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Retrato do jovem em preto e branco

'Cores', primeiro longa do diretor Francisco Garcia, acompanha cotidiano de três paulistanos em meio ao cinza da cidade

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2013 | 02h09

Compro, logo existo. Se o filme Cores, que chega hoje aos cinemas, precisasse de uma frase para resumir a palavra de ordem dos jovens que retrata, esta seria certamente uma das mais adequadas. Primeiro longa-metragem de Francisco Garcia, o filme surge no otimista cenário nacional para, em vez de seguir a estrutura clássica de contar a trajetória do herói que nos inspira na tela, desestruturar a narrativa, e o espectador, para revelar, em vez de uma juventude que vive sua fase mais colorida, a vida de três paulistanos que se arrastam pelo dia a dia cinza da grande metrópole. Sem grandes ideais e perspectivas, são movidos muito mais pela lógica da sociedade de consumo.

Propositalmente rodado em preto e branco, Cores conta a história de Luiz, Luca e Luara. Ela, de 30, trabalha em uma loja de peixes ornamentais, namora Luiz e vive em um "não lugar", um apartamento com vista para a pista do Aeroporto de Congonhas. Seu único objetivo é juntar dinheiro para fazer uma viagem. Já Luca, 31, é um tatuador que, por trás da agressividade exibida por suas tattoos, esconde a delicadeza que tem ao tratar a avó, com quem mora em um bairro tradicional de subúrbio. Luiz, 29, vive em uma típica pensão no centro, trabalha em uma farmácia, de onde 'empresta' alguns remédios tarja preta e faz bicos suspeitos com sua moto. Sem grandes ambições ou convicções, passam seu tempo bebendo, fumando, consumindo e circulando, quase sempre sozinhos, pela cidade.

Longa que fez sua pré-estreia mundial no Festival de San Sebastian 2012 e já rodou outros importantes eventos de cinema no mundo, Cores retrata com precisa cirúrgica uma geração à deriva. Seria um tanto deslocado detectar que, em meio ao Brasil que cresce economicamente e é 'a bola da vez', há uma camada de brasileiros que transita entre a melancolia e a inércia? E que não vive este tal milagre econômico pós-moderno? "Não. Os personagens são muito próximos de nós. Somos de uma geração que cresceu na crise dos anos 80, em um país economicamente instável, na era do pós tudo. As ideologias, a moral, a fé... Tudo perdeu o sentido. Só o consumo os move", comenta o roteirista Gabriel Campos, de 29. "É uma geração que já não é mais adolescente, mas que tampouco é idosa, mas que agora não sabe onde se situar. Muito do que está no filme foi inspirado em nossos amigos, que vivem uma trajetória muitas vezes sem estrutura", completa Garcia, de 32.

É exatamente a anti estrutura do roteiro, o anti drama, que traduz a falta de perspectiva de Luara, Luca e Luiz. "Em sua forma, não só no p&b, mas em seu som, no tempo dilatado, na sensação de que algo vai acontecer a qualquer momento, mas nada acontece. Tudo isso foi pensado, para traduzir a falta de motivação e horizonte deles. A cidade se movimenta, mas eles não saem do lugar", comenta a dupla.

É de fato quase física a sensação de ar rarefeito e desbotamento dos sonhos de juventude que sente ao ver São Paulo filmada em tantos tons de cinza, observar a tartaruga de estimação que é capaz de caminhar mais rápido que o trio de protagonistas, a chuva que cai incessante e pesada.

Para completar, o peso deste cotidiano opressivo é sentido cada vez que a densa trilha sonora é executada. Os jovens de Cores vivem o fim das utopias e, ao mesmo tempo, veem Lula discursar otimista na TV sobre o bom momento do Brasil. A mesma TV transmite as já clássicas notícias sobre as chuvas que castigam a cidade a cada verão. Isso provoca qualquer esboço de reação no trio? Não. Eles observam tudo impassíveis, em uma imobilidade tão sufocante quanto ironicamente bela.

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