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Retrato de uma saga familiar infeliz

Nicolau II, da Rússia, Jorge V, da Inglaterra, e Guilherme II, da Alemanha, que eram primos, protagonizam 'Os Três Imperadores', de Miranda Carter; ela falou ao ‘Estado’ sobre seu trabalho

Marcos Guterman,

09 de março de 2013 | 01h03

A britânica Miranda Carter é biógrafa, como enfatizou em sua conversa com o Estado. Como tal, julgou fascinante a possibilidade de descrever a descida à barbárie, representada pela 1.ª Guerra, como se fosse uma biografia da Europa de então, um continente sacudido pela ferocidade nacionalista enquanto se mantinha atado a complexas e antiquadas relações dinásticas internacionais. Miranda partiu desses laços familiares, tão frágeis quanto as monarquias que representavam, para descrever a arrebatadora transformação do mundo ocidental no início do século 20, em meio ao derramamento de sangue e à ruína das tradições. O resultado é o livro Os Três Imperadores, que disseca a vida de Nicolau II, da Rússia, Jorge V, da Inglaterra, e Guilherme II, da Alemanha - primos entre si e retratos perfeitos da agonia de uma era.

Miranda argumenta que as relações familiares desses monarcas eram valorizadas somente da boca para fora. Segundo ela, os imperadores passaram os 25 anos anteriores à guerra anunciando sem parar o quão próximos eles eram e como era importante o fato de que eles fossem primos. Em duas décadas, Guilherme vivia alardeando seu amor por sua família inglesa, mas, na prática, "embora fosse fascinado por seus parentes na Grã-Bretanha e desejasse conquistar sua aprovação, ele também nutria sentimentos violentos de raiva e antipatia em relação a seu tio Eduardo VII (pai de Jorge e rei entre 1901 e 1910) e à própria Grã-Bretanha". Com esse estado de espírito, Guilherme encorajou o czar da Rússia a atacar a Índia britânica e, ao mesmo tempo, disse a franceses e russos que Eduardo era um perigo para eles. Mais tarde, encorajou ativamente o desenvolvimento de uma caríssima Marinha na Alemanha, que a Grã-Bretanha viu como uma ameaça direta a seu domínio imperial, assentado na livre navegação.

Já Nicolau e Jorge tinham um carinho genuíno um pelo outro, diz Miranda, e sua relação foi acompanhada por um aumento da proximidade política entre os britânicos e os russos. No entanto, essa afinidade dos dois países na ocasião se explica basicamente pelo fato de que ambos se sentiam cada vez mais ameaçados pela Alemanha. E no fim da 1.ª Guerra, quando a Grã-Bretanha foi incitada a fornecer refúgio ao deposto Nicolau, Jorge fez lobby pessoal para que o pedido fosse recusado, porque temia prejuízo à sua reputação entre os britânicos caso aceitasse a presença do autoritário primo russo em terras britânicas. Os aspectos políticos inerentes à preservação da coroa vinham sempre em primeiro lugar.

O fato é que, durante todo esse período, as lealdades nacionais e políticas sempre contaram mais do que laços de sangue e amizade. Segundo Miranda, a crise que levou à guerra foi a prova de que, àquela altura, o relacionamento entre os monarcas não tinha força efetiva, e que a retórica familiar era vazia. "A verdade é que todas as cabeças coroadas da Europa eram muito nacionalistas. Nenhum desses monarcas viu qualquer alternativa à guerra e, pelo contrário, todos pareciam muito interessados em deflagrá-la", diz a autora.

Ainda que não quisessem o confronto, porém, Nicolau, Jorge e Guilherme tinham, já àquela altura, muito menos força do que a pompa que os cercava sugeria, argumenta Miranda, de modo que a guerra aconteceria de qualquer maneira. A exceção talvez seja Nicolau, porque ele era um autocrata com comando ditatorial sobre um país muito fragmentado e subdesenvolvido, mas "o problema é que Nicolau não usou esse poder muito bem", comenta Miranda. Guilherme era tão poderoso quanto seu primo russo, mas viu-se obrigado a se submeter à opinião pública conservadora, que havia ganho considerável espaço na Alemanha e que ditou as exigências colonialistas do país, fazendo o resto da Europa estremecer. Ademais, diz a autora, o Kaiser, por ser inconstante, por distrair-se com facilidade e por ser propenso a mudar de ideia, foi facilmente manipulado por ministros e chefes militares. "Ele era motivo de piada na Alemanha", diz Miranda. Jorge, por sua vez, era apenas uma figura decorativa, "cujo trabalho era assinar leis e acenar em cerimônias".

De um modo geral, os três imperadores não estavam preparados para o desafio de conduzir seus países em meio a disputas nacionalistas e imperialistas. Em primeiro lugar, diz Miranda, "porque eles eram relíquias de uma ideia de monarquia do século 18 (absolutista), que não tinha sido atualizada". A Nicolau, por exemplo, disseram que tudo o que ele precisava saber para ser czar lhe seria revelado, como num passe de mágica, no momento de sua coroação. Ele não recebeu educação para ser um estadista moderno.

Além disso, esses monarcas não estavam à altura do desafio de governar naquele momento de transição por conta de seus diversos problemas de personalidade. Segundo Miranda, Guilherme era completamente incapaz de concentrar a sua atenção em qualquer coisa por muito tempo e se comportou como um "adolescente egoísta e excitado" durante toda a sua vida. Ele tinha um distúrbio psicológico que dificultou seu amadurecimento e fez dele um fantasista, incapaz de estabelecer empatia.

Já Nicolau era um "homem fraco e sem imaginação", que tinha ciúme de qualquer ministro que se mostrasse eficiente e que trabalhava ativamente para minar qualquer um que lhe pudesse fazer sombra. No final de seu reinado, ele nomeou ministros que eram realmente insanos, "simplesmente porque eles estavam dispostos a dizer o que Nicolau queria ouvir". Jorge, por sua vez, tinha medo do mundo e "não era muito brilhante". Como seu poder era limitado, esses defeitos tiveram menos consequências, e seus súditos acabaram enfatizando suas qualidades mais admiráveis (e antiquadas): seu senso de dever, sua devoção ao país e a disposição de reprimir seus sentimentos para o bem da nação.

O grande paradoxo, ressalta Miranda, é que Jorge, justamente por ser o menos poderoso dos três monarcas - e, portanto, com menos instrumentos para causar danos - foi o único a chegar ao fim da guerra ainda no trono. Seus pontos de vista políticos - sobretudo o profundo menosprezo pela organização da classe trabalhadora - foram cuidadosamente escondidos do público. Mais do que isso: ele passou a externar respeito pela opinião dos súditos mais pobres, ainda mais depois de ver o que aconteceu com seus primos Nicolau e Guilherme, engolidos por revoluções. Com isso, preservou a monarquia britânica no turbilhão do século 20.

OS TRÊS IMPERADORES

Autora: Miranda Carter

Tradução: Clóvis Marques

Editora: Objetiva

(632 págs., R$ 57,90)

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