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Retrospectiva lembra os 35 anos de carreira da fotógrafa e artista performática Cindy Sherman

Exposição do MoMA exibe imagens do estágio mais recente ao início da carreira da americana

Tonica Chagas - ESPECIAL PARA O ESTADO ,

14 de maio de 2012 | 09h21

NOVA YORK - Em murais de 5 metros de altura, personagens como uma moça de leotard de penas e um(a?) jogador(a?) de malabares, criados no ano passado com ajuda do Photoshop, encaram o espectador no hall de entrada da exposição; na primeira das 11 salas seguintes, uma garota masculinizada se transforma em mulher vamp numa sequência de 1975.

A poucos passos de distância e em ordem cronológica inversa, estas imagens passam do estágio mais recente ao início dos 35 anos de carreira da americana Cindy Sherman, marcados na retrospectiva exibida pelo Museum of Modern Art (MoMA), em NY, até 11/6. Como sujeito e objeto, atrás e diante da câmera, Cindy explora representações de gênero e identidade incorporando criaturas fictícias.

Trabalhando sozinha em seu estúdio num edifício do Soho, na parte sul de Manhattan, além de única modelo ela também é a estilista, a maquiadora e a diretora de arte para os retratos de milhares de personagens que cria, sejam mulheres ou homens.

Vista por alguns como fotógrafa e por outros como artista performática, ela própria se considera, de certa maneira, uma boa copista. Como já era quando estudou pintura na faculdade. A diferença é que, em vez de tela, usa o rosto e o corpo para retratar o que vê.

A consistência desse conceito vem desde os tempos da menina que, em casa, se fantasiava de velhinha para que a notassem como a mais nova entre os cinco filhos da família. Na faculdade, quando ficava deprimida, vestia roupas bem diferentes das que usava no câmpus, caprichava na maquiagem e saía a caráter. O namorado achava aquilo interessante e lhe deu a ideia de documentar o que fazia. Aos 58 anos, ela continua vasculhando de brechós a lojas virtuais atrás de roupas, acessórios, máscaras ou próteses com que se fantasia e os retratos dela estão entre as fotografias mais caras do mundo. A retrospectiva exibe 171 obras pontuando quase todas as séries criadas por ela.

Marco da fotografia pós-moderna e um dos trabalhos mais importantes da artista, a primeira série, Untitled Film Stills (de 1977 a 1980), teve uma de suas dez tiragens completas adquirida pelo MoMA em 1995 e é vista na íntegra, ocupando sozinha a segunda das 11 salas da mostra. As 70 fotos em preto e branco, no tamanho 18 x 24 ou reverso, formam a única série que Cindy intitulou.

Untitled Film Stills também é o único trabalho que Cindy produziu em parte fora do estúdio e o título refere-se às fotos de cenas de filmes feitas geralmente para publicidade. Louras ou morenas, as personagens são estereótipos de filmes B, de arte e europeus dos anos 1950 e 1960.

Cindy começou a se sobressair na cena artística de Nova York em 1981, quando expôs 12 fotos da série na Metro Pictures, galeria que ainda a representa. Antes disso, vendia exemplares delas por US$ 50 para complementar o salário. Em março, a Sotheby’s vendeu por US$ 746,5 mil a primeira das dez edições de Film Still # 21, de 1978; na quarta, a Christie’s leiloou a segunda das três edições de Film Still #14 (1978) por US$ 626,5 mil.

O cinema também foi referência para a primeira incursão dela pela fotografia em cor, em 1980, com retroprojeção de paisagens ou cenas urbanas para criar a ilusão de locações diferentes. No ano seguinte, Cindy se estabeleceu definitivamente como artista ao expor uma série encomendada pela revista Artforum que ficou conhecida como Centerfolds, a primeira dela em formato grande, inspirada nas fotos publicadas em páginas duplas e centrais de revistas eróticas masculinas. A intenção era despir não o corpo e sim as emoções femininas. A revista acabou por não publicar a série que, ao ser exibida na Metro, provocou azedume em grupos feministas.

Centerfolds é apontada como o corpo de trabalho que lançou a fotografia de grande formato como forma de arte. Com a imagem horizontal de uma adolescente ruiva deitada num chão de ladrilhos e segurando um pedaço de jornal com anúncios classificados, a décima das dez cópias da "Untitled # 96" dessa série foi vendida pela Christie's em maio do ano passado por US$ 3,9 milhões, estabelecendo um recorde de preço para fotografia em leilão (ultrapassado em novembro pelos US$ 4,3 milhões pagos por uma obra do alemão Andreas Gursky, Rhein II, de 1999).

Entre meados da década de 1980 e o início da seguinte, a artista sumiu de quase todas as suas imagens. Em algumas, o rosto dela é quase imperceptível em meio a situações grotescas.

Agora, em vez de próteses e maquiagem, a digitalização no computador é o que despersonaliza as feições da modelo para criar arquétipos. Ao estrear a série mais recente, Cindy disse que nunca mais se revelou em suas fotografias desde que se fotografou nua para cumprir um trabalho na faculdade.

Moda, paixão que inspira obra crítica

Desde os figurinos antidepressivos na época de universitária, Cindy Sherman tem na moda uma constante fonte para criação. A retrospectiva no MoMA destaca em uma sala alguns trabalhos dela comissionados por designers e revistas. A artista admite ser apaixonada por moda mas, nem por isso, deixa de criticar em suas fotografias a construção da feminilidade de massa instigada pela exploração de tendências no vestuário feminino.

Até 9 de junho, a galeria nova-iorquina Metro Pictures exibe uma série fotográfica baseada no insert para revistas que Cindy fez usando roupas da grife Chanel e por encomenda da russa Dasha Zhukova. São desde peças de alta-costura desenhadas por Coco Chanel na década de 1920 a modelos das coleções atuais feitas por Karl Lagerfeld.

Cindy sobrepõe as “modelos” a paisagens que ela mesma fotografou na Ilha de Capri (Itália) e na Islândia, durante a erupção do vulcão Eyjafjallajoekull naquele país em 2010. Revertendo uma tradição da pintura do século 19, na qual a figura humana aparece diminuta em comparação a elementos da paisagem, nas fotos a natureza tem só um papel de apoio. 

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