunca soube rezar, até a hora em que levantou os olhos à imagem do Coração de Jesus, pendurada no quarto onde ele e Elvira se amavam e dormiam. Também não sabia pedir, mas implorou àquele Deus de coração ardendo em chama e coroado de espinhos, que não levasse a mulher de sua vida. Se, por capricho, Ele tivesse de levar alguém, se oferecia em troca. Jurou livrar os burros das cangalhas, soltá-los no pasto e nunca mais sair da aldeia. Passou a noite falando coisas ternas, cantando o que imaginava fosse apropriado e por fim adormeceu de cansaço. Acordou com Elvira lhe oferecendo uma tigela de caldo. Com medo de vingança e agiotagem divina, pagou a promessa e não quis mais deixar a casa.

O terceiro milagre seria...

O AUTOR

Nome: Ronaldo Correia de Brito

Idade: 60 anos

Origem: Saboeiro (CE)

Principais obras: Faca (Cosac Naify, 2003), Livro dos Homens (Cosac Naify, 2005), Galiléia (Alfaguara, 2008) e Crônicas para Ler na Escola (Objetiva, 2011)

A ILUSTRADORA

Nome: Catarina Bessell

Idade: 27 anos

Origem: São Paulo (SP)

Principal obra: Ilustrações do Olhar Estrangeiro(Trabalho apresentado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP)

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