Retratos como decifrar rostos

Mostra, que será aberta amanhã, na Pinacoteca, traz imagens de 12 artistas captadas entre 1970 e 2011

SIMONETTA PERSICHETTI, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2012 | 03h01

Diz a história, ou talvez seja mais certo dizer a lenda, que o escritor francês Honoré de Balzac costumava percorrer os cemitérios parisienses para olhar os retratos tumulares e daí buscar inspiração para criação de seus personagens da Comédia Humana. O curador da Pinacoteca de São Paulo, Diógenes Moura, não chega a tanto, mas é também seu viés de escritor que o levou a se interessar pelo retrato.

Amanhã, dia 20, será aberta a mostra O Mais Parecido Possível - O Retrato, a terceira parte de uma pesquisa que iniciou em 2009, já apresentou duas exposições e pretende terminar o ano que vem apresentando o autorretrato. Realizadas por 12 fotógrafos, as 40 imagens desta exposição pertencem ao acervo da Pinacoteca e abrangem um período que vai do fim dos anos 1970 até 2011: "O retrato é uma estética fotográfica que me interessa muito", conta o curador por telefone. "É fascinante a relação do fotógrafo com os personagens, não só do ponto de vista psicológico, mas também do nosso posicionamento na vida cotidiana, quem somos, como nos apresentamos, como nossa gestualidade mudou com o tempo."

E, sem dúvida, o retrato é uma das mais instigantes e difíceis linguagens da fotografia - embora tenha sido a primeira. É pelo olhar do outro que eu me constituo como ser humano e ao posar para uma fotografia nos entregamos ao julgamento das pessoas que, em muitos casos, só vão nos conhecer e reconhecer por meio da imagem. Ao se aprofundar nesta pesquisa, Diógenes se deu conta que das 700 imagens que constituem o acervo da Pinacoteca criado de forma mais sistemática nos últimos 13 anos, a maioria é de retratos: "Nem sempre é o retrato convencional, mas a figura humana inserida em seu hábitat, inserida na paisagem. Personagens fora e dentro de estúdios", comenta o curador.

Desta forma, em sua curadoria, ele privilegiou diversas situações em que o retrato é possível de acontecer. Planos abertos, fechados, mas não excluiu de sua pesquisa o acaso, o flagrante. É o caso da conversa entre três autores diversos como Luiz Braga, Eduardo Simões e o norte-americano Loren McIntyre que registraram o homem amazônico em diferentes épocas e lugares.

Assim como interessantes também são os registros surrealistas de Fernando Lemos feitos no fim dos anos 1940 e uma faceta, talvez não muito conhecida, do retratista Cristiano Mascaro. Fotografias de profissionais com escaladas diversas dentro da fotografia, mas que, em algum momento de sua trajetória, também se sentiram atraídos pelo retrato: Adenor Gondim, Arnaldo Pappalardo, Camila Butcher, Claudia Guimarães, Fifi Tong, Eduardo Vilares, Klaus Mitteldorf e Ricardo Alcaide.

"Estes retratos mostram a ruptura da representação ao longo dos anos e, ao mesmo tempo, tentam dizer que somos todos um só, como se estivéssemos nos vendo num espelho", diz Diógenes. E é desta forma que a exposição foi montada, como se estivéssemos vendo a nós mesmos em cada fotografia.

E uma surpresa se agrega à mostra: três imagens inéditas do fotógrafo baiano Mario Cravo Neto foram incorporadas ao acervo e integram a mostra: "É sempre um desafio entender um retrato, ele precisa de um tempo para ser compreendido", afirma Diógenes. Um tempo longo, um tempo calmo que já não nos pertence, mas que vai ser necessário para decifrar tantos rostos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.