Retratos do Asfalto

Mostra no MIS, tendo a metrópole como tema, inicia série de eventos em torno de Miguel Rio Branco

Maria Hirszman ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

     

 

 

MIGUEL RIO BRANCO

MIS. Espaço Expositivo. Avenida Europa, 158, 2117-4777. 12h/ 19h (dom., 11h/ 18h; fecha 2º). R$ 4 (dom. grátis). Até 31/10. Abertura amanhã (terça), para convidados, às 19h. Para o público, abre na quarta.

 

 

 A exposição Maldicidades - Marco Zero, que Miguel Rio Branco inaugura amanhã no Museu da Imagem e do Som, é apenas o primeiro de uma série de eventos em torno do artista, colocando-o em posição de destaque no circuito paralelo e oficial da 29.ª Bienal de São Paulo.

Com fotografias, vídeos e instalação, a mostra do MIS se debruça sobre as cidades, revelando um olhar plural, ao mesmo tempo poético e crítico. Rio Branco, que vê as metrópoles "como casos terminais", registrou-as de forma tão intensa e distinta ao longo de décadas que planeja transformar todo esse material em livro, a ser editado em breve pela Cosac Naify.

"É uma forma de me libertar dessa temática, de colocar um ponto final nessa produção toda, criando algo que faça sentido", afirma.

Também por isso o artista - que há anos mudou-se para a região serrana do Rio de Janeiro -, considera que a abertura de um pavilhão dedicado à sua obra em Inhotim, Minas Gerais, previsto para acontecer em 23 de setembro, seja de longe o fato mais importante de sua trajetória recente.

Orquestração. A possibilidade de exibir um conjunto amplo e denso de trabalhos, de forma orquestrada e num centro de excelência que se encontra afastado dos eixos metropolitanos é para ele motivo de contentamento. "Desde os anos 70 que sonho com coisas feitas fora das grandes metrópoles caindo aos pedaços", afirma. No pavilhão serão expostos diversos trabalhos inéditos ou raramente vistos, como Diálogos com Amaú (mostrado na Bienal de 1983); Entre os Olhos o Deserto e Tubarões de Seda (este último exibido apenas na Holanda). Algumas peças serão permanentes e outras trocadas de tempos em tempos. "Gostaria muito que fosse uma coisa viva", afirma Rio Branco sobre Inhotim.

Quanto à sua participação na Bienal, com a exibição do filme Nada Levarei quando Morrer, Aqueles que me Devem, Cobrarei no Inferno - que também estará em Inhotim -, pode-se afirmar que ela é pontual porém bastante simbólica, levando em consideração a ênfase dada pelo evento à relação entre arte e política.

Rio Branco é dos artistas mais críticos em atuação no País. E não hesita em criticar o excessivo domínio do mercado sobre o circuito, a banalização da arte contemporânea e o forte autoritarismo, mesmo que um tanto camuflado, da sociedade brasileira. O próprio modelo da Bienal e de outros eventos de grande porte e alcance internacional é questionado por sua forte conexão com o mercado.

Terrível beleza. Sua obra também costuma colocar o dedo na ferida de muitos dos problemas nacionais, como no caso desse vídeo, gravado no início dos anos 80 em uma zona de meretrício de Salvador e que expõe com crueza e poesia a situação das mulheres entregues a essa sorte. O próprio título do trabalho, escrito por um anônimo em uma das paredes daqueles casarões decadentes, já revela o caráter sombrio, que denuncia e expõe uma situação complexa, terrível, mas também repleta de beleza.

Cada uma dessas exposições pode ser vista de maneira isolada, mas também como peças que se somam nessa obra vasta e labiríntica, na qual se combinam uma grande sensibilidade "compositiva" e cromática com um fascínio tanto pelas pulsões inconscientes do ser humano como pelas mazelas do mundo contemporâneo. Mesclando referências de diferentes áreas de atuação, como o cinema, a fotografia e a pintura, Rio Branco está sempre construindo aproximações, editando imagens, criando novos campos de percepção. "Sou mais um embaralhador, um montador de narrativas poéticas", sintetiza.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.