Retrato em branco e preto

Em A Travessia da Calunga Grande, Cia. Livre investiga a formação do Brasil através do passado escravocrata

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2012 | 03h11

Um passado edulcorado. Fundado sobre a ilusão de um povo pacífico, gentil, cordial. Ao revolver os mitos de morte e renascimento dentro da cultura negra, o espetáculo A Travessia da Calunga Grande esbarrou em muitos dos pressupostos da formação do País.

A conciliação entre as raças alardeada por Gilberto Freyre. O futuro glorioso do Brasil mestiço louvado por Darcy Ribeiro. Todas essas teses - algumas delas reabilitadas pelo modernismo festivo e nacionalista - caem por terra neste novo trabalho da Cia. Livre.

Escrita pela dramaturga Gabriela Almeida, em colaboração com o grupo, a peça detém-se sobre uma narrativa nada idílica. Flagra um amontoado de mortes e atos de violência extrema. "Começamos a perceber quanto a origem escravista está arraigada na estrutura do Brasil", observa a diretora Cibele Forjaz. "Todos os nossos grandes problemas, sejam eles sociais, políticos, econômicos, sejam aqueles relacionados ao trabalho e às relações humanas, têm na estrutura escravocrata um dado fundamental. É uma violência tremenda, mas preferimos esquecer." Flagra-se uma atitude conciliadora que não está circunscrita apenas ao episódio da escravidão, mas expandida para outras situações da história recente. Entre elas, a anistia mal resolvida que abafa os crimes cometidos durante o período militar.

Para criar a peça, o grupo deteve-se sobre as análises de uma série de "intérpretes" do Brasil. Um passeio que abarca desde o abolicionista Joaquim Nabuco até estudiosos contemporâneos como Luiz Felipe de Alencastro e Eduardo Viveiros de Castro. Há, no entanto, um outro componente que auxilia a Cia. Livre a transformar as ambiguidades da mestiçagem brasileira em fábula. O paralelo que foi traçado entre o passado sangrento nacional e o Édipo Rei, de Sófocles.

Em sua releitura do mito grego, A Travessia da Calunga Grande transfigura o rei que desconhece a própria origem. "Como é que se pensa identidade em um país composto basicamente de diferenças? Uma diferença não só de formações mas uma desigualdade imensa", questiona a encenadora, um dos nomes mais festejados do teatro paulistano. "Tal qual um Édipo, o brasileiro está sempre perguntando 'quem eu sou, de onde eu vim?'"

Na obra eternizada por Sófocles, Édipo mata seu pai, o rei Laios. E, por não conhecer sua descendência, casa-se com a própria mãe, Jocasta. Sua ignorância está na raiz do mal. Um assassinato funda a sua linhagem.

Sob a lente da Cia. Livre, esse anti-herói deixa de ser apenas um personagem e torna-se uma metáfora da crise identitária que paira sobre o Brasil. A montagem flagra o interior de um navio negreiro, em eterno trânsito entre o Brasil e a África. O cenário de Simone Mina deve dar ao galpão do Sesc Pompeia a aparência de uma imensa embarcação. O palco está cercado por água, escotilhas pendem das paredes, os figurinos evocam as cordas típicas da navegação.

Como se também estivesse encerrado dentro desse barco, o público segue a história de um prisioneiro que alcança o posto de capitão. Faz acordos com as forças que estão no poder, mas acaba se perdendo pela própria ambição desmedida. Será morto e terá seu lugar tomado por uma mulher, Nora.

Aparentemente mais ponderada, ela assume a função de "mãe" dessa tripulação. Em pouco tempo, porém, será também corrompida. "A mulher é colocada em uma posição de poder, mas reproduz os padrões que chamaríamos de masculinos", diz Lucia Romano, intérprete da personagem. De certa forma, Nora se aproxima da imagem da nossa República, sistema no qual existe a liberdade, mas a desigualdade persiste como base.

Outra aproximação da trama com o mito edipiano se dá pela menção a um crime de sangue não vingado. Neste caso, contudo, não se trata apenas do Rei Laios assassinado. O cadáver insepulto não é individual, mas um corpo coletivo: representação de milhões de africanos transportados à força para o Brasil. O enredo termina aí. Mas o espetáculo só chega ao fim após um ritual. É hora de cultuar os que morreram. E de não esquecer.

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