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Réveillons

Tomei num réveillon meu primeiro e único porre, já bem crescidinho, já jornalista

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2021 | 03h00

Já estamos no segundo dia de janeiro, mas acho que ainda é permitido falar de réveillon. Não o de ontem, pois, ao digitar estas linhas na quarta-feira, ainda desconhecia o que no seu decurso aconteceu, e sim daqueles que nunca me saíram da memória. Dos idos meninos, nenhum.

A palavra réveillon e suas ocorrências entraram relativamente tarde em minha vida. Dizia-se, então, “romper o ano”. A grande data do fim de ano era o Natal, celebração eminentemente familiar. Virar a última noite de dezembro era festa eminentemente de adulto.

Na infância, passagem de ano me recendia a momentos e imagens de cava tristeza, sem dúvida inculcados por melodramas pontuados com a destroçante canção Auld Lang Syne, do escocês Robert Burns, aqui conhecida como Valsa da Despedida. Ela encharcava de melancolia o dramalhão A Ponte de Waterloo, a que minha mãe e eu, os olhos empapuçados de tanto chorar, mal conseguimos assistir até o fim.

Tomei num réveillon meu primeiro e único porre, já bem crescidinho, já jornalista. Bebo moderadamente e, antes de dar qualquer vexame, fico nauseado e, para sorte minha e dos circunstantes, puxo o freio e estaciono.

Vomitar é sempre um vexame, e foi justamente o que eu dei na virada de 1962 para 1963 (ou teria sido no ano seguinte?), no velho La Gôndola, na Sá Ferreira (Copacabana), que só chamávamos de “Glândula”. Foi lá, pouso dileto de boêmios da ribalta, que Paulo Francis e o mestre da crítica de cinema Moniz Vianna sairiam nos tapas pouco tempo depois, histórico pugilato de que já dei conta nestas páginas.

Na companhia do rimbaudiano cronista do Jornal do Brasil José Carlos (Carlinhos) Oliveira e Geraldo Queiroz, crítico de cinema do mesmo diário, cedi à insensatez de entornar champanhe de estômago vazio, agressão que uma raquítica salada de palmito só fez agravar. Devolvi-a na calçada defronte. Tivesse a presença de espírito de Herman Mankiewicz, teria obtemperado: “Calma. O champanhe veio junto com a salada”.

Depois surgiriam os réveillons de truz, bolados, em meados da década, pelos criadores da Banda de Ipanema Albino Pinheiro (o maior festeiro do Rio), Jaguar e Ferdy Carneiro. Era a fuzarca carioca em estado puro, hidratada a chope e uísque, com o Tout Rio presente e incandescente.

Mulheres lindas e esculturais em profusão, “uma multidão compacta banhada em suor e álcool, fustigada por sambas e marchas de todos os tempo”, que nos recebia “com centenas de abraços esmagadores e beijos aplicados por todos os sexos permitidos por lei”, na descrição precisa do habitué Carlinhos Oliveira.

Com ingressos vendidos no apartamento da mãe de Jaguar, na Praça General Osório, até por isso nasceu como “o Réveillon de Ipanema”, onde, ainda segundo Carlinhos, “ninfomania e castidade coexistiam pacificamente, quando não se entrelaçavam”. Desde seu début, porém, a festa se aboletou no clube Silvestre, cume do bairro de Santa Teresa, até se aposentar ao nível do mar, na gafieira Elite, depois que a ditadura militar apertou ainda mais as cravelhas.

Na despedida de 1971, uma jovem de microssaia acertou sem querer a cabeça de Paulinho da Viola com uma garrafada, originalmente endereçada ao bestunto do namorado. Ao dar-se conta da desastrada reação, a moça debulhou-se em lágrimas e, gemendo, desculpou-se com Paulinho: “Perdão! Queria acertar aquele ali. Eu sou sua maior fã, Paulinho!” Um filete de sangue escorria pela testa do compositor, que se recuperou a tempo de romper, fagueiro, o novo ano.

No réveillon anterior, recluso num hotel de Nova Friburgo, não pude ver com meus próprios olhos a triunfante chegada à folia dos colegas do Pasquim libertados naquela noite após dois meses de prisão na Vila Militar. Soube que, como de hábito, algumas brigas espocaram aqui e ali – geralmente iniciadas por namorados e maridos enciumados – e que, também como de hábito, Albino, bem dotado fisicamente, pegou os convivas mais agressivos pelo cós das calças e depositou-os na escuridão da noite.

Não era nascido quando, no último réveillon antes da guerra (a do Hitler), Silvio Caldas fez história levando Cartola e sambistas da Mangueira ao palco do Cassino Atlântico, no Posto 6 de Copacabana. Também lamento não ter pegado as festas que a carnavalesca Eneida organizava no legendário bar Vermelhinho, defronte a ABI, o mais bem frequentado pela intelectualidade dos anos 40-50. 

Já rompi o ano al mare, num saveiro com umas 20 pessoas, meados de 1970. Éramos, a bem dizer, dois saveiros. O meu, além de dotado de uma bandeira de pirata, com caveira e tudo, singrava a baía de Angra ao som da música que Wolfgang Korngold compôs para o filme Gavião do Mar. Nem assim equipados escapamos do saque a que nos submeteu o saveiro rival, com Ziraldo, Ruy Castro e João Luiz de Albuquerque a bordo. Na calada da madrugada, João Luiz, num lance digno de Errol Flynn, roubou-nos o pavilhão bucaneiro.

Humildemente confesso: não estive no que entrou para os anais como “o Réveillon da casa da Helô”, na passagem de 1967 para 1968. Talvez tenha sido o mais imperdível da história.

Combinado casualmente nas areias de Ipanema, com a exigência de que cada conviva levasse duas garrafas de uísque, juntou vips da imprensa e da classe artística, residentes ou de passagem pelo Rio, na espaçosa casa do advogado Luiz Buarque de Hollanda e da professora e escritora Heloísa (Buarque de Hollanda).

Teve de tudo: barracos a granel, 17 casamentos desfeitos. Por incrível que pareça, ainda sobraram cem garrafas de uísque, revendidas pelos anfitriões para cobrir as despesas de reconstituição da morada. Foi “o último baile da Ilha Fiscal” da primeira fase da ditadura de 64. No fim do ano entrante, o AI-5 acabaria com a festa. Aliás, com todas as festas.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

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