Retrospectiva de Picasso é inaugurada hoje

Picasso pintou o quadro Garota com Pés Descalços em 1895, quando tinha apenas 14 anos. A obra faz parte do acervo do Museu Picasso de Paris e com certeza seria exibida em São Paulo. Porque, até o ano passado, a curadora do museu Dominique Dupuis-Labée e a BrasilConnects pensavam apenas em trazer para a cidade obras que Pablo Picasso (1881-1973) realizou durante sua juventude. Seria uma exposição pequena. Mas quando Dominique visitou o prédio da Oca, no Parque do Ibirapuera, pensou que o edifício projetado por Oscar Niemeyer poderia comportar mostra bem maior. Assim foi que, desde julho, o projeto ganhou a dimensão de uma retrospectiva de toda a carreira do artista mais significativo do século 20.Dito e feito. Garota com Pés Descalços está bem no início da mostra Picasso na Oca, que será inaugurada hoje para convidados e amanhã para o público. A retrospectiva realizada pela BrasilConnects em parceria com o Museu Picasso de Paris e patrocínio do Bradesco tem todos os ingredientes para ser uma daquelas exposições que atraem milhares de visitantes. Filas se estenderão por boa parte do Ibirapuera - por exemplo, mais de 20 mil estudantes já foram agendados para o serviço de visitas monitoradas antes mesmo da abertura. Na mostra, com cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, estão 126 obras - avaliadas em 700 milhões de euros -, que perpassam a carreira de Picasso de 1895 até 1972. É a primeira mostra deste porte em toda a América Latina. São pinturas, esculturas, trabalhos sobre papel e cerâmicas feitos pelo artista espanhol que se transformou em mito antes mesmo de morrer.Nascido em Málaga, Pablo Ruiz Picasso começou a produzir desde os oito anos. No começo, eram trabalhos realistas, "composições tradicionais, acadêmicas", analisa Dominique. Mais tarde, sua obra se transforma. Vivendo entre Barcelona e Paris, produz os trabalhos da fase azul (1900-1904), marcados por um mal-estar existencial, a "investigação da miséria e do desespero humanos". Nos fins de 1904, nesse ano se instala definitivamente em Paris, inicia sua fase rosa, até 1907. Seu modo de ver a vida se torna mais suave, Picasso se interessa pelo mundo do circo, dos ciganos, pela figura dos saltimbancos. Nesse período, também se interessa por arte africana e por peças ibéricas dos séculos 4 e 5 a.C. Em 1906, começa os esboços para o célebre Les Demoiselles d´Avignon, um marco da arte moderna. Na exposição estão dois estudos para a obra realizados em 1907: Busto de Mulher e Busto de Homem.Inicialmente, Les Demoiselles d´Avignon seria uma cena de bordel composta por sete personagens (cinco mulheres e dois homens), mas Picasso resolver abolir os dois personagens masculinos. Em 1907, o começo do cubismo, ao lado de Braque. No piso térreo da Oca, estão as representações de todas essas fases, inclusive os primeiros trabalhos de um chamado cubismo primitivo, influenciado por Cézanne. A partir do primeiro piso, o visitante encontrará obras de uma arte mais intelectual, hermética, abstrata, como se pode ver nos trabalhos do chamado cubismo analítico, até 1911. "Mas Picasso era um homem da realidade", diz a curadora. Por isso, ele retorna à figuração, em 1914. Passa por um período clássico até começar a metamorfosear suas figuras, a partir de 1923. Corpos deformados, cores fortes, o teor sexual, essas são algumas das características recorrentes em sua vasta produção. Tudo isso está na exposição como as mulheres de sua vida - há quadros de Olga Khoklhova, Marie-Thérése Walter, Dora Maar (La Femme qui Pleure) e Jacqueline Roque, "a esfinge moderna" -, as touradas, os anos de guerra e mesmo o próprio Picasso, que sempre aparece em suas obras, "mas de uma forma dissimulada" como nas figuras de arlequim, touro e Minotauro.Por fim, no segundo piso, o visitante encontrará o conjunto de seis esculturas em bronze intitulado Os Banhistas, de 1956 instalado sobre um espelho d´água, como no projeto original de Picasso mostrado apenas na França. Ainda em torno de Picasso, vale dizer que a produtora Magnus Opus vai lançar em DVD dois lendários documentários sobre o artista: Le Mystère Picasso (1955), de Henri-Georges Clouzot, e Guernica (1953), de Alain Resnais.

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