Retrato poderoso do preconceito

Gostaria, pela primeira vez, de falar de um filme, Vênus Negra, exibido em Paris. É muito belo e seu diretor, o jovem tunisiano Abdellatif Kechiche, grande cineasta. Ele esboça um retrato poderoso e nunca lacrimoso de uma mulher que foi célebre, a Vênus hotentote, nascida na África do Sul em 1789 e morta em Paris em 1815. Pertencia ao grupo étnico koisan, o mais antigo da África do Sul.

Gilles Lapouge CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2010 | 00h00

Nascida escrava, ela foi levada para Londres, onde os empresários de espetáculos ficaram contentes, pois a jovem apresentava duas singularidades impactantes: era portadora de calipígia, o que significava que tinha um grande traseiro. E seus órgãos genitais eram protuberantes. Um regalo, uma mulher daquelas. O que mais o povo desejaria?

Dali em diante, Saartje Baartman (seu verdadeiro nome era Swatche, mas os ingleses logo tomaram o cuidado de "batizar" a jovem e lhe impor outro nome) foi jogada às feras na Europa. Turnês triunfais a conduziram de Londres a Amsterdã e a Paris. Toda a aristocracia e a grande e média burguesias se dobravam de rir com suas nádegas enormes e seu sexo aparente. Como eles se divertiam! Valia todo o dinheiro!

O cineasta não evita cenas imundas, mas permanece discreto. Ele explica: "Zombaram dela, feriram-na e a ultrajaram de tal forma que precisei manter o respeito, precisei ser humilde." O filme esclarece outra vertente da ignomínia ocidental: o comportamento dos doutos. A primeira cena é violenta. Num anfiteatro, em Paris, um homem exibe a outros o sexo de uma mulher. Esse sexo acaba de ser destacado da Vênus Negra.

Ali, não estamos mais no espetáculo de circo, na tourada em que a Vênus Negra foi vítima ofegante. Estamos no âmbito da Ciência. O homem que se entrega a essa pornografia é dos maiores naturalistas da época, Georges Cuvier, produto daquela sublime cultura ocidental que nasceu do Século das Luzes e da qual a França, o país dos "direitos humanos" desde 1789, é o archote. O grande naturalista também francês Étienne Geoffroy Saint-Hilaire, que trabalharia no Brasil, não fica atrás. Ele considera que a feiura da Vênus hotentote assemelha-a a um orangotango, enquanto a deformidade de seu traseiro a aproximaria mais do macaco mandril.

Indignação. George Cuvier conclui: "Essa mulher é a prova da inferioridade de certas raças." Evidentemente, há quem seja indulgente com esses imbecis, com Cuvier, com Saint-Hilaire, com as multidões que acorriam em família para ver o fenômeno. Ele diria que esse desprezo, essa insensibilidade, era típico daquela época. Isso não é inteiramente verdade. Houve alguns solitários que se indignaram. É gratificante que essas vozes nobres não viessem dos notários, nem dos ministros, nem mesmo dos sábios, mas dos poetas.

Victor Hugo foi de uma ironia feroz: "Paris é um bom menino. Paris aceita tudo. Paris não é difícil em matéria de Vênus. Sua calipígia é hotentote. Contanto que Paris ria, Paris anistia. A feiura a alegra. A deformidade a desopila. O vício a distrai." Após 1994, na África do Sul libertada da ferocidade dos holandeses e dos ingleses, Nelson Mandela pediu que os despojos da Vênus Negra fossem repatriados para a África do Sul. A França começou por recusar, mas alguns anos depois, em 2002, enfim, aceitou: o corpo de Swatche foi devolvido à sua terra. Ele passará a eternidade no meio dos seus. TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

VÊNUS NEGRA

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