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Reunião na Paulista

'Estou aqui com a sra. Ruth MANAUS' – sempre viro a capital do Amazonas nesses cadastros

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2018 | 03h00

Outro dia, eu tinha uma reunião num daqueles prédios imponentes da Avenida Paulista. Apressada, estava preocupada com a reunião, mas logo percebi que estava errada. Minha preocupação deveria ser com o edifício, não com o compromisso, uma vez que entrar em um prédio na Paulista tornou-se algo difícil até mesmo de narrar.

Tudo começa com o carro, porque foi-se o tempo em que garagem era garagem e ponto. Era só entrar, pegar o papel, depois pagar e sair. Nananinanão. Você embica na garagem e tem placa para dois lados: visitantes e mensalistas. Até aí tudo bem, você sabe que é visitante. Aí vem a maquininha do bilhete, que, se a gente vacilar, para longe dela e tem que passar aquela vergonha de abrir a porta para apertar o botão. E cuidado: antes eram dois botões – o do papel e o do pedido de ajuda. Agora ainda tem o do Sem Parar. Não aperte errado.

Aí você entra na garagem e tem uma placa escrito “valet” e então você não sabe se é para deixar o carro com o moço e ele estaciona ou se isso é um serviço extra para chiques e famosos. Se for para deixar com o manobrista, uma pessoa começa a circundar seu carro, narrando cada arranhãozinho em voz alta, enquanto outro cidadão anota cada uma das suas barbeiragens numa maquininha. Uma coisa extremamente deselegante. Depois, eles te entregam o papel com o número da sua placa e os erros da sua vida.

Tudo bem, vamos entrar no prédio. Você segue as placas e sobe uma escada que vai até o térreo. E então, finalmente, você entra naquele belo e imponente edifício moderno, cheio de escritórios, composto por 50% de pessoas de roupa social e 50% de motoboys segurando o capacete e uns envelopes.

Dirige-se a um balcão e diz “boa tarde, eu vou ao 206”, na esperança de que essa informação seja suficiente. Mas a moça da recepção prontamente retruca “a senhora já tem cadastro?”. Não, não tenho. “Documento com foto por gentileza”. A moça vai batucando seus dados no teclado e de repente pega aquela bolota preta e prateada, coloca na frente da sua cara e diz “vou tirar uma foto pro cadastro”. Não dá tempo de arrumar o cabelo, nem de sorrir ou de esconder o papo. A sorte é não podermos ver a foto, mas suspeito que todas as pessoas se pareçam com sapos nos cadastros da Paulista.

Quando parece que tudo está resolvido a moça diz “206 né?”. Isso. “Tem horário marcado com quem?” Com o Ronaldo, você responde. “Da parte de que empresa?” Você titubeia e responde algo do tipo “da parte de mim mesma”. Ela pega um telefone e liga para o 206. “Boa tarde. Estou aqui com a senhora Ruth MANAUS – eu sempre viro a capital do Amazonas nesses cadastros –, para o Ronaldo. Pode mandar subir?”

Então a moça te dá um crachá e – surpresa – se o prédio for muito moderno ela te orienta da seguinte forma “senhora Ruth, a senhora vai estar passando as catracas e vai estar se dirigindo ao totem (totem, meu deus) no qual vai digitar o andar pra onde vai, que é o segundo, e o totem vai dizer qual a letra do elevador que a senhora deve estar pegando”. Eu paro, atônita. É sério isso.

Caminhamos para a catraca. Você aproxima o crachá e nada. O segurança se aproxima e diz que essa catraca não é para visitantes, somente a da esquerda. E que você deve aproximar o crachá lentamente e aguardar a luz ficar verde. Ok. Consegui. Vou ao totem. Aperto o 2. No visor, aparece a letra B e um apito começa a gritar. Levanto o rosto e procuro, tensa, o elevador B. Corro para ele. Quando entro, não há painel para apertar o andar. Será possível que o elevador já sabe aonde vou? O totem contou pra ele? Ou foi a Vanusa do cadastro? Eu hein.

Quando chegamos ao andar, nem lembramos o que fomos fazer no edifício. E já nem temos medo da reunião. O único medo é de ter que sair do edifício depois dela. Isso sim será um desafio.

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