Retrato Improvável

Ao filmar vida do artista Ai Weiwei, cineasta acaba revelando as contradições de um país

LARRY ROHTER , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2012 | 03h08

No verão de 2006, logo após completar a graduação em história na Brown University e com um desejo de partir em viagem, Alison Klayman seguiu para a China. Chegou lá sem falar o idioma, com apenas um contato e um vago desejo de aprender uma nova língua e, quem sabe, encontrar um trabalho como jornalista.

Na sexta, o resultado da aventura de Klayman, um documentário premiado chamado Ai Weiwei: Never Sorry, estreou em Nova York. Caso clássico de estar no lugar certo na hora certa, Klayman se deparou com uma das mais interessantes histórias da vida recente na China: a transformação do artista de vanguarda em um dos mais conhecidos e contundentes dissidentes políticos do país. "Eu dei sorte", diz Klayman, hoje com 27 anos e um mandarim fluente. "Eu queria apenas tentar dizer algo novo sobre a China, fazer algo direito, contar quem esse cara realmente é."

Capturar o enigmático Weiwei já seria um desafio em circunstâncias normais. Artista conceitual, fotógrafo, designer e cineasta, ele tem uma imaginação incansável e a habilidade de confundir tanto os críticos quanto seus amigos mais próximos. Mas, quando Klayman começou a filmar seu documentário, Weiwei complicou ainda mais as coisas ao criticar publicamente o monopólio de poder do Partido Comunista e a maneira como ele lidou com os Jogos Olímpicos de 2008. Mais: no ano passado, enquanto ela começava a edição do filme, o artista foi preso no aeroporto de Pequim, ficou incomunicável durante 81 dias e acabou em prisão domiciliar por um ano. A acusação: "Crimes econômicos."

"Uma das partes mais difíceis de se fazer um filme como esse é que você não sabe ao certo como a história termina", diz Evan Osnos, correspondente da New Yorker em Pequim, que conheceu Klayman pouco antes de ele iniciar seu projeto. "Se você decide fazer um filme em tempo real sobre um personagem que persegue caminhos desconhecidos, tudo o que você pode fazer é se apegar a ele e ver onde ele te leva."

Entre os objetivos de Klayman estava usar o caso de Weiwei para mostrar que existem "pessoas interessadas em quebrar barreiras na China" e que há frestas no sistema em que se pode atuar para tanto. De quebra, ela também retrata o Estado chinês no que tem de mais arbitrário e despótico, desrespeitando as convenções internacionais de direitos humanos - das quais é signatário. Oficiais em Xangai, por exemplo, constroem um ateliê para Weiwei e, mais tarde, bancam sua demolição quando ele cai em desgraça: em resposta, o artista dá uma festa em meio aos escombros.

No que talvez seja a mais extraordinária passagem do filme, que o próprio Weiwei disponibilizou, a polícia de Sichuan invade seu quarto de hotel no meio da noite e bate nele de tal forma que ele precisa passar por uma cirurgia na Alemanha por causa de uma hemorragia craniana. Quando ele reclama, os policiais riem, dizendo que ele mesmo teria se ferido; e quando ele tenta prestar queixa em uma delegacia de polícia, episódio que Klayman filmou até ser expulsa, seu esforço quixotesco é destruído por uma burocracia kafkiana. Momentos como esse nos revelam o que acontece, quando ninguém está olhando, também com outros dissidentes como o crítico literário e filósofo Liu Xiaobo, que recebeu o Prêmio Nobel em 2010. "Eu não parti de uma ideia específica segundo a qual gostaria de retratar o Estado", diz Klayman. "Acredito que eles próprios escreveram o papel que desempenharam no filme.

Ao longo de todo o documentário, Weiwei parece querer esfumaçar as linhas que dividem seu trabalho criativo, sua participação política e sua vida privada. Mesmo um simples jantar em um restaurante de Chengdu, em Sichuan, sob a vigilância da polícia, parece encenado como um projeto artístico. "Se você pergunta a Weiwei, ele vai dizer que tudo o que faz é uma forma de arte, então o que você vê no filme não deixa de ser também uma performance", diz Zhang Hogtu, artista chinês radicado nos Estados Unidos, amigo de Weiwei. "Tudo o que faz é calculado, tem uma estratégia, e isso fica claro em Never Sorry."

Ainda que a arte e os conflitos políticos de Weiwei sejam conhecidos, fazendo dele uma figura familiar no universo da arte, seu passado e a origem de suas motivações permaneceram obscuras. E o filme de Klayman ajuda a tapar alguns buracos. Never Sorry mostra cenas delicadas do artista ao lado de sua mãe e revela sua devoção pelo pai, o poeta Ai Qing. Figura-chave na literatura chinesa do século 19, Qing foi preso por Mao Tsé-tung em uma campanha "antidireitista" em 1957, o ano em que Weiwei nasceu. "Ao longo de seus primeiros 17 anos, o que ele viu?", perguntou-se Klayman. "Ele viu seu pai, uma figura de renome internacional, amigo de Neruda, lavando banheiros e tratado como um inimigo do povo. Deve ter sido algo estranho e difícil, ainda que não fique claro quanto isso o marcou. Às vezes, ele não queria falar sobre o tema; em outros momentos, dedicava-se a ele abertamente", diz a cineasta.

A recepção ao filme, exibido no Festival de Sundance, no qual recebeu prêmio especial do júri, tem sido boa. "Se levarmos em consideração que este é seu primeiro filme, e que seu tema era um alvo em constante movimento, o resultado é impressionante e, ao mesmo tempo, inspirador e acessível", diz o produtor Adam Schlesinger. "Outros filmes já foram feitos sobre Weiwei, mas a diferença é que Klayman viveu ao lado dele, comprometeu-se a segui-lo em todos os momentos. Esse projeto dominou sua vida e isso deve ter agradado a Weiwei, para quem vida e arte são a mesma coisa", completa Osnos.

Claro enigma. Para ele, vida e arte são a mesma coisa

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