Retratos do Brasil

Pesquisador interpreta relatos de europeus que visitaram o País a partir do século 16 e descreveram nossa terra e gente

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h09

"Ali o ar é muito temperado e bom, e, pelo que pude conhecer, nunca houve peste ou outra doença oriunda da corrupção do ar. As árvores crescem sem cultivador, muitas das quais dão frutos deleitáveis no sabor e úteis aos corpos humanos. Se quisesse lembrar de cada coisa que ali existe e escrever sobre os numerosos gêneros de animais e a multidão deles, a coisa se tornaria totalmente prolixa e imensa."

Intitulado Mundus Novus, o relato da terra virgem do Brasil é de 1503. O navegador italiano Américo Vespúcio veio ver por si as potencialidades do paraíso costeiro avistado pelo português Pedro Álvares Cabral três anos antes. Acabou por fazer a primeira e mais importante descrição da descoberta.

Suas palavras iriam pautar aventureiros, religiosos, escritores e outros viajantes que, nos séculos seguintes, espalhariam pela Velha Europa notícias do novíssimo continente. O clima, a terra, os índios, colonos, negros escravizados e mestiços e sua interação foram intensamente esquadrinhados.

Cento e vinte narrativas de franceses, ingleses, holandeses, italianos e tantos outros que passaram pelo Rio, Santos, Salvador, Recife, Olinda, Maranhão e pelo Sul entre a vinda de Cabral e a chegada da corte portuguesa, em 1808, selecionadas em bibliotecas e órgãos governamentais de vários países, foram traduzidas e esmiuçados pelo pesquisador Jean Marcel Carvalho França, da Unesp, no livro A Construção do Brasil na Literatura de Viagem dos Séculos 16, 17 e 18.

Para além das inúmeras curiosidades, ele traz algumas novas reflexões: segundo o autor, percepções dos estrangeiros sobre o Brasil e os brasileiros se perpetuam até hoje no senso comum - no deles - e no nosso. A noção de que "em se plantando, tudo dá", por exemplo, atravessou os séculos até os discursos atuais.

Assim como a de que a terra é boa (o "paraíso natural", de água farta e "primavera eterna", a vida mais fácil do que na gélida Europa), ruins são as pessoas que nela vivem: tendem ao barbarismo, à indolência, não têm apreço pelo trabalho, são desonestos e passionais. O descompromisso, contudo, por vezes era visto como sinônimo de felicidade.

A imagem da mulher como envolvente, fácil e deslumbrada por estrangeiros é outro traço levantado. A propensão do povo a tratar com emotividade o que deveria ser encarado estritamente à luz da racionalidade é, avaliam, sinal de uma certa incapacidade de se absorver a lógica ocidental.

São análises que foram exaustivamente reproduzidas por toda a Europa. A literatura de viagem fez muito sucesso nos séculos das navegações, movia o mercado editorial e era avidamente consumida por todo o continente letrado, inspirando escritores, poetas, filósofos, pintores. Em três séculos, estima-se que tenham saído 5.562 livros do gênero, a maior parte no 18.

Eles tiveram forte penetração na elite brasileira do século 19 - justamente o de formação da identidade brasileira. "Os europeus escreveram muito mais sobre nós do que fizemos aqui. Havia pouquíssimos letrados na colônia", diz França, autor de seis publicações sobre o tema.

"Acabamos incorporando essas noções, fazendo delas nossas, nos definindo assim como brasileiros. Somos herdeiros do século 19 e os sentimentos através dos quais um povo julga a si próprio demoram muito tempo para se transformar. O papel do historiador é desconstruir essas verdades fixas, desnaturalizá-las, para que se possa criticá-las. Acho que esse momento (de autoestima elevada do País) é ideal para essa autoavaliação".

Ele cita o modernismo e o tropicalismo como movimentos culturais que incorporaram, de forma transversal, conceitos da literatura de viagem. "O que era traço negativo foi vertido em algo singular, o 'jeitinho'. Os relatos são muitas vezes ambíguos, como acontece até hoje: se oscila entre o orgulho de ser brasileiro e o 'complexo de vira-lata'". Outro exemplo é Martins Pena (1815-1848), tido como o autor que consolidou o teatro brasileiro. Aluno de Debret (1768-1848), pintor de um Brasil pitoresco, ele foi o primeiro a tratar dos costumes da sociedade carioca - impregnado pela visão externa.

O modo de viver na colônia ora era exaltado (a liberdade e a igualdade indígenas foram louvadas na França revolucionária de 1789), ora tratado pejorativamente como retrato de um processo civilizatório incompleto.

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