Retrato sem retoques de um universo underground

Romancista, acadêmico e artista da tatuagem, o norte-americano Sam Steward, tema de uma celebrada biografia de Justin Spring, registrou em seus diários cinco décadas de sexualidade gay

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Quando se pensa na liberação gay norte-americana, o ano citado é quase sempre 1969. Em junho daquele ano, uma série de manifestações conhecidas como a Revolta de Stonewall sacudiu o bairro nova-iorquino do Greenwich Village em protesto contra uma blitz da polícia num bar frequentado por homossexuais.

A crônica do homoeroticismo não começou, é claro, em meio à liberação do comportamento na década de 60. Mas a rejeição social manteve na clandestinidade protagonistas culturais, como o objeto da celebrada biografia Secret Historian - The Life and Times of Samuel Steward, Professor, Tattoo Artist and Sexual Renegade (Historiador Secreto - A Vida e os Tempos de Samuel Steward, Professor, Tatuador e Renegado Sexual), de Justin Spring, recém-lançada nos Estados Unidos e coberta de elogios por publicações como o jornal The New York Times e a revista The Economist.

Para além das qualidades literárias de Spring, a biografia tem ares de romance pela própria trajetória de Steward. Senão, vejamos: quais as chances de alguém imaginar, em torno de um só personagem, a trama a seguir?

Um adolescente furtivo, vai ao principal hotel de uma sonolenta cidade do Meio-Oeste americano, em 1926, bate à porta de um quarto com seu caderno de autógrafos e sai de lá horas depois com muito mais do que a assinatura - leva consigo um tufo de pelos púbicos do maior ídolo romântico do cinema mudo. A essa altura, ninguém mais vai correr para os sais aromáticos ao confirmar o fato de que Rodolfo Valentino era gay.

Continuemos com a improbabilidade. O adolescente criado por três tias puritanas em Ohio, já transformado em professor universitário, publica, em 1937, seu primeiro romance, Angels on the Bough, bem recebido pelo New York Times e torna-se protegido do casal Gertrude Stein e Alice B. Toklas. Suas novas amigas o convidam para visitá-las na casa de campo da França, nos anos 40. Na passagem por Paris, ele vai conhecer seu herói intelectual, André Gide, que lhe concede a entrevista no quarto, numa cama circular, coberta com uma colcha de cetim rosa. Na Inglaterra, ele se submete a um encontro sexual frustrante com o debilitado lorde Alfred Douglas, ex-amante de Oscar Wilde - o Dorian Gray em carne e osso.

Thomas Mann tinha a mulher e os filhos por perto quando nosso personagem foi entrevistá-lo em sua casa perto de Zurique, durante a 2.ª Guerra, mas ele encontra alguma ambiguidade sexual na despedida. O dramaturgo Thornton Wilder e o ator Rock Hudson foram seus amantes.

Cheguei a mencionar Alfred Kinsey? O pesquisador da sexualidade tornou-se o mentor do protagonista. Kinsey recorreu à meticulosa documentação fotográfica de Samuel Steward para seus trabalhos pioneiros em torno do sexo humano.

Imaginação. Entre persistir numa carreira literária modesta e reprimir suas explorações sexuais, Steward rejeitou o establishment que o rejeitava e abandonou a academia. Sua história iria continuar no mais famoso salão de tatuagem de Chicago, na década de 50, onde Phil Sparrow (pseudônimo adotado por Steward) aplicava sua imaginação vívida na pele de marinheiros. Nos anos 60, ele seria o tatuador favorito dos Hells Angels, na Califórnia. E quem conhece o clássico do erotismo pulp gay As Memórias de Um Garoto de Programa (publicado no Brasil pela Summus Editorial) - $tud, em inglês - deve saber que o nome do autor, Phil Andros, é mais um dos pseudônimos usados pelo extraordinário Samuel M. Steward.

Nenhuma parte dessa história mirabolante teria chegado ao público se o biógrafo Justin Spring não tivesse feito uma descoberta surpreendente num sótão de uma casa em São Francisco, onde mora o executor do espólio de Steward. Spring fora alertado primeiro pelo nome que apareceu num livro de ficção pulp gay e cuja prosa era de qualidade literária, ao contrário da maioria do material publicado nesse gênero. Historiador de arte e autor das biografias de Fairfield Porter e Paul Cadmus, ele passou nada menos do que dez anos debruçado sobre dezenas de caixas com diários e fotografias do seu personagem - aliás, obcecado por documentação. "Ninguém estaria interessado nas explorações sexuais de só um homem", diz Spring. "Mas Sam documentou sua vida privada com tanto talento e interesse em todos à sua volta que os arquivos revelam toda uma crônica cultural abaixo do radar da narrativa mainstream." Apesar do senso de humor com que Steward documentava suas aventuras - um arquivo com cerca de 800 fichas, o Stud File, especifica anatomia e atos praticados -, sua vida de encontros perigosos e clandestinos o levou ao alcoolismo, à depressão e até a uma breve conversão ao catolicismo.

"À medida que eu lia as mais de mil páginas datilografadas do diário de Steward", lembra Spring, "achava difícil acreditar que não se tratava de um romance, tal a qualidade da narrativa." Para ele, "Sam Steward era parte de uma corrente underground, não só americana, mas internacional". Ele escrevia para a pioneira revista suíça gay Der Kreis e, além de se corresponder com intelectuais homossexuais franceses, Steward traduziu Querelle de Brest, de Jean Genet, para o inglês.

O biógrafo destaca que Steward "foi parte ativa de um movimento nascente de liberação que, mais tarde, o considerou velho. Quando o movimento explodiu, ele já estava perto dos 60 anos e coube aos mais jovens continuar a luta pela aceitação". Sua história, porém, atesta que muita coisa começou com ele.

"Nos últimos três anos, descobri que sou homossexual e devo levar isto em conta ao planejar meu futuro. (...) A aceitação deste fato não vai me custar barato. (...) Eu disse que não considero minha homossexualidade o fato mais importante da minha vida. Sou um invertido, mas também sou ambicioso. Os homens normais também têm outros interesses além de sexo. Mas os normais, em geral, não têm que escolher entre amor e carreira.."

(Do ensaio inédito O Ajuste do Homossexual, de S. Steward - escrito quando ele tinha 22 anos -, reproduzido no livro de J. Spring)

Vídeo.Entrevista com J. Spring nome

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