Retrato em alta definição de um rapper ultrapop

A primeira da série de faixas liberadas para download gratuito por Kanye West, nos últimos meses, foi o single Power. Com videoclipe construído como uma cena renascentista, em que a figura do rapper é centralizada e endeusada em meio a uma legião de súditas, a faixa foi um presságio: "Nenhum homem deveria ter tanto poder", cantava Kanye, antecipando a decadência narcisista e megalomaníaca que permeia seu novo disco, My Beautiful Dark Twisted Fantasy.

Crítica: Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

É um disco difícil de digerir. A insistência do rapper em dissecar as profundezas de seu ego com um bisturi impiedoso dá um tom quase doentio à sequência de faixas. Em Hell of a Life, ele detalha, da pista de dança ao banheiro, seu romance com uma atriz pornô. Monster tem participações dos galácticos Jay-Z, Rick Ross e Justin Vernon (da famosa banda indie Bon Iver) e culmina com um verso perturbador e esquizofrênico pela jovem rapper Nicki Minaj, que descreve em detalhes sórdidos a monstruosidade de seu ego.

Os delírios de Kanye, que parece ensaiar para ser, em dois ou três anos, o Macbeth do hip hop, transbordam não só em rimas, mas também na construção brilhante e deprimente de algumas faixas. So Appalled tem um arranjo soturno que serve de moldura para uma letra de excessos por Jay-Z: "Eu perdi US$ 30 milhões, então gastei mais 30", canta o rapper. No refrão, Kanye completa: "Pratos cinco estrelas, peixes exóticos. Isso tudo é ridículo."

As comparações à decadência do império romano servem e, pela glorificação descarada dos tumores da sociedade moderna (consumismo desenfreado, imediatismo, egolatria promovida por redes sociais, etc...) o disco se torna um retrato em alta definição da própria.

Mas Twisted Fantasy não é só soco no estômago. Logo após a excelente sequência de rimas em Monster, uma melodia de puro soul entoada por Justin Vernon questiona os pecados cometidos com uma sinceridade que reverbera com tradição gospel.

É um dos toques clássicos da produção do disco, que resume a relevância artística de Kanye West no início da nova década: Nas famosas produções para Jay-Z e em uma discografia solo excelente, que começa com College Dropout, de 2004, tem Late Registration, Graduation, Kanye faz batidas que evocam a tradição musical afro-americana mais distinta. No cânone de grandes rappers, suas rimas não são menos importantes. Por isso, goste ou não, em 20 anos, a linha que corre de James Brown e passa por Sly Stone, Prince e Michael Jackson, terá passado por Kanye West.

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