Retratos de heróis do passado e do presente

Cineastas como Cacá Diegues e Laís Bodanzky retratam o sucesso e o fracasso de grandes competidores brasileiros

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h55

A tortuosa jornada de Rodrigo Pessoa com o cavalo Baloubet du Rouet, na Olimpíada de Sydney, em 2000, emocionou o cineasta Cacá Diegues. Já a consagração do judoca Rogério Sampaio (medalha de ouro em Barcelona, em 1992) motivou o diretor Cavi Borges. Esses são alguns dos personagens retratados por diretores de cinema em filmes que fazem parte do projeto Memória do Esporte Olímpico Brasileiro.

Os trabalhos de Diegues e Borges pertencem à segunda edição do projeto, realizado no ano passado. Esses e outros oito filmes (leia abaixo) serão exibidos a partir de hoje pelo canal ESPN Brasil, às 21h30, na média de um por domingo - a estreia é justamente com o filme de Cacá Diegues.

Na terça-feira, com a presença da ministra da Cultura Marta Suplicy, será anunciado o terceiro edital. O evento acontece na Cinemateca e estão previstos R$ 2 milhões em recursos.

Trata-se de um importante trabalho de resgate da memória do esporte nacional. Mais: uma rara oportunidade de os cineastas brasileiros utilizarem o esporte como ponto de partida, fato difícil de ser visto na sétima arte brasileira - exceções são Boleiros 1 e 2, ficções dirigidas por Ugo Giorgetti, e Garrincha - Alegria do Povo, documentário de Joaquim Pedro de Andrade.

Na verdade, a história da relação entre arte e esporte sempre foi carregada de desconfianças, apesar de notáveis exceções - o escritor Norman Mailer, por exemplo, lutou boxe como amador para desvendar a rica personalidade de Muhammad Ali, enquanto a diretora alemã Leni Riefenstahl documentou a Olimpíada de 1936, em Berlim, com uma estética única, associando a cultura do esporte à promoção da ideologia fascista. Sobre o assunto, Cacá Diegues fala a seguir:

Apesar de o cinema potencializar o processo de valorização da imagem, ao ampliar o seu alcance em vários sentidos, por que a relação entre esporte e cinema ainda é tão escassa no Brasil?

Acho que é porque é muito difícil filmar esporte em ficção. Já pensou encenar um drible de Garrincha? Uma daquelas arrancadas de Ronaldo Fenômeno? O esporte é meio destinado ao documentário, eu acho. Mesmo que os americanos consigam fazer belos filmes esportivos. Mas aí é o boxe, que não é propriamente um esporte, ou o beisebol que a gente não entende.

O que o encantou na jornada vivida por Rodrigo Pessoa e Baloubet du Rouet nos Jogos de Sydney, em 2000?

O fracasso de um vencedor. Em geral, o fracasso dá mais belos filmes que o sucesso, a vitória não tem a mesma chama humana que tem a derrota. É com essa que, em geral, nos identificamos mais.

Você precisou estudar as regras do hipismo, além de ver alguns vídeos, para melhor entender aquele momento olímpico?

Não muito. Apesar de se tratar de um cavalo, fizemos esse filme como um drama humano. Não entendo muito de hipismo, embora ache um belo esporte, muito elegante e visual.

O esporte, acredito, pode ser entendido como comunicação e criação. Assim, é possível dizer que existe uma estética própria para o esporte quando falamos de cinema e televisão?

Acho que a gente já devia estar superando essa dicotomia entre cinema e televisão, no fundo são dois meios de difundir a mesma coisa. A diferença mais fundamental é entre ficção e documentário. Aí, sim, há muito o que refletir.

Na história do cinema mundial, quais são os filmes sobre esporte que mais lhe agradam?

Sou cineasta porque sou cinéfilo, amo o cinema e por isso faço filmes. Vi muitos, ao longo de minha vida, nos anos 1960, quando comecei a fazer filmes, tinha até a pretensão de ter visto toda a história do cinema (seria até possível, naquela época o cinema tinha apenas 60 anos). Por isso não consigo escolher nem 10, nem 100, nem 1.000 filmes de minha preferência. Minha preferência é sempre pelo cinema e pelo filme que me encantará amanhã.

CACÁ DIEGUES

O mais longo dos filmes tem 52 minutos - em Mulheres Olímpicas, Laís Bodanzky mostra como se relaciona o papel feminino na sociedade e no esporte olímpico. Os demais são nove curtas de 26 minutos cada um, todos buscando histórias de superação seja pela vitória, seja pelo fracasso.

O último foi a opção de Cacá Diegues que, ao lado da filha Flora e da mulher Renata de Almeida, mostra como o medo do cavalo Baloubet du Rouet durante a competição custou uma medalha a Rodrigo Pessoa, na prova de hipismo da Olimpíada de 2000, em Sydney. O curta intitula-se sugestivamente No Meio do Caminho Tinha Um Obstáculo.

Mais bem-humorado, o documentarista Silvio Tendler preferiu, em O Brasil na Terra do Misha, apresentar seu olhar pessoal sobre os jogos de Moscou, em 1980, marcados pelo boicote das nações ocidentais.

Cavi Borges preferiu outra superação - a do judoca Rogério Sampaio que, em 1992, em Barcelona, conquistou a segunda medalha de ouro desse esporte para o Brasil. Borges, aliás, é um ex-judoca.

Saudosa lembrança também vai provocar o curta Viagem - O Saque Que Mudou o Vôlei, de Giuliano Zanelato. Os fãs vão se lembrar de Montanaro, William e Renan que, em 1984, ganharam a medalha de prata em Los Angeles e, definitivamente, transformaram o vôlei em uma das paixões nacionais.

Já Rafael Terpins encontrou a intersecção entre esporte e música em 3 Pontos: o Basquete, o Rap e o Jejum, sobre grandes nomes desse esporte de quadra.

Também ídolos do passado foram lembrados, como o nadador Manoel do Santos, bronze nos 100 m livres em Roma (1960), tema de 55s4 - A Virada, de Ricardo Dias. E o saltador do triplo Nelson Prudêncio, prata na Cidade do México (1968) e bronze em Munique (1972), é o herói de Um Homem Que Voa, de Maurílio Martins e Adirley Queirós. / U.B.

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