Retrato do artista em movimento

Ao longo de aulas reunidas em Cinco Advertências Sobre a Voragem, o compositor Willy Corrêa de Oliveira relembra a sua trajetória - dos anos de comunismo até a retomada do ''anseio pela arte''

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Escrever música, para mim, tornou-se algo semelhante a um louco que aplacasse sua loucura escrevendo cartas; como não dispõe de destinatário, não tem para quem escrever, com quem se corresponder, escreve para si mesmo. Vai ao correio, como todo mundo que tem cartas para enviar, sela, e manda para seu próprio endereço. E aguarda. E continua a escrever outras.

Mandar cartas sonoras para si mesmo é como esperar Godot, "rien à faire". "E agora, José?", não há mais por que lutar após a Queda do Muro de Berlim; não há sentido mais em fazer música nas portas de fábricas. E muito menos em reassumir o posto de compositor contemporâneo burguês. O que fazer? Escrever música, apesar de tudo. Música como "muleta, a arte como consolação, como um meio de escapar da morte. Isso! Escrever músicas tornou-se pra mim, ao mesmo tempo que um lenitivo, um diálogo de vida ou morte com a criação".

Há um sentimento claro de desesperança e resignação no núcleo mais profundo do novo livro do compositor Willy Corrêa de Oliveira, Cinco Advertências sobre a Voragem. Willy é um dos mais importantes criadores e pensadores musicais brasileiros do último meio século. Sua ideia-mestra nas cinco aulas no Departamento de História da USP transcritas no livro é dupla: aos historiadores, recomenda que pensem a música como sinal do mundo; e aos músicos, que escutem a História como um sinal que perpassa a música.

Mas, aos 72 anos, ele as acaba transformando em mais uma entre várias recriações obsessivas de seu trajeto como compositor. As duas primeiras - Como me tornei um compositor e O artista incompreendido - já são de há muito conhecidas. Entretanto, sua leitura entusiasma. Mesmo para quem sabe de cor as passagens de Hanns Eisler e Bertolt Brecht que ele não se cansa de repetir (com notável verve, reconheça-se).

Vocábulos bíblicos pululam nas páginas da surpreendente terceira advertência, intitulada O artista comunista. Dúvidas atrozes rondavam seu dia a dia. Treze páginas, sobretudo, são antológicas. Qual Saulo de Tarso, o perseguidor dos cristãos na Roma antiga que ajudou a apedrejar Estevão e converteu-se no apóstolo Paulo ao ter uma visão a caminho de Damasco, Willy converteu-se assistindo a uma encenação do Moteto dos Passos de Cristo na Sexta-Feira Santa de 1982 em Prados, Minas Gerais. "Foi estranhíssimo, me veio assim uma certeza assim avassaladora mesmo, alucinante: Deus existe (...) uma certeza tão irredutível que, puxa vida, assustei-me a princípio (...) Mas como: mas como é que é? E a dialética?... (...) Falei com um grande amigo do partido que eu estava com todos estes problemas e ele perguntou: "você deixou de ser comunista por isso?" Respondi: "Em nenhum momento" (...) Ele disse: "Então não levanta esse problema, deixa isso pra lá e continua a sua vida." Impossível não lembrar dos dilemas de Don Peppone, o folclórico prefeito comunista e católico às voltas com o pároco Don Camillo nas historietas de Giovanni Guareschi. A comicidade aumenta quando lembra uma aula sobre a série dodecafônica de Schoenberg na USP. "Eu ria tanto, dizia para os alunos "mas isto é uma estupidez tão grande". O mundo nesta situação e eu falando aqui que não posso repetir uma nota antes das outras doze"..."

A questão fundamental era conciliar sua condição de comunista com a prática de uma "arte burguesa" como a música contemporânea. "Essa é outra das mudanças que causaram na minha vida aquele caminho de Damasco, aquele momento de dizer: como é que posso ser comunista e fazer uma música tão... tão não comunista." Passou a testar cada composição junto aos trabalhadores do ABC. Mas, em 1989, aquele mundo ruiu. Assistimos a uma dolorosa autoanálise em O artista comunista após a Queda do Muro de Berlim. "De certo modo, o meu mundo caiu, como cantava a Maísa. (...) O trabalho simplesmente não teve continuação."

Necessidade. Willy é preciso. Foi dramática sua recaída na música burguesa, depois de assistir a O Sacrifício, de Tarkovski. "Eu sentia aquela necessidade (de novo) de arte... e o pior de tudo, arte no velho sentido burguês da palavra; (...) Meu Deus, que desgraça! O mundo como está, tudo isso acontecendo e eu ainda agora quero voltar a ser artista! Não acredito!" (...) Então comecei a ter uma necessidade, não nostalgia, uma necessidade exasperante de arte."

A questão passou a ser que tipo de material usar para compor. Tarkovski levou-o ao universo da cultura japonesa e ao fascínio pela ikebana, a arte de compor vasos de flores. "Cada ikebana é uma expressão, manifestação das relações do homem com a terra e com o cosmo (...) e me propus a escrever peças musicais como se estivesse compondo um vaso de ikebana." Sua filha Susana cantarolou uma canção infantil que ouvira em Belém, onde Willy morou, e ele completou-a ao piano. Foi seu primeiro ikebana musical. "Foi a primeira satisfação que tive ao voltar a... trabalhar com arte... (uma maneira velha de lidar com a arte), um regozijo interior diante de algo que se concretizava assustadoramente, e amenizava algumas mazelas que eu andava sofrendo com o mundo."

Naquele momento - e esta é sua fase atual -, Willy reconhece "as coisas ruins do mundo acontecendo mais e mais", porém confessa que "cada vez eu fui... tendo vontade de fazer arte, e arte naquele velho, decrépito sentido... Arte consoladora, expressão do "eu", lirismo cansativo. De qualquer modo, havia, agora, uma novidade (...); eu não fazia mais uma arte nem para o homem do futuro, nem para o homem do passado, "pra homem nenhum botar defeito"... Eu fazia porque precisava dela."

Recupera até o estilo, conceito que usara anteriormente para esculhambar Stravinsky, argumentando que "escrevo pra mim mesmo, e para aplacar as necessidades inquestionáveis de arte; consciente, também, de que não tem nada desse negócio de "artista", "personalidade", "estilo". Mas no fundo, o estilo, sempre ele está aí, quer dizer... mas muito mais solto, porque... não estou tão preso a todos aqueles conceitos que a gente trabalhou durante tanto tempo no passado, acriticamente".

Chegamos a 2008 - e à longa entrevista concedida ao Estado e ao artigo sobre as Cirandas em que reabilitou Villa-Lobos. "Foi nesse momento, em meio à catástrofe do socialismo e à mais imediata e fétida decomposição final do cadáver capitalista, que voltei a ler Joyce e ouvir Chopin. (...) Mas acho que se tudo continuar como está, os dias que me restam, haverei de vivê-los ouvindo Chopin. Chopin, Joyce, o inconfundível e súbito anseio pela arte, no fundo são parte de mim, no fundo. Sou isto também."

"E no entanto é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar." O verso de Carlos Lyra tem a ver com o estado de espírito de Willy hoje. É preciso cantar, mas cantar a memória. A partir da leitura dos escritos do português Vergílio Ferreira surgiu o Willy memorialista. "É uma literatura feita do sentimento que você tem... na memória (...) E isto foi me dando novamente essa satisfação no campo da arte: de... trabalhar a memória, de... falar de coisas que tinha vivido. Porque eu estava escrevendo sobretudo pra mim mesmo. (...) Não tenho mais uma comunidade com a qual me identifique a ponto de pôr minha arte a serviço dela."

Willy não é de desistir. A descrição de seu itinerário pode parecer um gasto videoteipe dos anos 80. Até os autores-âncora e os textos são os mesmos. Mas é instrutivo observar um criador na sua maturidade reconhecendo que termina seu ciclo virtuoso como começou: "Hoje, no auge do capitalismo (e por causa disso, da inexistência de uma linguagem musical e erudita comum, falada por todo mundo), tudo que ouço não responde às indagações e necessidades que reclamo e necessito da arte. (...) Escrever músicas também me faz um grande bem: é aí que me entretenho (e também me angustio, outro tanto) em confeccionar respostas concretas para os anseios, para as perguntas que me ocupam. Pode ser que não satisfaçam a ninguém além de mim, mas, nesta hora do mundo, foi assim que encontrei jeito de sobreviver..."

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