"Réveillon" volta aos palcos em SP

Durante muitos anos, Bianca Byington procurou um texto da dramaturgia nacional para produzir e atuar. Em 1999, um amigo lhe entregou a peça Réveillon, trabalho mais conhecido do jornalista e dramaturgo Flávio Márcio, morto em 1979, aos 34 anos. A atriz ficou fascinada com os diálogos entrecortados e o enredo absurdo sobre a destruição de uma família de classe média. O resultado desse encontro poderá ser conferido a partir de amanhã, quando Bianca, Rui Rezende, Malu Valle, Gilberto Hernandez e Guilherme Sarmento sobem ao palco do TBC dirigidos por Michel Bercovitch. No primeiro semestre, a montagem foi levada durante dois dias em Belo Horizonte. É a terceira montagem de peso de Réveillon em quase 30 anos. A peça estreou no Rio em 1974, encaixada entre outras três, num sistema de repertório. A direção experimental de Aderbal Freire dificultou a compreensão do texto. Depois desse primeiro fracasso, Paulo José e Regina Duarte resolveram montá-la no ano seguinte. O tratamento mais naturalista da direção e a aplaudida atuação de Regina mantiveram o espetáculo em cartaz durante dois anos em São Paulo. Depois da morte de Flávio, montagens esporádicas de grupos amadores ou desconhecidos fora do eixo Rio-São Paulo foram realizadas sem repercussão. Outro destino teve Réveillon fora do Brasil. A peça foi montada em 13 países. O diretor Bercovitch, que dirigiu recentemente a premiada O Zelador e integra o elenco de Casa das Bonecas, procurou dar autonomia ao texto de Flávio Márcio. "Ele tinha uma habilidade incrível de lidar com os diálogos para criar situações incríveis", disse o diretor. Atualidade - Em Réveillon, a família Guimarães começa uma discussão na manhã da véspera do ano-novo. Em falas e situação absurdamente cômicas, um a um pais e filhos vão morrendo. Abusando de lugares-comuns, a peça atinge o grotesco e o humor negro em vários momentos, quando, por exemplo, o pai, preocupado em pagar a conta de luz, aponta um revólver para a própria cabeça enquanto redige a autobiografia. Ou a filha, que se desespera com a torta que queima no forno e exulta quando encontra um vidro de maionese, enquanto ajuda a mãe a se enforcar. Para Michel Bercovitch, a história começa com o dia e termina com a noite. "É um paradoxo. Os personagens vão descobrindo a verdade à medida que o dia avança e a noite chega." Em uma entrevista, o autor Flávio Márcio explicou o que a peça significava para ele: "Se você vê a família Guimarães como um símbolo da classe média, então a peça mostra mesmo a classe média se jogando pela janela. Mas não poderá ser também uma denúncia? Se ela não enfrentar a verdade, não haverá outra saída. Não significará o suicídio para eles, no fim, já que estão mortos desde o começo? Não falam ou assumem nada. Não enfrentam o fato que precisam da prostituição da filha para sobreviver." É justamente esse caráter de denúncia, aliado à força expressiva do texto, que Bianca Byington quer transmitir ao público. "Se você olha para trás, vai ver que a classe média da década de 70 era outra coisa. De lá para cá, a indiferença e a corrupção aumentaram muito. É claro que muitas referências do texto são datadas. Mas, por outro lado, há uma verdade e uma atualidade indiscutíveis nele." Não por acaso, Bercovitch refere-se a Réveillon como um clássico novo. "A peça não é tão antiga assim, é pouco conhecida e tem uma atualidade impressionante." Réveillon - Sexta e sábado, às 21h, domingo, às 19h. Ingressos: sexta e domingo: R$ 20. Sábado, R$ 25. Teatro Brasileiro de Comédia: Rua Major Diogo, 315. Tel.: 3115-4622.

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