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Retrato falado para a eleição de 2018

Ele pode ser religioso ou ateu, todavia não pode ser catequista da sua posição

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2017 | 02h00

Votar é um direito e um dever. No Brasil, em particular nas duas últimas décadas, tem sido um desafio. Fizemos experiências distintas de projetos políticos e descobrimos coisas muito parecidas. O momento é de enfraquecimento de utopias e de horizontes. O eleitor médio tem a sensação da inutilidade da consulta.

Tenho muitas dúvidas. Falarei das minhas certezas. Não votarei em alguém que já exerceu poder no Executivo. Reconheço alguns méritos em governos passados. Há defeitos imensos. Assim, estou disposto a arriscar erros novos a repetir antigos. Argumento fraco eticamente, mas que me vem à cabeça: votar em alguém novo, pelo menos, contempla a distribuição de renda em caso de o eleito demonstrar-se pouco ético com a coisa pública. Para mim, sem fazer disso qualquer pregação, será alguém que nunca tenha exercido o cargo da Presidência.

Segundo: além de novo, será alguém que não bata na tecla da Guerra Fria como eixo central da sua proposta. Se o candidato fica berrando sobre comunistas ou reacionários, perigo vermelho ou ameaça fascista, é porque leu pouco, não acompanhou jornais desde a queda do Muro de Berlim e não se desligou de paradigmas do pós-Segunda Guerra Mundial. Governantes com tão baixa leitura ou atualização de fatos são perigosos.

Todo candidato ou candidata tem uma origem social, uma identidade étnica, um posicionamento religioso e uma inserção em uma cultura local. Antes de ser um homem ou uma mulher que decidiu concorrer, era e é uma brasileira(o) nata(o) com mais de 35 anos como manda nossa Carta Magna. A primeira questão: a pessoa deve entender que está concorrendo para governar o Brasil, não o Sul ou o Sudeste, não os quilombolas ou os cidadãos de Pomerode (SC), não os industriais, os latifundiários ou os operários, porém os quase 210 milhões de brasileiros que existirão na época da sua posse. Logo, mesmo tendo claras (e deve ter) propostas sobre o combate a uma injustiça social, não pode identificar outras parcelas legais e formalmente constituídas da sociedade brasileira como inimigas. Não deve instituir o discurso do nós contra eles, não pode ser o representante de um grupo, sequer do meu grupo identitário dos professores universitários carecas. Será um candidato a presidente do Brasil. Não governará intelectuais com alopecia.

O discurso do candidato deve ser duro, duríssimo, contra o analfabetismo, o racismo, a violência contra as mulheres, a corrupção e outros temas candentes e claros. Sobre eles deve haver propostas concretas que demonstrem, ao menos, como ele ou ela entende a importância de combater tais coisas. Alguns temas como racismo não podem comportar neutralidade.

Sobre outros temas mais complexos e que não envolvem ilegalidade, as candidatas e os candidatos devem ouvir muito e estimular o diálogo. Exemplos? Bolsa-família parece ter poder de diminuir desigualdades sociais. Deve ser transformada? A resposta não é tão clara. Outro exemplo complexo: incentivos fiscais oficiais ajudam um grupo, como ficam os restantes? Os grupos que conseguem esses benefícios seriam os mais necessitados ou os mais organizados na forma de constituir lobbies? São questões complexas. Avaliar/aperfeiçoar/eliminar bolsa-família e bolsa BNDES pode ser uma excelente discussão política.

Meu candidato ideal pode dizer algo errado em algum momento de campanha. Deve retratar-se com sinceridade. Somos falhos. Avalio a sabedoria de alguém pela capacidade de dizer, simplesmente, “eu errei”.

Meu candidato pode ser religioso ou ateu, todavia não pode ser catequista da sua posição. Não deve exibir sua fé ou a falta dela como argumento eleitoral. O cargo não é de papa ou grão-rabino. Crer ou não crer em Deus, ter ou não ter família, frequentar a Igreja ou nunca ter colocado os pés em alguma não apresenta relação com ética ou competência. Há capivaras piedosas, antas ateias e cavalgaduras agnósticas. Há ladrões para todos os altares e outros larápios sem fé. O cargo é de presidente do Brasil e não do conselho paroquial, tampouco coordenador da associação de ateus e agnósticos. A pessoa vitoriosa nas urnas governará um país com católicos, evangélicos, judeus, islâmicos, espíritas, budistas, ateus, agnósticos, religiões afro-brasileiras e muitas outras. O primeiro exercício de uma boa política é a convivência com a diversidade.

Interessa-me a biografia da pessoa para saber como ela resolveu a dramática questão de implantar ideias, convencer pessoas, negociar com grupos e enfrentar problemas organizacionais. Para o futuro do Brasil, preciso examinar o passado profissional das pessoas.

Meu candidato não será um Messias que virá salvar o Brasil e instituir um paraíso no dia seguinte à posse. Não fará promessas de ingresso no Primeiro Mundo em poucas horas. Ele/ela saberá que toda mudança é complexa e demorada. Terá cabeça de estadista e não terá obsessão pelas três prioridades que parecem dominar o clássico político brasileiro: reeleger-se, eleger aliado após a sua reeleição e, por fim, escapar da cadeia ao final do mandato. Ela/ele pensará o País para as próximas décadas. Não voto para ajudar uma pessoa ou seu projeto de vida, voto para o cargo de presidente.

Bem, ainda não sei em quem votar. O caro leitor e a estimada leitora já perceberam que já sei em quem não votarei. Já é um passo. Boa semana a todos!

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