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Réveilon, Parte 2

Por Carol Bensimon

31 de dezembro de 2011 | 03h00

São quatro da tarde, eles ainda jovens, de pais vivos, de mães vivas e submissas. Se alguém olhasse de cima então, quando as nuvens abrem espaço suficiente para o olho de um deus, veria a linha reta do vilarejo de casas geminadas que, descendo levemente em direção oeste, desaparece num tanto de colinas bem verdes. E depois a capela. E atrás o cemitério, emaranhado de túmulos meio tortos das famílias que já se foram inteiras, ou mausoléus tão sólidos quanto a casa recém-feita na ponta do precipício. Todos nesse vilarejo, pontinhos que traçam trajetórias engraçadas, para arrumar a gravata, para evitar que a poeira alcance a barra da saia, para dizer uma maldade ao pé do ouvido, para alcançar um galho, e quebrá-lo, e brincar com ele por uma parte do caminho, todos nesse vilarejo estão vestidos de preto. Um homem está morto. Mas ninguém sabe quem é, nem de onde veio.

Talvez Ana Maria. Ela saiu correndo mais cedo, para o lado oposto ao que devia ter saído. O sino tocou, as famílias se apressaram, encontraram-se diante das casas, eles tinham coisas sujas para dizer, um montão de coisas sujas, algumas tinham a ver com o morto, outras eram velhas de cinco ou vinte anos. Andavam lado a lado e não disseram nada, porque havia um olho lá em cima, espiando. Ou: porque havia a ideia de que havia um olho.

Onde Ana Maria podia ter ido?

No galpão onde dormiam as duas vacas, as duas éguas e o burro, foi no galpão que o pai colocou o estranho para passar a noite, e ninguém nunca tinha visto aquele rosto antes de ele surgir na beira da estrada. Disse que ia em direção ao mar, mas o mar ficava longe. "Tenho tempo." Não era, porém, do tipo com um parafuso a menos. Uns vinte e poucos anos, fez caretas para as crianças, falou de assuntos sérios com os homens, declamou poemas para as mulheres. Longe de ser um andarilho barbudo, não fedia, não deu explicações próprias para o funcionamento do mundo, a roupa era boa, se havia um defeito era o de parecer vaidoso demais. Quase não suava. Alguns decidiram dormir de olhos abertos. E o homem deitou no feno, com os dedos entrelaçados por baixo da cabeça, e ficou olhando para os olhos pretos da vaca, duas bolitas enormes que continham todo o vazio do universo. Queria mesmo chegar ao mar.

Enquanto passavam todos pela porta estreita da capela, Ana Maria estava na ponta do precipício. As paredes da casa nova pareciam inclinadas para o nada agora, como se a casa toda estivesse indecisa. A mãe havia plantado umas flores miúdas em volta. Regá-las já seria um movimento arriscado no futuro. O que Políbio ia achar disso?

O último banco da capela foi ocupado por um velho viúvo, que farejava a nuca dos outros para então arriscar umas maldades, tinha visto movimento à noite no celeiro, além do estranho, mais gente, na lua cheia a gente vê o que não quer. Alguns respondiam: shhh, o padre. Outros respondiam: conte mais. Políbio estava em algum lugar por ali, sem ouvir, mas rangendo os dentes. Deus garantia a comédia, sempre.

Há algum tempo Ana Maria vivia inquieta. Uma revista fora o estopim. Essas que faziam crescer pelos nas mãos dos moleques, e que portanto em Ana Maria não deviam causar grande coisa dentre os castigos listados pelo homem. Fotos de mulheres mascaradas, um pouco cheinhas, inclinadas sobre mesas de jantar, no batente de uma porta, outra acariciando um corvo, todas quase nuas ou nuas de fato. Alguém deixou a revista no meio do mato porque temia que um raio caísse na sua cabeça. Um raio podia rachar a cabeça ao meio se a cabeça estivesse ocupada com as coisas imundas desta vida. Ana Maria catou a revista e a olhava sempre que possível. Ficou meses esperando, e o raio não caiu.

E então ela ia se casar com Políbio, os pais mandaram construir a casa. Pensou se isso não seria o raio metido em algum disfarce, disfarce de homem bom, disfarce de casa confortável. Já tinha chorado o que tinha para chorar mas havia sempre mais, de modo que não era exatamente uma surpresa o que acontecera na noite anterior. Ana Maria então entrou na casa, e a falta de familiaridade com tudo aquilo, mais o cheiro de cimento, deixaram suas pernas meio bambas. Soltou os cabelos, o que tornava mais trágico o movimento de ir até a janela à beira do precipício, isto é, se alguém estivesse olhando lá do alto, que se por ventura houvesse alguém não haveria de se preocupar com telhados, ultrapassavam-se os telhados, e a carne, e via-se a alma mesmo.

Se pudesse posar, seria a mulher mais desejável da revista.

Mas o Políbio só tinha visto suas canelas.

Na ponta da igreja, soou o primeiro acorde do órgão. Percorreu a rua, entrando pelas janelas que as famílias tinham deixado abertas, casas entregues às moscas, altares com velas queimando para o estranho, a leve subida em direção ao leste até que encostasse nos cabelos soltos e despudorados de Ana Maria. Políbio se ajeitou no banco. Ana Maria parada na janela, o vento era uma bofetada. Antes de ontem, ela nunca tinha encontrado aquele tipo de homem. E, antes de hoje cedo, nunca tinha visto um homem morto. Jovem e morto. Não era perfeitamente explicável o que tinha acontecido, mas muitas coisas não se explicavam, como raios que caem exatamente na cabeça de alguém, com todo o espaço de campo que há em volta, e exatamente na cabeça de quem esteve lendo revistas escondidinho e de calças arriadas por tardes e tardes de calor sufocante, um moleque num outro vilarejo, todos contavam. Preferiu não ver o estranho no caixão. Não o imaginava com as mãos sobre o peito, mas com elas atrás da cabeça, que era a pose de quem tinha tempo de sobra para chegar ao mar. Encarando por vários minutos os olhos da vaca. Ana Maria sentou no chão, e o cheiro de recém-feito era mais forte ali. Ela teria ido ao mar, mas havia essa casa quase pronta, ninguém nunca tinha dito que podia existir uma saída entre a igreja e o precipício. Que não a igreja, que não o precipício. E Ana Maria nem tinha certeza de ter escolhido.

O órgão cessou e promoveu um silêncio repentino na capela, de modo que alguns foram pegos no ato de cochichar. Em tom de reprimenda, o padre elevou a voz. Havia um cupim alado que ia se arrastando no encosto de um dos bancos, eles também eram chamados de siriris, ou aleluias, ganhavam asas para procurar um parceiro e fundar uma nova colônia, chegando a um novo local as asas eram então forçadas contra a superfície e expulsas do corpo porque já não tinham serventia, bastava rastejarem atrás de um outro, com sorte copularem, com mais sorte fundarem uma nova colônia, mas o mais provável mesmo é que morressem sem ter cumprido nenhuma parte da missão.

No entanto, os bancos da igreja estavam entranhados de caminhos e passagens e esquinas de farra e pequenos estômagos de cupins digerindo madeira. Séculos de sorte e azar.

O velho viúvo esmagou o cupim alado, depois limpou a mão nas calças. Disse para a senhora à sua esquerda: "Eu vi mulher que entrou no celeiro e demorou a sair."

Ela respondeu baixinho.

"A verdade é que o senhor não vê muito bem."

"Como?"

"A sua visão. Está comprometida."

O velho balançou a cabeça. Não só via, como farejava problema a léguas de distância, e o cheiro era de carne podre.

"Também vi homem entrar no celeiro, a senhora sabe?"

"Foi morte natural."

Na casa inacabada do precipício, Ana Maria escutou passos. Raspavam o chão, esmagando as sobras de cimento, um barulho agudo e desagradável. Podia ser o pai, e por isso achou melhor ficar sentada ali. No caso de ser Políbio, bastava inventar qualquer coisa, levantar, correr com entusiasmo na sua direção.

Pedro?

Usava um colete preto que não era mau. A peça de roupa parecia ter agido como uma espécie de corretor de postura, de forma a torná-lo mais seguro, um tanto correto, quase bonito. Ana Maria se levantou, passou as mãos na saia.

"Você não está na cerimônia", ele disse.

"Nem você."

Ele riu, tenso. Caminhou pela peça vazia.

"Vai ficar bonito aqui. Mas é tão longe do vilarejo."

"Eu prefiro assim."

"Você não é de falar muito, é? Ou ao menos com o Políbio."

"Eu falo quando tenho vontade de falar."

"Ontem deve ter tido. Você e o estranho."

Ana Maria queria ter estraçalhado Pedro com as unhas, mas não se mexeu. Então houve o que depois todos esqueceram por teimosia: Pedro chegou perto dela, ela recuou tanto que se viu presa no ângulo do quarto que ainda não era quarto, as mãos de Pedro subiram pela blusa, levantaram a saia, Ana Maria pensava nas fotos da revista, mas também em algo mais gosmento, uma ferida aberta, larvas, a revista, um tronco podre de árvore, o estranho, a revista, a maçã quando já não é boa nem para uma única mordida.

Ela chorou, de cócoras e cabelos úmidos na cara, uma posição igualmente trágica, e a tristeza não era tanto pelo que acabara de acontecer, mas pelo que não tinha acontecido na outra noite, enquanto que Pedro estava diante da janela, os olhos fixos no precipício, pensando em se casar com a primeira que lhe provasse que era virgem. Nunca mais ia entrar naquela casa.

Dentre os quatro homens que carregaram o caixão do desconhecido, um deles era o pai de Ana Maria, outro Políbio. Dentre as mulheres que, emocionadas, jogaram um punhado de terra no buraco de sete palmos, a primeira foi a mãe de Ana Maria. Também chorava. O velho viúvo colocou a mão em seu ombro, tentando consolá-la, lembrando talvez uma paixão de juventude, enquanto o padre dizia as últimas palavras e todos já pensavam em ir embora. Sobre as nuvens, o olho já não via mais nada.

A AUTORA

Nome: Carolina Bensimon Cabral

Idade: 29 anos

Origem: Porto Alegre (RS)

Principais obras: Pó de Parede (Não Editora, 2008)e Sinuca Embaixo d’Água (Companhia das Letras, 2009)

A ILUSTRADORA

Nome: Catarina Bessell

Idade: 27 anos

Origem: São Paulo (SP)

Principal obra: Ilustrações do Olhar Estrangeiro(Trabalho apresentado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP)

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