Divulgação
Divulgação

Retrato do artista quando jovem

Mais que o ídolo do rock, filme revela quem foi o garoto que transformou a inquietude de uma geração em poesia

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2013 | 02h10

"Ele era o Renato Manfredini Jr. Era o professor Manfredo, que dava aulas de inglês. Era Jack Russel. Era o Renato Russo. Condensar tudo isso foi muito delicado." Assim o ator Thiago Mendonça bem definiu o personagem a que dá vida em Somos Tão Jovens, filme que estreia amanhã com a expectativa de levar legiões para assistir no cinema à cinebiografia de Renato Russo.

Longe de ser o retrato do mito da música brasileira em que o garoto de Brasília se tornou, o filme é um recorte dos anos que precederam a fama e a criação da Legião Urbana. "É um registro da formação do Renato, das questões da juventude, do nascimento da cena musical de Brasília que criou bandas como Aborto Elétrico, Capital Inicial e tantas outras", comenta o diretor Antônio Carlos da Fontoura, responsável por levar a história para as telas. "O mais bacana foi descobrir um menino se inventando, um rito de passagem, a jornada do herói, que tem um sonho e que parte nesta direção. E que tem dúvidas, se questiona", conta o cineasta que, aos 74 anos, não fez parte da geração que cresceu ouvindo Legião em seu auge nos anos 80 e 90. "Mas eu sempre soube de sua importância. E me surpreendo como os jovens de hoje, que também não cresceram com a Legião, descobrem a banda e são prova de como Renato continua atual."

Em recente conversa com o Estado, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, guitarrista e baterista da Legião Urbana, comentaram que é estranho ver, décadas depois, sua própria história na tela. Eles foram tema de documentário de Vladimir Carvalho, Rock Brasília, que registrou o nascimento do movimento cultural e musical que, no cenário efervescente da capital nacional dos anos 70 e 80, deu origem a bandas que entraram para a história do rock brasileiro. E, de certa forma, Rock Brasília e Somos Tão Jovens são complementares.

"Talvez a ficção seja até mais real. Não que o documentário não seja ótimo. Mas nele há os relatos e os pontos de vista de cada um", disse o baterista Bonfá. "Já a ficção pega o quebra-cabeça que foi o cenário da época e acrescenta o elemento dramático, que muitas vezes o documentário não tem. São duas linguagens muito distintas", completou Dado, que aprovou a atuação do ator Thiago Mendonça. "O Thiago representa o Renato de forma tão real. Há um certo impacto em vê-lo. E, para completar, tem meu filho (Nicolau Villa-Lobos) interpretando a mim mesmo", diz. "E no final, ainda há a cena em que a ficção desemboca no palco de um show real, ao som de Será, e eu pensei: caramba, esta banda era f.... mesmo. Era muita energia. Muito impressionante", completa o guitarrista.

É por esta combinação de História (com H maiúsculo) da música nacional e de imaginário que Somos Tão Jovens já é o filme brasileiro com a maior fan page do Facebook até hoje, com cerca de 135 mil fãs. "Quando me perguntam se vejo uma renovação dos fãs da Legião, não sei responder. Este filme é uma releitura disso tudo. Não sei exatamente o que a galera mais nova pensa e ouve, mas as questões que são levantadas nas músicas e nas letras, a forma com que o Renato cantava e contava, sempre foram expostas de forma humana. Ele traduziu a inquietude jovem. E isso nunca vai acabar", comenta Bonfá. "A vida é feita de ciclos. Todas as gerações, e pessoas, que começam a ter liberdade de pensamento vão lidar com questionamentos. E vão encontrar nas canções da Legião um oráculo", diz o guitarrista.

É exatamente este período de questionamentos e formação de caráter de Renato Russo que mais interessou o diretor Antonio Carlos da Fontoura. "Descobri o Renato fazendo o filme. Não teria feito um longa sobre um roqueiro de 30 anos, famoso, fazendo shows para milhares de pessoas, atormentado com a fama", diz. "O que me encantou foi entender melhor quem foi este garoto muito inteligente, que conseguiu transformar sua imensa cultura em poesia, em refrões. Mas, se não fosse a turma da Colina, de Brasília, ele iria ficar enclausurado em seu quarto. É esta interação com a turma, como ele puxou a turma e a turma o puxou, como isso resultou no Rock Brasília, que me seduz."

Fontoura conta que a música da Legião que mais gosta é Ainda é Cedo. "É a que mais me toca. 'E o que ela descobriu. Eu aprendi também, eu sei'."

No filme, é para Ana (Laila Zaid) que Renato compõe a canção. "Ana é um amálgama de várias meninas que fizeram parte da vida do Renato quando jovem. É a única que não é alguém 'real', mas tem um simbolismo incrível", comenta Thiago Mendonça, que está perfeito em sua representação. Até mesmo os gestos frenéticos que Renato fazia com os braços quando dançava, Mendonça faz com maestria. O ator de 33 anos conta que até a morte do cantor, em outubro de 1996, não tinha ideia de sua importância. "E só me apaixonei mesmo por ele com o filme. Mas foi um amor profundo, pois mergulhei em seu universo. Tive o privilégio de conviver com sua mãe, Dona Carminha, e a irmã, Carmem Teresa, que abriram sua casa e sua vida para mim. Até mesmo os cadernos dele pude ver", relembra. "Imagino o quão forte foi para elas verem suas vidas sendo filmadas. Para mim às vezes era até estranho quando me chamavam de Renato, mas muito prazeroso. Ele deixou um legado de carinho e afeto. É isso que fica. É só amor."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.