Retrato sem retoque de uma virtuose

Lançada na França, primeira biografia da pianista argentina Martha Argerich, do jornalista Olivier Bellamy, combina apuração cuidadosa dos fatos - incluindo os polêmicos - e conhecimento técnico

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

A maioria das biografias "autorizadas" dos grandes músicos costuma patinar na chata e óbvia categoria chapa-branca, em que só se conta o permitido - e de preferência só se mostra o lado positivo. Parece que o músico não tem nenhum defeito. Ora, isso só contribui para reforçar o estereótipo do artista genial ungido pelos céus para espargir pelo mundo sua divina arte. E separa a música erudita num absurdo panteão da grande arte, muito acima de nosso dia a dia de cidadãos comuns e anônimos.

Músicos são de carne e osso. Sofrem, amam, são traídos. Esta é uma, mas não a única qualidade da primeira biografia da pianista argentina Martha Argerich, lançada há pouco na França. Ela completará 70 anos em 5 de junho de 2011, personificando o veredicto de seu maior guru, Friedrich Gulda em entrevista de 1960 (ele lhe dera aulas por um ano e meio em 1954, em Viena): "Ela não é só a primeira pianista do mundo, é um fenômeno inexplicável. Martha é a artista absoluta."

Martha Argerich - L"Enfant et les Sortilèges pertence aos raros exercícios biográficos que combinam a paixão do biógrafo por seu objeto de estudo; o DNA de jornalista em busca dos fatos, mesmo os mais polêmicos; e conhecimento do metiê do biografado. O autor da façanha é o jornalista parisiense Olivier Bellamy, editor de Le Parisien e crítico da revista especializada Classica, sucessora de Le Monde de la Musique. Bellamy também tem um programa na Radio Classique e um blog (http://blog.radioclassique.fr/olivierbellamy/).

O subtítulo do livro remete à ópera em um ato de Ravel com libreto de Colette que conta a história de uma criança castigada pela mãe que escapa do dia a dia tedioso por meio da fantasia e do amor. Faz sentido. Martha nunca deu bola para dinheiro; quer mais é gente que ela goste à sua volta. Jamais quis pôr ordem em sua vida. Por isso dependeu sempre das amizades e amores, paralelos à sua supermãe Juanita. Suas paixões incluem os pianistas Stephen Kovacevich, Alexander Rabinovitch, Fou Ts"ong, Michel Béroff, o adido cultural da embaixada argentina na Suíça Martín Tiempo (pai do pianista Sérgio Tiempo) e o maestro Charles Dutoit, entre outros. Jamais viveu só. Em suas casas sempre houve lugar para amigos, jovens talentos e oportunistas em geral. Rostropovich, que ela amava de paixão (Bellamy diz que eles devem ter tido um caso), dizia-lhe: "Você insiste em cobrar o mesmo cachê de um aluno de Pollini?"

Mestres. O livro tem pouco a ver com o documentário em DVD Conversas Noturnas, no qual a Martha madura parece mostrar-se de corpo inteiro, mas não discute questões polêmicas de sua vida pessoal. Bellamy vai fundo nesse quesito. Revela fatos até agora desconhecidos. Por exemplo, ela fez um aborto entre 1969 e 1970, por insistência de seu marido Charles Dutoit. Meses depois, em outubro de 1970, engravidou de novo - mas desta vez teve sua primeira filha, Annie. E venceu um câncer nos anos 90. Chegaram a dar-lhe só nove meses de vida.

Em todos os seus casos amorosos (com exceção de Dutoit, que a traiu com a violinista coreana Kyun-Wha Chung), sua personalidade era tão forte que esmagava o parceiro. Algo parecido com a relação do personagem Wertheimer com Glenn Gould no romance O Náufrago, de Thomas Bernhard.

São preciosos os capítulos dedicados aos professores de Martha. Ela estudou com o italiano Vincenzo Scaramuzza dos 5 anos e meio aos 11. Entre os outros alunos, Bruno Leonard Gelber. Scaramuzza jogava um contra o outro, desafiando-os. Ele jamais prescrevia exercícios de técnica que, dizia, podem secar a técnica e provocar a perda, em musicalidade, do que se ganha em treinamento mecânico. Receita perfeita: dosagem do peso, desenvolvimento da sensibilidade da ponta do dedo, percepção da trajetória do toque e igualdade na força dos dedos. Último detalhe: a intensidade do som depende da velocidade do ataque, pois assim se define um arco dinâmico mais ampliado. Parece simples, mas é dificílimo de se conseguir.

O ano e meio de 2 aulas semanais com Friedrich Gulda em Viena foi o período-chave em sua formação. Ela já cansou de repetir isso. Mas como eram essas aulas? Bellamy conta. Gulda, escreve Bellamy, ensinou a Martha "que existe humor em Haydn ou no jovem Beethoven". Ela mesma disse o que aprendeu com ele: "Uma obra não se esgota jamais, somente se esgotam os intérpretes que a tocam mecanicamente."

O sistema Gulda de aulas, só praticado com sua única aluna, Martha, era assim. Ele gravava as execuções da aluna, que eles escutavam em seguida comentando-as de maneira livre e democrática. Ela saía das aulas superexcitada. Hoje reconhece que devia estar apaixonada por ele. Gulda ia direto ao ponto: "Provavelmente você é hermafrodita, Argerich." "Mas o piano é um instrumento hermafrodita", respondeu ela, rindo. "Ele tem tudo: os graves, os agudos, a melodia, a harmonia, e é autossuficiente."

Diversas vezes, brasileiros cruzaram os caminhos de Martha. Jacques Klein, por exemplo, ganhou o primeiro prêmio no concurso de Genebra em 1953, quatro anos antes de Martha; Arthur Moreira Lima foi segundo lugar no Concurso Chopin de Varsóvia de 1965 em que Martha venceu espetacularmente ("ele estava nervoso demais na final", diz ela); dois pianistas brasileiros, Sérgio Monteiro e Alexandre Dossin, dividiram o primeiro prêmio do Concurso Martha Argerich de Buenos Aires de 2001. Mas ninguém é tão próximo dela como Nelson Freire. Eles se conheceram em 1959 na cantina da Academia de Viena. Nelson estudava com Bruno Seidlhofer, ela com Gulda. É de Siedlhofer esta frase que une o trio: "Conheci três fenômenos em minha vida: Gulda, Martha e Nelson. Com Gulda, tudo passa pela cabeça; com Martha pelos dedos; e com Nelson, pelo coração."

Eles tocaram juntos pela primeira vez em 1968. A biografia traz frases deliciosas de um sobre o outro. Martha: "Nelson é um gato disfarçado de cachorro; tem um jeito doce e gentil, mas é fundamentalmente independente." Nelson: "Martha é um cachorro disfarçado de gato; ela parece indiferente, felina, mas é profundamente fiel e sociável, até a dependência."

Um dos trechos mais emocionantes é o episódio em que Nelson leva Martha para conhecer sua mais profunda paixão musical, Guiomar Novaes. Esta pergunta a Nelson: "Do que ela gosta, como pianista?" Martha responde: "Horowitz, Rachmaninov..." Sentindo o terreno minado, Nelson repetia nervoso: "Horowitz, Rachmaninov..." Guiomar pergunta a Nelson: "Mas ela me ouviu em concerto?" Nelson, que conhecia a resposta, murmurou quase se desculpando: "Não, apenas em disco..." Guiomar o interrompeu com um gesto de desdém: "Disco não conta!"

Em sua primeira gravação para a Deutsche Grammophon em Munique, em julho de 1960, ela levou Nelson a tiracolo para o estúdio. E fez o que seria o chamado ritual Martha de gravação: "Vou tocar 3 vezes cada peça e vocês escolhem!" Para Nelson, cochichou rindo: "Se eles quiserem mais uma vez, toque você no meu lugar, ninguém perceberá."

Com o lendário Arturo Benedetti Michelangeli, ela teve quatro aulas em um ano e meio. O refinadíssimo pianista italiano curtia um ciúme atroz da paixão de Martha por Horowitz. Muitos pianistas moravam em seu palazzo em Moncalieri. Alberto Neuman, um deles, conta que, quando saiu para fumar, ouviu do quarto de Martha uma gravação de Horowitz. De repente, passou Michelangeli, que exasperado falou: "Sempre com seu Horowitz." Ele quebrou a cara mesmo em outro hilário episódio: uma noite, um grupo de estudantes ouvia Jeux d"Eau, de Ravel, e não perceberam a porta abrir-se. Observando-os, Michelangeli saboreou antecipadamente o triunfo perguntando: "É meu disco?" Ele sacudiram a cabeça sem ao menos olhar para trás: "Não, é Martha!"

Em 1963, Martha esqueceu que era pianista. "Já era uma lenda viva", diz Nelson, "mas o que fazia não a satisfazia". Aos 21 anos, decidiu encontrar-se com seu ídolo Horowitz em Nova York. Saiu do paraíso suspenso de Michelangeli para as delícias do inferno com o diabo em pessoa, na feliz frase de Bellamy. Martha via nele sua alma gêmea: "Ele é o melhor amante que um piano pode encontrar."

Mago. De fato, escreve Bellamy, Martha "é a única pianista que se pode comparar ao mago ucraniano". E, ainda por cima, Schumann é especialidade dos dois, assim como o Scarlatti de Horowitz e o Bach de Martha. Quando topar com qualquer gravação de obras desses compositores com esta dupla, não hesite. Você está diante de suprassumos da música gravada.

Mas a mulher dele, Wanda, filha de Toscanini, fazia marcação cerrada: não deixava nem homens nem mulheres se aproximarem dele, reprimindo a sexualidade onívora do marido. Em 1978, ela e Nelson assistiram de mãos dadas, no Carnegie Hall, Horowitz tocar o Concerto nº 3 de Rachmaninov com a Filarmônica de Nova York e Eugene Ormandy. Quando esteve na frente dele, Martha ouviu o elogio que mais desejou na vida: "You are the best!"

Atualmente, a pianista mora num apartamento na Rue de Chaillot, em Paris, bem ao lado do eterno amigo Nelson Freire. Parou de tingir os cabelos há quatro anos. "Quero ser uma velha senhora um pouco ridícula, mas não demais." Não há perigo. Afinal, já pertinho dos 70 anos, ela continua praticando à risca o mote de vida de um de seus amigos, o violinista Ivry Gitlis: "Tenha a coragem de ser você mesma, assuma riscos, não seja cópia de suas gravações ou das dos outros."

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA: MÚSICA E CULTURA NOS ANOS DE CHUMBO (ALGOL)

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