Retrato de uma terra. Francisco Dantas em sua fazenda no Sergipe

Na fazenda localizada no interior de Sergipe, Francisco Dantas encontra abrigo e inspiração para sua escrita

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL, ITABAIANINHA, SERGIPE, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h12

Francisco Dantas é um escritor extremamente fiel à realidade, aos hábitos e costumes do Nordeste. Tal precisão se deve, principalmente, ao fato de morar em sua fazenda, localizada na região de Itabaianinha, município distante 110 km da capital sergipana, Aracaju. Apesar de já ter vivido nos Estados Unidos (deu aulas em Berkley, Califórnia, em 2000), é no campo em que encontra inspiração. Afinal, ele acredita que o ambiente em que a personagem vive é tão importante quanto ela, e o equilíbrio entre a ação e o campo onde se desenvolve faz de seus livros um conjunto que dá a medida da percepção e da apreensão da realidade existente em Francisco Dantas.

Grande admirador da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) e do norte-americano William Faulkner (1897- 1962), o sergipano gosta da palavra esculpida, não necessariamente a mais bela, mas certamente a mais precisa (veja comentários abaixo). Daí não gostar da ficção do peruano Mario Vargas Llosa, cuja escrita considera sem alma - ainda que admire seus ensaios como Orgia Perpétua, em que analisa Madame Bovary, de Flaubert.

Eterno captador da realidade, Dantas acomoda-se nela da melhor forma possível. A entrada da casa de sua fazenda dá acesso a um amplo salão, com vista para o lago e as montanhas que delimitam a propriedade. Os móveis são em madeira, formosamente modelados, e a cozinha, estrategicamente instalada ao ar livre, é um dos locais preferidos do escritor - exímio cozinheiro, é lá que produz os quitutes da casa, desde manteiga de garrafa até carneiro cozido no bafo. "Ele adora quando trago livros que relatam a relação da culinária com a história dos povos", conta sua mulher, a poeta Maria Lúcia Dal Farra. "É seu melhor presente."

O ambiente fornece o conforto para adequar o pensamento. Já a inspiração surge, muitas vezes, de flashes apreendidos da realidade. Como quando vislumbrou, certa vez, em uma rua de Aracaju, um mendigo de gravata puxando uma carroça carregada de cachorros. "Cheguei em casa e imediatamente escrevi o que acabaria sendo o último capítulo de Os Desvalidos", conta.

No mesmo romance, lançado pela Companhia das Letras, enfrentou dificuldades com um dos personagens-narradores, Coriolano, que vive incomodado por não saber o motivo de levar uma vida tão miserável. "Pensei em matá-lo várias vezes, mas nunca consegui", conta, sem revelar, no entanto, o motivo do fracasso.

Uma explicação seria a linguagem essencialmente madura, em que nada sobra, nada falta, e que permite ao personagem crescer naturalmente e conquistar o livre arbítrio. Embora comparado a José Lins do Rego, não se encaixa no regionalismo. "Sou mais próximo da simplicidade de Manuel Bandeira e da honestidade da escrita de Graciliano." Na verdade, seja qual for o caminho escolhido, todos deságuam na verdade.

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