Retrato do artista quando jovem

Com influência de Nelson Rodrigues, o dramaturgo Jô Bilac, de 26 anos, é saudado como grande promessa de sua geração

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2010 | 00h00

 

 Jô Bilac é um homem trágico. Ou ao menos parece ser. Na hora de posar para as fotos, posta-se atrás do cemitério. Assume um ar circunspecto, olha de soslaio para a câmera e dá baforadas no cigarro para acentuar a aura lúgubre da cena.

Conta que gosta de andar vestido de preto. Mesmo no verão do Rio de Janeiro. Diz que não gosta de fotógrafos que lhe pedem sorrisos. "Por que é que todo mundo tem que aparecer rindo?" E escreve textos que falam de amor passional, passionalíssimo.

Ele não engana ninguém. Sentado em um café em Higienópolis, o dramaturgo carioca sorve devagar o seu cappuccino. Durante a tarde fria, discorre com volúpia sobre quão implacável é a morte. Sua persona sombria, porém, não se sustenta por muito tempo.

Sem aviso prévio, salta das considerações existencialistas para a galhofa. Faz troça de si mesmo e dos outros. Deixa evidente a veia cômica e explica, sem hesitações, a oscilação constante entre opostos. "A tragédia e o humor convivem, se confundem", ele diz. "Acho que, no fundo, é tudo uma coisa só."

A sentença oferece a chave para desvendar Rebu, peça que Jô e sua companhia Independente de Teatro apresentam no Sesc Consolação, em São Paulo. Na montagem, que segue em temporada simultânea no Rio, o autor se vale da estrutura típica dos folhetins do século 19, com direito a intrigas e a um turbilhão de lágrimas, para fazer rir.

Descoberta. Aos 26 anos, Jô - que nasceu Giovanni - tem sido apontado como promessa de sua geração. Foi "descoberto" aos 23, quando escreveu Cachorro!, texto no qual bebia diretamente em Nelson Rodrigues. E, de lá para cá, só fez colecionar e administrar convites.

Está em cartaz com outro espetáculo na capital fluminense, Savana Glacial, compôs roteiros para três curtas-metragens e transformou-se em administrador de dois teatros no Rio: o Glaucio Gil, em Copacabana, e o Maria Clara Machado, na Gávea.

Também escreveu duas novas pecas sob encomenda: Alguém Acaba de Morrer Lá Fora, criada à risca para Beth Goulart, e Matador de Santas, concebida para a direção de Guilherme Leme, com a atriz Ângela Vieira no papel principal.

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