Retratos de um autor em foco

Eça de Queiroz - Fotobiografia, que chega ao Brasil em edição ampliada, com cerca de 700 imagens, é o registro icônico mais completo do escritor, que cultivava o gosto pela fotografia

Raquel Cozer, raquel.cozer@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Alguns anos antes de morrer, Eça de Queiroz (1845- 1900) comprou uma máquina fotográfica e improvisou em sua casa na cidade de Neuilly-sur-Seine, ao oeste de Paris, uma câmara escura na qual ele mesmo revelava as imagens que capturava no jardim. O interesse por se aprofundar na arte do retrato decorrera da convivência do escritor português naqueles tempos com o jovem amigo Alberto Frazão, o visconde de Alcaíde, detentor à época de um dos modelos mais avançados de câmera fotográfica. São dessa fase os melhores registros que se tem do autor de Os Maias e As Cidades e as Serras, a maior parte feita por Frazão.

A série de fotografias nas quais o ficcionista aparece com a mulher, Emília de Castro, e os quatro filhos, resistiu bem ao tempo e pode ser vista em Eça Queiroz - Fotobiografia, de A. Campos Matos, lançada em 2007 em Portugal e que ganha agora edição ampliada no Brasil, com mais de 400 páginas e 700 ilustrações, pela Leya. As imagens em questão permitem entrever curiosidades da personalidade de Eça. Embora tenha se tornado fotógrafo tardio, o escritor apreciava já havia muito a ideia de estar em frente às lentes - como descreve o biógrafo Campos Matos na introdução, Eça, "consciente do valor de sua arte, tivera também o desígnio de posar para a posteridade". Posava então lendo o Le Fígaro, sozinho ou por cima do ombro da mulher, ou ainda folheando um imponente livro em meio aos filhos Maria e José Maria.

A iconografia contida no volume é a mais completa publicada em torno do universo do escritor - outro trabalho de destaque nesse sentido, Imagens do Portugal Queirosiano (1976), que retrata localidades reais onde se desenrola a ficção de Eça, foi também organizado por Campos Matos, criador ainda do Dicionário Eça de Queiroz (1988). Postais, fac-símiles, mapas e fotografias de contemporâneos do autor servem de base para textos em ordem cronológica, divididos em capítulos temáticos, com destaque para os relacionados à vida universitária, em Coimbra, e às viagens que fez como cônsul, a Cuba, Estados Unidos, Inglaterra e França. Em meio a uns e outros momentos, são registradas as situações em que contos, romances e folhetins tomavam forma.

Produção. O ambiente tinha forte influência sobre a produção de Eça. "Convenci-me de que um artista não pode trabalhar longe do meio em que está sua matéria artística", desabafa, em 1878, durante um bloqueio criativo, ao amigo e escritor Ramalho Ortigão (1836-1915). "Balzac não poderia escrever a Comédia Humana em Manchester e Zola não lograria fazer uma linha dos Rougon em Cardiff." Naquele momento, em Newscastle - seu segundo posto consular (1879- 1888), onde "nem a natureza, nem a sociedade, nem os teatros, nem as mulheres" eram "capazes de atrair alguém" -, ele tentava levar a cabo uma promessa um tanto ambiciosa feita ao seu editor. Tratava-se do projeto Cenas Portuguesas, que previa a publicação de nada menos que 12 volumes, de 200 páginas cada um, no intervalo de dois anos. Se não cumpriria na completude a proposta de registrar os "12 estudos sobre a vida contemporânea em Portugal", conforme anúncio reproduzido na fotobiografia, tiraria de lá algumas de suas obras-primas, como uma nova versão de O Crime de Padre Amaro e os romances O Primo Basílio e A Capital. Da produção literária, aparece ainda a reprodução de uma folha de papel ofício em que Eça declara de próprio punho a venda de Os Maias, recebendo adiantamento com a promessa de terminar o texto até o final de 1883 - seria capaz de concluí-lo apenas cinco anos depois.

A edição brasileira de Eça de Queiroz - Fotobiografia inclui um prefácio no qual Campos Matos trata da relação do português com o Brasil. Neto do carioca responsável pelo primeiro recenseamento populacional do Rio, em 1821, Eça colaborou por quase duas décadas, a distância, com a Gazeta de Notícias da cidade, de 1880 a 1897. Embora tenham vindo do Brasil, de Machado de Assis, as críticas mais duras a seus livros O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro - críticas, aliás, que acabaram sendo as responsáveis pela popularidade de Eça do lado de cá do oceano -, saiu também daqui um de seus amigos mais próximos, o jornalista e escritor Eduardo Prado (1860- 1901), com quem conviveu em Paris.

Prado esteve com Eça e Ramalho Ortigão em Glion-sur-Montreux, na Suíça, quando o amigo já estava muito doente, possivelmente com tuberculose. Foi ele quem, a 5 de agosto de 1900, escreveu carta sugerindo a Emília de Castro que fosse para junto do marido. "Achei-o muito desanimado no primeiro dia. Depois ficou mais alegre e estou convencido de que o ar das alturas lhe fará muito bem. É mau entretanto ficar só e creio que o isolamento neutraliza algum tanto o bom efeito dos ares", escreveu, em carta reproduzida na fotobiografia. Onze dias depois, com a mulher ao lado, Eça morreu.

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