Retrato implacável de uma certa ética utilitarista

Talvez Inverno da Alma nem ganhe nada no Oscar. Mas o fato é que, com sua simples presença, eleva o nível da competição de 2011 - uma safra bastante fraca. Dirigido por Debra Granik, Inverno da Alma, pelo contrário, nada tem de frágil. Entra sem medo numa história dura como aço e aposta numa dramaturgia sem qualquer concessão.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2011 | 00h00

O cenário destoa de todos os estereótipos associados aos Estados Unidos. Ao invés da terra das oportunidades, temos como cenário uma das regiões mais miseráveis do país, cuja população é afetada pela disseminação de uma droga fatal, a metanfetamina.

A história é a de uma garota, Ree (Jennifer Lawrence), que precisa desesperadamente encontrar o pai. Não se trata tanto de amor filial. É que Jessup, preso por trabalhar num laboratório da droga, foi libertado sob fiança e sumiu. Ree toma conta da mãe, incapaz, e de dois irmãos menores. A polícia lhe diz que se o pai não for encontrado, a família será despejada, pois a casa foi dada como garantia da fiança. Simples assim.

De modo que a busca de Ree nada terá daquela trajetória simbólica da procura pelo pai como em Paisagem na Neblina, de Theo Angelopoulos, ou Central do Brasil, de Walter Salles. É busca pela sobrevivência mesmo.

Pau puro. E Ree mergulhará num pesadelo sem fim nos traços desse pai ausente. Com uma fotografia gélida e interpretação forte de Jennifer, Inverno da Alma traça um retrato implacável de certa ética utilitarista dos Estados Unidos. O ser humano, ali, é mero detalhe.

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