Reunião de condomínio

No edifício de quase 120 anos as reparações necessárias eram muitas

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2018 | 02h00

No edifício de quase 120 anos as reparações necessárias eram muitas: as escadas gastas, a pintura das paredes, as lixeiras que atrapalhavam a passagem, as luzes que desobedeciam às ordens do interruptor, as caixas de correio enferrujadas e o seguro contra incêndios que já estava por vencer. A síndica agendou a urgente reunião para as 19 horas de uma terça-feira de outono.

O jovem casal que se mudara recentemente para o terceiro direito do edifício lisboeta não conhecia nenhum vizinho, exceto Dona Antónia, que morava no apartamento da frente. Estavam curiosos com os moradores das seis outras frações do prédio, bem como estavam sentindo a urgência na execução das melhorias.

Souberam que a reunião aconteceria no apartamento do Sr. Fernando e para lá se dirigiram, com sete minutos de atraso, em virtude do chá que demorou muito para esfriar. Ao chegarem, depararam-se com uma cena e um elenco dignos das melhores comédias francesas.

A sala do apartamento, lotada de móveis de madeira escura, estava tomada por pilhas e pilhas de revistas, livros, caixas e fitas VHS. O espaço para circulação era quase insuficiente para dois adultos de porte médio. No fundo da sala, uma grande mesa oval, ao redor da qual todos os vizinhos já haviam se acomodado.

Após as apresentações, descobriram serem os seguintes os moradores dos oito apartamentos: no térreo, de um lado, Dona Filomena, cabelo lilás e quase 90 anos, do outro lado, Anis, o saxofonista argelino de meia-idade. No primeiro andar direito, local da reunião, Sr. Fernando e a esposa, Dona Gabriela, ambos com seus mais de 80, e no esquerdo Dona Anabela, solteira, nascida na grande Samora Correia, cuja capacidade auditiva rondava os 7%. No segundo andar direito, vivia um outro casal jovem: Tomás e Gonçalo. Apenas Gonçalo frequentava a reunião para não escandalizar os vizinhos. No esquerdo, Dona Dulce, viúva de um político famoso da região, operada da catarata naquela semana. E, por fim, no terceiro, eles mesmos e Dona Antónia, cuja história misteriosa envolvia o abandono de um convento aos 20 e poucos anos.

Sentaram-se, timidamente sorridentes, apresentaram-se e receberam alguns olhares simpáticos das velhinhas. Iniciaram-se, então, os debates. Dona Filomena e Dona Anabela praticamente não diziam nada, além de curtas reclamações sobre os preços de qualquer coisa. Dona Gabriela – a temida síndica – estava contra tudo e contra todos, especialmente contra seu marido, contra o qual impingia constantemente a frase “Oh pá, Fernando, só sabes dizer parvoíces?”. Dona Antónia e Dona Dulce eram as mais bem-humoradas, apesar da catarata e do convento, e pareciam interessadas somente no evento social e não nas questões sobre o prédio. Anis, com seu sotaque francês, tentava opinar sobre “ô segurrro e a pinturrra”. Toda fonte de sensatez naquele cenário vinha de Gonçalo, com sua educação e delicadeza ímpares e com sua camisa e paletó irretocáveis.

O jovem casal falou pouco, em meio àquela overdose de informação. Tentou concordar com tudo que Gonçalo dizia, valorizando ao mesmo tempo as frases tumultuadas de Anis, bem como os protestos financeiros de Dona Filomena e Dona Anabela, sem nunca se indispor com Dona Gabriela, a déspota, dando algum apoio moral às frases inacabadas do Sr. Fernando e respondendo às pertinentes questões de Dona Antónia e Dona Dulce sobre quando pretendiam ter bebês e se gostavam de arroz doce.

No final, ajudaram Dona Dulce, que não enxergava, a assinar a ata, e acompanharam as outras senhoras até suas portas. Dona Anabela chamou-os de Carlota e Manoel, eles não sabem bem por quê. Entraram em casa, abriram uma garrafa de vinho e disseram “talvez o prédio não esteja assim tão mal, né? As obras podem esperar mais um pouco”. Certamente. Acho ótimo.

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