Retratos de um pesadelo

Fotos de Andrew Borowiec exibem o legado da decadência industrial dos Estados Unidos

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

Paisagens são reveladoras dos sonhos de uma nação. E dos pesadelos. O nova-iorquino Andrew Borowiec, de 54 anos, acredita que o imaginário de um povo pode ser capturado em fotografias. Quando se arrisca nas ruas atrás de "pontos de vista que revelem mais", ele deseja saber de que são feitas as aspirações e realizações dos norte-americanos. Para tanto, ele se limitou a um universo pequeno de Cleveland, os Flats, bairro industrial localizado perto do centro da cidade mais populosa de Ohio. Ao fotografar esse espaço entre 2002 e 2004, ele investigou os legados da decadência industrial dos Estados Unidos. A distância entre a verdade e o idealismo do sonho americano se revelou grande em Cleveland Photographs, exposição de 43 fotos em preto e branco de Borowiec no Cleveland Museum of Art, em cartaz até domingo.

O projeto de retratar os Flats começou pequeno, era encomenda para revista industrial. Aumentou com o choque de Borowiec. O fechamento das fábricas e o desemprego dos operários, provocados pela maior competitividade das indústrias de outros países, como a China, criaram escombros difíceis de remover. A história social desse declínio estava detalhada nas paisagens ermas, casas velhas, nos armazéns vazios, no mato crescendo do asfalto. Evidências do abandono, esses detalhes eram suficientes para Borowiec mostrar como é complicado, hoje, se orgulhar das indústrias que levaram o povo americano a se declarar uma nação bem-sucedida.

Borowiec diz que o interesse pelas paisagens industriais tem caráter circunstancial, a mudança para Ohio em 1984. Mas a explicação para o seu tema se acha mesmo no mundo da fotografia. Quando olha para os Flats, ele tem Walker Evans e Robert Frank em perspectiva. O primeiro fotografou, nos anos 1930, os efeitos da Grande Depressão. O segundo fez viagem de carro pelos EUA mostrando, nos otimistas anos 1950, um retrato desolador do sonho americano. Borowiec também segue os passos de outro fotógrafo, o francês Eugène Atget, a sua maior referência. Como Atget, ele se preocupa em captar os detalhes arquitetônicos e as transformações do espaço urbano. Professor da University of Akron, Borowiec, ganhou o Cleveland Arts Prize e tem trabalhos expostos em vários institutos, como o Museum of Contemporary Photography.

Quando sai à rua para fotografar, há princípios que dirigem seu olhar? O que procura? A verdade sobre o sonho norte-americano?

Estou em busca de indícios ou detalhes sobre a história social do lugar, sobre a vida de seus moradores e a transição da economia industrial para a pós-industrial. O segredo está menos em procurar do que em observar algo. De fato, a ideia do sonho americano, a diferença entre idealismo e realidade que ele desperta, é tema que me chama a atenção desde que mudei para Ohio, em 1984.

Andar à toa é o melhor meio de tirar fotos?

Para mim, passear na rua e descobrir o mundo é a melhor maneira de trabalhar. Não estou interessado em inventar um universo artificial dentro do estúdio. Não saio de casa com nenhuma ideia preconcebida. Vou a lugares que visitei, observei em fotografias ou descobri em revistas. Dirijo pelas redondezas, paro o carro na área onde acho algo específico e faço meu trabalho. Mas nem sempre esse procedimento é produtivo.

Ao visitar cidades dos EUA com passado industrial, como Newark, Pittsburgh e agora Cleveland, eu me surpreendi com as dificuldades que enfrentam para lidar com a decadência das indústrias. Observei o mesmo em Louisiana e Alabama, que você também fotografou. Por que seu trabalho vai nessa paisagem?

Quando mudei para Ohio, descobri que aqui fabricavam quase todas as coisas que definem o american way of life: o aço, os pneus, os carros, etc. Mas já naquela época havia uma mudança: as fábricas de borracha e as usinas de aço estavam fechando e as pessoas, perdendo os empregos. O sonho americano mostrava-se cada vez mais uma ilusão. No tempo em que trabalhava na área conhecida como Cinturão do Aço, fiquei interessado em outras regiões do país que incorporam aspectos da complicada história dos EUA, em especial os Estados banhados pelo Golfo do México.

As fotos dos Flats - o que revelam sobre o estilo americano?

Os Flats encarnam a história dos EUA. Ao contrário da maioria das cidades onde os distritos industriais estão no subúrbio, em Cleveland a indústria está no coração do espaço urbano. Acho essa uma metáfora significativa do tipo de pessoa que mora em Cleveland: a indústria está no coração desses indivíduos. A população se orgulha de sua herança industrial, de ter papel importante na fabricação de produtos que tornaram a América economicamente poderosa. A paisagem por si descreve uma versão do sonho americano, que vende a ideia de que quanto mais duro se trabalha mais perto se chega dos objetivos, que são emprego bom e estável, casa própria com quintal, carro na garagem e dinheiro suficiente para pagar a faculdade dos filhos. Os Flats mostram traços dessa aspiração e contam a história mais recente e triste de fábricas fechando, empregos desaparecendo e pessoas com a vida cada vez mais difícil.

Certa vez, você disse esperar que o exame cuidadoso das fotos revele detalhes cruciais para ampliar e subverter o significado aceito das coisas. Como concretizar essa intenção?

Tento tirar fotos que incluam muitas informações, inclusive textos. Busco pontos de vista que revelem mais, e isso significa enquadramentos que mostrem justaposições ou coincidências contradizendo as nossas expectativas ordinárias. Outras vezes, essa perspectiva tem sucesso ao exibir as conexões entre dois objetos sem relação.

Além dos detalhes, suas fotografias parecem buscar a descrição precisa de lugares reais.

Minhas fotos são a verdade da minha visão sobre os lugares. Apesar da noção errada e popular de que as fotografias são um retrato fiel da realidade, todas elas são apenas resultado de decisões subjetivas do fotógrafo. Mas, é claro, desejo que o meu trabalho seja confiável, que pareça verdadeiro para quem o vê.

Quando vi a exposição, me lembrei de Walker Evans, Robert Frank e Henri Cartier-Bresson. Que fotógrafos o influenciaram?

Você tem razão. Todos eles me influenciaram, assim como Garry Winogrand. Talvez a maior influência seja Eugène Atget.

Por que a maioria dos seus projetos é feita em preto e branco?

Logo que comecei nos anos 1970, usava filme em preto e branco porque não era tecnicamente possível fazer impressão colorida sem gastar dinheiro e tempo. Só comecei a trabalhar com cor quando passou a ser possível fazer impressões bonitas no papel. Agora trabalho, principalmente, com cores, usando câmera digital.

Você morou na Europa e na África. Isso moldou seu olhar?

Essa experiência me ensinou a perceber e pensar as diferenças entre as paisagens, e a entender que certos estilos arquitetônicos têm significados próprios.

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