Retratos do 11 de setembro, um ano depois

"A cidade, pela primeira vez em sua história, ficou destrutível. Uma simples revoada de aviões pode rapidamente acabar com esta ilha da fantasia, queimar as torres, desmoronar as pontes, transformar as galerias do metrô em câmaras letais, cremar milhões. A suspeita da mortalidade faz parte agora de Nova York: no som dos jatos sobre nossas cabeças, nas manchetes pretas da última edição". Escrito em 1948, esse trecho, que figura no fim do recém lançado livro Aqui Está Nova York (Editora José Olympio, 56 páginas, R$ 20), pode soar como profético, embora seu autor, E.B. White, um dos principais jornalistas da revista The New Yorker, se preocupasse apenas em descrever uma cidade que, naquela metade do século passado, sofria transformações viscerais.A simples menção de "torres queimando", porém, evoca os atentados terroristas sofridos pelo World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, no dia 11 de setembro do ano passado. Às vésperas de completar um ano, o incidente que alterou os rumos da política e da economia mundial motivou uma série de eventos como lançamento de livros, CDs, filmes, debates exposições e especiais de televisão com imagens inéditas, todos discutindo o assunto e nem sempre com posição favorável.Decano em Harvard e presidente da cadeira do Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, Joseph S. Nye Jr. procura, em O Paradoxo do Poder Americano (Editora Unesp, 296 páginas, R$ 28), alertar para o perigo de uma política externa que combina o unilateralismo com a arrogância e o paroquialismo. O paradoxo é justamente esse: apesar de ostentar um poder econômico, cultural e militar único no planeta, os Estados Unidos são incapazes de resolver problemas globais, como o terrorismo, a degradação ambiental, a proliferação de armas e a destruição em massa sem envolver outras nações."Os verdadeiros desafios ao poder americano estão chegando sorrateiramente, na calada da noite, e o irônico é que o nosso desejo de isolamento pode acabar nos debilitando", escreve Nye, preocupado com a facilidade tecnológica que permite ao terrorismo criar comunidades virtuais que transpõem as fronteiras americanas. Os incidentes ocorridos em 11 de setembro de 2001 justificam a preocupação. "A revolução tecnológica da informação e das comunicações está disseminando o poder fora dos governos e capacitando indivíduos e grupos a um papel na política mundial - até mesmo com vingativa destruição em massa - que outrora cabia unicamente aos Estados. A privatização cresce incessantemente e o terrorismo é a privatização da guerra."Mais adiante, Nye pergunta: "Seremos capazes de utilizar sabiamente a nossa liderança, neste começo de século, para construir um arcabouço a longo prazo?" A questão deve dominar o ciclo de debates 11 de Setembro de 2002: O Que Mudou?, que vai ocupar na quarta-feira o teatro da PUC, o Tuca (Rua Monte Alegre, 1.024), a partir das 9 horas, quando Octavio Ianni e Reginaldo Nasser vão iniciar a discussão do tópico A Ação Geopolítica dos EUA, até às 22h30, quando deverá estar terminando a apresentação de Ladislau Dowbor e Rubens Ricupero, responsáveis pelo tópico Desafios à Governança Planetária.O debate propõe um balanço dos processos de transformação dos equilíbrios mundiais que o novo papel dos EUA está promovendo. Entre os demais palestrantes estão os jornalistas de O Estado de S. Paulo Roberto Godoy, que vai debater, a partir das 14 horas, Conflitos Assimétricos e Intervenções Militares com Geraldo Cavagnari Filho, e, em seguida, Leonardo Trevisan, que estará ao lado de Luiz Gonzaga Belluzzo para discutir Sistemas de Avaliação e Propostas de uma Nova Arquitetura Financeira. Os interessados em conseguir detalhes sobre os debates devem ligar para o telefone (0--11) 3670-8011.Os ataques terroristas aumentaram os estudos da cultura islâmica e um dos mais sérios é O Que Deu Errado no Oriente Médio (Jorge Zahar Editores, 204 páginas, R$ 24), de Bernard Lewis, que apresenta a seqüência e o padrão de acontecimentos, idéias e atitudes que precederam o 11 de setembro.Em meio a discussões profundas, o encantador livro de E.B. White (1899-1985), Aqui Está Nova York, apresenta uma crônica expressiva sobre uma cidade que já não existe mais. Não pela ação maléfica do terrorismo, mas pela ação natural do progresso. "Foi White, no entanto, quem nos ensinou a entender a eternidade de Nova York", afirma Ruy Castro, responsável pela tradução. "E seu livro é tão sólido, poético e invencível quanto a cidade que descreve."

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