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Réveillon, Parte 1

Por Valter Hugo Mãe

31 de dezembro de 2011 | 03h00

Nas casas antigas sobre o monte, apenas duas tinham gente. Dois casais encarquilhados de velhos, a amar e a desamar a vida tão gratos pela idade quanto cansados de resistir. Quatro velhos remediados com seus trapos, uns porcos a engordar com cuidado e alguma míngua, galinhas e coelhos, muitas couves, pedras, bichos vadios a passar, um vento sempre demasiado frio. Andavam no monte num vagar grande, sem lonjuras nem sonhos maiores do que as vistas, e ver era já o regalo todo, uma maravilha. Na rua estreita de casas abandonadas, os dois casais eram assim distintos, o da ponta da igreja e o da ponta do precipício. Mas não era aquilo igreja nenhuma. Era um resto de uma capela pequena, já quase só um compartimento ensimesmado. Outrora era que havia gente e mais gente e tudo parecia ter tamanho para maior importância que até a capela tinha sempre missa e muita serventia. Agora, estava apenas fechada, que para proteger as estátuas era melhor ninguém andar por ali adentro a espiar.

O casal da ponta do precipício tinha mais vistas e menos convicções na transcendência. Claro que temiam a deus, mas faziam tudo como os cristãos mais distraídos. De verem as vistas, parecia-lhes a imensidão da encosta, o declive tão aguçado, uma coisa bastante, como se bastasse para ser adorada e mais nada. E a vida era adoração.

O casal da ponta da igreja, tão ali à porta, a tomar conta da chave e talvez com maior saudade do movimento, era mais de fanicos de cruzes e benza um e benza outro, qualquer coisa como um contínuo diálogo com o criador que, até então, resultou só em silêncio, muita contenção, alguma vergonha e todos os afazeres. Mas adoravam. E a vida era adoração.

 

Por uma vez, quiseram os velhos da ponta do precipício que se passasse o ano na sua casa. Consagravam as festas a deus e sempre assim fora mas, por uma só vez, queriam que deus caminhasse a rua estreita, tão breve afinal, e estivesse ali, diante da profundidade da encosta, diante da magnitude do que era o mundo.

Os velhos da ponta da igreja andavam às avessas faziam já duas semanas. Duas semanas de bico calado, a cozinharem uma zanga, muito arreliados por se pensar agora em mudar o que era costume. E o ano entra de qualquer maneira, pensavam, o ano há de chegar, que sempre depois de um vem outro e o que fica é sempre o respeito de deus. Deus fica. Pensavam assim, os da ponta da igreja.

Quando se reuniram para o natal, todos mesmamente metidos em xailes, comeram a resmungar quase nada. Resmungavam como se tivessem perdido o conhecimento da palavra. Eram como pedras duras, casmurras, aos encontrões. Talvez fosse pecado passar o natal assim de má vontade, com coisas para dizerem que não diziam, era como estarem a mentir uns aos outros.

Os da ponta do precipício é que tinham feito caminho, como de costume, para a casa dos da ponta da igreja, e isso estava certo, mas faltava ficarem contentes por vir a ser diferente na passagem do ano. Mas não ficavam contentes, as pedras casmurras, ficavam cada vez mais fechadas, burras dos afectos. Estavam muito burras dos afectos.

Naqueles ermos, a festa era uma hora passada a comer e a dizer obrigado pelos pequenos favores de todos os dias. Obrigado pelo pão, por passar o pão, por servir a sopa, por ter colocado uma toalha lavada sobre a mesa. Obrigado por haver um banco para sentar. Obrigado pela água fresca, mas também pelo precioso vinho que ainda arranjavam modo de fazer e deixar amadurecer como uma inteligência maior para os momentos maiores da vida.

Nos dias normais, não tinham educações desnecessárias. Falavam-se com os bons-dias e as boas-tardes mas, depois, não perdiam tempo. Eram como família para ali atirada, uns aos outros, estavam atirados uns aos outros e tinham de se ajudar e suportar. Não era escolha nenhuma, era um destino, e amainavam perante tudo que era do destino por ser a vontade de deus.

O velho da ponta do precipício disse, subitamente, que faziam gosto que a festa do ano pudesse ser lá em casa. Iam engalanar a sala como se fosse de arraial. Vamos pôr a casa bonita como há muito não pomos. É para alegrar as paredes, que até as paredes hão de pensar em alguma coisa, depois de tantos anos a olhar para o mesmo lugar. Achavam que as casas haviam de ganhar inteligência por passarem tanto tempo escutando gente, vendo como a gente diz e faz.

A velha da ponta do precipício sorria, dizia que sim, para concordar com o marido, e esperava que o casal amigo sorrisse também. Queria muito vê-los sorrir, como finalmente contentes por entenderem uma vontade tão simples.Os da ponta da igreja não encaravam. Custava-lhes pensar naquilo. Um disparate, ir para a casa do precipício, onde nem se podia vigiar a igreja, onde nem se estava dentro da aldeia. Aquela casa era já na viragem da paisagem. Era uma casa como a ir-se embora. Que disparate. Para ver os paninhos coloridos, os copos com flores pintadas, os pratos guardados de outros requintes e já todos estalados. Engalanar uma casa como se fosse tempo para essas coisas. Essas manias eram de quem não tinha o que fazer e resultavam sempre num desperdício.

Para engalanar estavam as maneiras, a educação, isso era coisa de ter arrumo e mais cuidado. Mas as casas não, elas só precisavam de estar limpas. A dignidade é que limpa tudo e faz bonito. O velho da ponta da igreja, irritado, disse: a dignidade é que limpa tudo e faz bonito. Os velhos da ponta do precipício, ofendidos, levantaram-se e saíram. Nunca por ali existira um natal tão triste.

Deus havia de estar surpreso com o modo como os poucos velhos daquela aldeia se estavam a desentender. De qualquer forma, surpreso ou não, manteve o silêncio. Não choveu, não acelerou o vento, não mudou nada. Nas janelas a deitar sobre o precipício a escuridão fazia a noite mais calma. Era uma ausência, como se tudo fosse também um precipício, ou como se tudo fosse nada. Havia apenas a casa e o casal. Havia a pouca luz, até que se deitaram, entreolharam, quase sorriram, apagaram a luz, viraram nada, sossegados. No sonho, a velha ia jurar que, entretanto, deus choveu.

Estava tudo molhado na manhã cedo. Passava um fio de água que escorria pelos cantos da rua, encanado pelo escavado na pedra. Era sempre assim nas chuvas. O inclinado da aldeia escorria a água que vinha mais de cima e era uma água boa, cristalina, que ia caminho fora rápida e esperta como um gato longo, translúcido.

À revelia de qualquer confirmação, o casal da ponta do precipício começou a pôr a casa de festa. Era muito bom que tivesse chovido. Estavam os terraços lavados, a pequena varanda, a soleira da porta onde o cão se deitava a largar pulgas. O velho e a velha já viravam as jarras para a frente, mediam o lugar delas sobre os móveis, enchiam-nas com pequenos arranjos de raminhos de pinheiro e pinhas que abriam no lume. Espanaram o pó. Remendaram uma cortina. Puseram sobre o parapeito da janela principal uma fotografia da igreja nos tempos antigos. Quando alguém pensasse no que ia lá fora, veria a igreja na sua melhor multidão e pensaria que está ali. Tudo ali, como se, através das pessoas, todos os lugares do mundo estivessem juntos.

Depois puseram botas ao caminho da casa da ponta da igreja. Foram dar os bons-dias e ver como ia o depois do natal. Não haveria de ir nada de diferente, que ali não havia diferença para muita coisa. O tempo estava igual havia tanto que nem a memória sabia como pensar nisso. Não se pensava. Por isso era que lembrar de algo ia para longe, para tantos anos antes que parecia mais fácil saber da infância do que do mês anterior.

E o casal de velhos chegou ao pé do outro casal de velhos e disse bons-dias, e ficaram assim dois a olhar para os outros dois que puseram os olhos no chão como se estivessem muito ocupados. Fizeram de muito ocupados e fungaram outra vez, ainda pedras e burros, e não queriam conversa. E o casal de velhos que olhava insistiu nos bons-dias e depois começaram a dizer que tinha chovido e que, como dormiram sossegados, não o perceberam durante a noite, mas que estava frio e um sol bonito ao mesmo tempo e isso dava sinal de muita boa disposição para aquele tempo ainda de natal.

Os velhos da ponta da igreja diziam: pois é, pois é. E não queriam dizer mais nada. Atabalhoados com o não fazerem nada e inventarem que faziam muito, acabaram por se desculpar com coisa nenhuma e entraram. Os velhos da ponta do precipício espantaram-se verdadeiramente. Mal podiam acreditar na má vontade. Estavam de má vontade mais do que era de esperar.

A água acabando de passar, como o gato longo que finalmente terminasse, e eles voltando a descer para a ponta do precipício. Iam atrás do gato que, jovem, corria muito mais veloz. Pensavam naquilo ou em nada, não sabiam o que pensar. Era muito estranho que assim reagissem os amigos, era tão estranho que permitissem nenhuma compaixão numa altura tão especial do ano. A velha disse ao seu velho que aquilo não se ia resolver. O velho respondeu que ia. Ia, sim. Pararam diante de casa, chamaram o cão que se pusera na soleira outra vez. Estava um sol tão bom que apetecia ficar fora de telhas por um bocado. Foram pôr-se de recreio no rebordo do muro. Encostaram-se, quase sentados, no muro muito baixo e atiraram um pau ao cão. O cão era já muito gordo e talvez também velho. Corria sem pressas. Parava muito. Talvez já tivesse entendido que aquela brincadeira não levava a lugar nenhum. Era sempre a mesma coisa.

Para o casal, no entanto, algo não era o de sempre. Foi a primeira vez numa vida inteira em que, ao mesmo tempo, sentiram como se o mundo debaixo da aldeia se levantasse e tudo inclinasse mais ainda para a boca da queda. Sentiram, sentido como se fosse algo da força de um terramoto ou mão de deus, que o mundo sob os seus pés se inclinou e os seus corpos se puseram a travar com medo de tombarem pelo caminho e depois encosta abaixo até à profundeza do riacho. Assustados, os velhos chamaram o cão, não fosse o cão rebolar e morrer. Seguraram-se um ao outro, e seguraram o cão. Assim estiveram, enquanto assim se sentiram, assim estiveram. Unidos.

O AUTOR

Nome: Valter Hugo Mãe

Idade: 40 anos

Origem: Saurimo,Angola

Principais obras: A Máquina de Fazer Espanhóis (Cosac Naify, 2011) e O Remorso de Baltazar Serapião (Editora 34, 2011)

A ILUSTRADORA

Nome: Catarina Bessell

Idade: 27 anos

Origem: São Paulo (SP)

Principal obra: Ilustrações do Olhar Estrangeiro(Trabalho apresentado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP)

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