Retrato de uma voz na estrada

Andreia Dias lança o disco 'Pelos Trópicos', feito em parceria com artistas fora do eixo Rio-SP

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2013 | 02h06

"Não confunda o mapa com o território", aconselham os mestres, em pérola pertinente a artistas de qualquer métier. Certo, por linhas tortas, e com uma boa dosa de literalidade, foi o que a cantora paulistana Andreia Dias aprendeu ao viajar o Norte e o Nordeste do País, atrás de intercâmbios musicais que resultaram em seu novo disco, Pelos Trópicos. "A música pop brasileira é uma criança sedenta. As influências vêm de todos os cantos, e todo mundo faz o que quer sem sair de sua cidade. Não tem mais esse papo de morar em São Paulo para ter sucesso", explica a cantora, em entrevista ao Estado.

Retrato de uma experiência territorial, longe de ser mapa, Pelos Trópicos foi gravado durante um mochilão de um ano e meio feito pela cantora por cidades como Belém, João Pessoa, Maceió. São Luís, Recife e Fortaleza. O disco mostra um franco escambo de ideias musicais, ora improvisadas, gravadas na hora e retocadas depois; ora finalizadas no calor do momento, com um olho na qualidade e o outro na conta do estúdio. "Fui para São Luís e gravei uma coisa psicodélica, meio bizarra. Voltei depois, eles me deram um refrão, fui para o hotel, fiz a música em duas horas. Tava pronta", conta, da faixa Brisa Tropicana, feita em parceria com o duo maranhense, Criolina.

Entre os parceiros estão expoentes da nova MPB vinda de cantos distantes da cena paulistana. Nomes conhecidos como Felipe Cordeiro, Cabruêra e Baiana System produzem, participam e colaboram, assim como The Baggios, Zé Cafofinho e Vitoriano, artistas menos evidentes, mas alvos de uma fiel leva de seguidores em suas respectivas cidades.

Os músicos acompanham Andreia em faixas que vão do xote ao blues à guitarrada, um mix de influências que inconscientemente traça um lúdico panorama das sonoridades em pauta na MPB atual, sem ofuscar a individualidade autoral da cantora, ex-vocalista da banda Dona Zica, conhecida por seus trabalhos solos.

O projeto tomou forma aos poucos, e sua gênese aconteceu numa casa, em Santa Teresa, no Rio, onde Andreia morava com Thalma de Freitas, Cibelle e Iara Rennó. Andreia foi visitar parentes em Belém, entrou em contato com Casarão Cultural, conheceu o guitarrista Léo Chermont, com quem fez Beijin na Nuca, segunda faixa do disco, gravada por Felipe Cordeiro. Montou banda e resolveu fazer turnê. Foi para Natal, conheceu o duo de rock The Baggios e logo viu que as parcerias poderiam virar um disco. "Fiquei muito enriquecida com o carinho, com a atenção, com a vontade de trocar. O Baggios, por exemplo, é novinho, mas o show deles é lotado em Natal." A colaboração resultou na faixa Terra do Nunca, gravada num estúdio, no fundo de um quintal potiguar, enquanto assava-se carne do lado de fora. "É a faixa mais Balão Mágico, mas tem tudo a ver com o que a gente tava vivendo ali, com a vibe de parceria", revela.

Fora o apelo musical, Pelos Trópicos também joga luz nas empreitadas independentes do cenário atual. Ao contrário do que se imagina ao ouvir o enredo de um álbum tão essencialmente tupiniquim, Pelos Trópicos não é fruto de lei de incentivo. Foi sustentado, em grande parte, pelos mil reais que Andreia recebeu do aluguel de seu apartamento em São Paulo. "Sempre fui meio contra lei de incentivo. Mas tinha me inscrito pela primeira vez. Não deu certo, mas vou tentar de novo para fazer turnê, alugar um ônibus lá em Belém, fazer um mês de turnê pelo Norte e Nordeste."

Sem patrocínio, a cantora se virou com o que tinha, mas só conseguiu, diz, graças à ajuda dos músicos que visitou. Ficou na casa de um, filou o rango de outro, recebeu ajuda com passagens de avião, pegou o estúdio emprestado. Ziguezagueou pelas cidades, firmando parcerias com amigos de amigos que muitas vezes só conhecia por e-mail.

"Acho que, se fosse um projeto pensado, teria sido um prato cheio, e talvez até conseguisse um patrocínio. Chegaria nadando na grana, mas o resultado seria outro. Por não ter sido assim, foi uma coisa legal, improvisada."

Por outro ângulo, são interessantes as polaroides criativas das cenas por quais Andreia passa em Pelos Trópicos, cenas que ilustram como o antigo molde da MPB tem se tornado obsoleto. "A Gaby Amarantos não quer sair de Belém. O Cabruêra não sai de João Pessoa. Baiana System fica em Salvador. Esse glamour da cidade grande, do cantor que quer ser importante, não serve mais, assim como não serve o endeusamento do artista pelo público. Aquela idolatria, como se todos fossem gênios. Todo mundo é artista", explica Andreia. Como em todo mundo, muito se deve ao milagre da democracia digital. Em 2013, cenas musicais nascem e morrem nos confins digitais, com artistas unidos apenas pela fibra ótica. Nomes surgem e emplacam hits pela blogosfera, sem ter de passar pela hierarquia indie da cidade grande.

"A internet é a salvação de toda essa galera que tava oprimida naquele sistema de gravadoras dos anos 80. Sou do Grajaú, de família evangélica pobre. Sempre tive aquele anseio de ganhar dinheiro para salvar mãe e pai, mas quando vi, tava sendo engolida pela máquina, sem ganhar dinheiro. Achava que não ia mais cantar. Mas um dia pensei 'pera aí, tem um espaço para mim nessa porra', e vi que sucesso e fama são coisas diferentes. Não tenho fama nem dinheiro, mas tenho sucesso", diz.

Para o segundo volume deste que já é um parêntese em uma trilogia de discos solos de Andreia, a ideia é fazer o Brasil inteiro. "Quero gravar o Amapá, Manaus, descer por dentro e fazer todo o panorama pop", conta. Pelos Trópicos está disponível para streaming e download gratuito no endereço http://scubidu.bandcamp.com/album/andreia-dias-pelos-tr-picos. A cantora faz show de lançamento no dia 15 de março, em Santos.

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