Retrospectiva para compreender Anita

"Quando cheguei à Europa, vi pela primeira vez a pintura. Quando visitei os museus, fiquei tonta... Fiquei infeliz porque a emoção não era de deslumbramento, mas de perturbação e de infinito cansaço diante do desconhecido." Assim descreveu Anita Malfatti (1889-1964) sua primeira experiência europeia, em 1910, aos 20 anos, quando se deparou com Picasso, Matisse, Van Gogh e Cézanne. Até quase o fim da vida, a artista paulistana ícone do início do século 20, catalisadora da renovação estética que eclodiria na Semana de Arte Moderna de 22, viveria para a arte que tanto a desconcertara então, vencendo as limitações físicas (nascera com a mão e o braço direitos atrofiados, tendo de se tornar canhota por isso) e participando ativamente da vida cultural de sua cidade.

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

A mais abrangente mostra da pioneira do modernismo brasileiro, aquela que "manifestou primeiro o desejo de construir sobre novas bases a pintura", nas palavras de seu amigo (e objeto de uma longa paixão platônica) Mário de Andrade, está aberta à visitação no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio. São 120 obras, pinçadas de 70 coleções de museus de São Paulo e do Rio e de particulares - parte delas praticamente desconhecida do público. Quando expostas em Brasília, em fevereiro, tiveram visitação recorde: 50 mil pessoas em 50 dias.

As que atraem mais atenção são as do período que vai de 1915 a 1922, parte dele passado nos EUA. É a fase de Anita mais valorizada - recentemente, seu Retrato de Oswald de Andrade foi vendido num leilão por R$ 1,5 milhão. Alguns quadros que estão no CCBB são cobertos por seguros que giram em torno de R$ 7 milhões. Foi nos EUA que Anita produziu as obras de caráter expressionista que viriam a causar grande impacto em 1917, na célebre exposição na Rua Líbero Badaró que mereceu palavras duras do crítico Monteiro Lobato na edição do Estado de 20 de dezembro daquele ano.

Sem desmerecer o talento de Anita, o escritor criticava o hermetismo que enxergava em todo o grupo modernista. "Anita possui um talento vigoroso, fora do comum", reconhecia Lobato, mas este se voltara "para uma má direção". O estrago provocado pelas palavras de Lobato na personalidade insegura de Anita foi tamanho que impactou seu modo pintar - o que também pode ser visto na retrospectiva do CCBB, que percorre a trajetória de Anita desde o primeiro quadro, Burrinho correndo, de 1909, até o último, Cristo nas Ondas, de 1960, dispostos lado a lado.

Da fase nos EUA, o destaque, além dos famosos A Boba, A Amiga, O Farol, A Onda, O Homem Amarelo e Ventania, é Nu Cubista, o primeiro do gênero visto no Brasil. "Ela sabia que o quadro causaria espanto, tanto que optou por tirá-lo da exposição de 1917", conta Luzia Portinari Greggio, a curadora, sobrinha de Cândido Portinari (1903-1962).

ANITA MALFATTI - 120 ANOS

CCBB/ RIO. Rua Primeiro de Março 66, (21) 3808-2020. 9 h/ 21 h (fecha 2ª). Grátis. Até 26/9.

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