Retratos de um artista

Museu Nacional de Belas Artes abre mostra de pinturas, esculturas e itens do acervo particular de Modigliani, que vem em seguida para o Masp

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2012 | 03h08

Livorno, dez de abril de 1898. A professora Eugénie Garsin registra em seu diário que o filho Amedeo, de 14 anos, não quer mais saber de estudar: interessa-se exclusivamente por pintura. Três anos antes, o garoto de saúde frágil, cujos problemas pulmonares começaram com uma pleurite e dariam numa tuberculose fatal na idade adulta, já havia relatado ter sentido uma atração imensa pelos pincéis e as telas, em delírios consequentes de uma febre tifoide. Logo Amedeo Clemente Modigliani seria tragado pelas aulas de Guglielmo Micheli.

A mãe angustiada não veria o nome do caçula ganhar o mundo. Tampouco ele. Modigliani morreu num apartamento sem calefação, aos 35 anos, no inverno de 1920, na vanguardista Paris em que vivera em busca de sua própria arte e dos prazeres da boemia, e onde alcançara a maturidade como criador. Só nos anos 30 começaria a ser valorizada sua concisa obra, constituída por não mais do que 400 óleos, 30 esculturas e 1.600 desenhos. Picasso, companheiro de corpo cuja atividade artística durou o dobro do tempo, deixou 24 mil itens.

Os brasileiros nunca tiveram a chance de apreciar, numa mostra de porte, seu traço único, reconhecível ao primeiro olhar, tanto nos retratos quanto nas peças em bronze ou pedra - as figuras com elementos cubistas, de rostos triangulares e longilíneos, de bocas pequenas, olhos amendoados e narizes afilados. Depois de dois meses em Vitória, a exposição Modigliani - Imagens de Uma Vida, foi aberta no Museu Nacional de Belas Artes na quarta passada. Em abril, viaja para o Masp, que tem seis retratos do artista na mostra Olhar e Ser Visto, inclusive a mais valiosa: seu único autorretrato, de 1911, propriedade de um colecionador brasileiro.

Na quinta à tarde, o público teve uma oportunidade ainda mais especial: uma visita guiada por Charles Parisot, especialista que é presidente do Modigliani Institut Archives Légales Paris-Roma e curador da exposição. Ele trouxe de colecionadores particulares e instituições nos Estados Unidos, Japão e Europa 230 peças, sendo 54 pinturas, cinco esculturas, 55 desenhos e documentos, fotos e diários.

Mesmo falando em italiano, Parisot hipnotizou cerca de 50 pessoas com detalhes saborosos da vida dele, relatados em painéis e no filme Modigliani - A Paixão Pela Vida (2004), com Andy Garcia de protagonista, e focado na suposta rivalidade entre ele e Picasso, companhia nos saraus e nos ateliês de Montmartre.

Ele desmentiu não só a briga com o espanhol, mas também o mito de que Modigliani era um beberrão drogado e de que nascera numa família indigente. Conforme os visitantes passavam pelas diferentes etapas de sua trajetória, falou do encontro com Diego Rivera e Max Jacob, das dificuldades impostas pela primeira guerra. Ensinou que o contato com o romeno Constantin Brancusi foi fundamental para o desenvolvimento de suas esculturas, influenciadas pela arte primitiva e negra.

Contou de sua inquietude na provinciana Livorno, da busca por horizontes maiores em Florença e Veneza. Apresentou os pintores com quem convivia em Paris (já àquela época multicultural), que também estão representados, em litografias, óleos, guaches e gravuras: o francês Gen Paul, o japonês Tsuguharu Foujita, entre outros. De Picasso veio só um desenho.

Nos textos e nas telas, a mostra passa pelas paixões de Modigliani, sua fuga dos valores burgueses (viveu um grande amor com Jeanne Hebuterne, mãe de sua filha, mas nunca se casou; sua morte levaria ao suicídio de Jeanne, grávida de oito meses). Retrato de Homem de Bigode, de 1900, de quando ele tinha 16 anos, "feito em uma hora, sem seguir as técnicas tradicionais do impressionismo", é o destaque da primeira sala. As mulheres de Jeune Femme Aux Yeaux Bleus (1917) e Grand Nu Allongé (1918, foto no alto, à esquerda) estão entre suas musas mais conhecidas.

O relato da primeira exposição, na Galeria Weil, em 1917, é curioso. "Durou só três horas. A polícia cercou a galeria, acusando-o de atentado ao pudor por causa dos nus", contou Parisot, que se empolga ao falar do lado "independente" de Modigliani, "sem mestres nem discípulo", "um caso único na história da arte".

"É um artista que não aceita a moral pequeno-burguesa. O mito é de que foi um drogado, alcoólatra, mas ele não fumou ópio, como Picasso. Acredita quem não conhece sua obra; quem conhece, apaixona-se."

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