Retrato de um século confuso

Estudo aborda o confronto entre os ideais de igualdade e de liberdade que ensejou grandes tragédias contemporâneas

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

Não há harmonia entre liberdade e igualdade. Esse é o diagnóstico sombrio que se extrai de O Mundo em Desordem, livro do sociólogo e articulista do Estado Demétrio Magnoli e da historiadora Elaine Senise Barbosa, que acaba de ser lançado pela Record. Trata-se do primeiro de dois volumes sobre o conturbado século 20 e vai de 1914 a 1945 (o segundo terminará no 11 de setembro de 2011). Este primeiro tomo abrange as duas grandes guerras mundiais e o subjacente embate ideológico de que fala seu subtítulo, Liberdade Versus Igualdade. Os ideais da Revolução Francesa, de acordo com essa abordagem, foram "sequestrados" pelos liberais e pelos socialistas, tornando-os incompatíveis e, em grande medida, antagônicos.

"As nações europeias viveram intensamente o confronto entre a promessa de liberdade individual e o sonho da igualdade social", diz o livro. Eis, para os autores, a marca dos massacres inauditos do século 20. Vistos sob o ângulo do atual debate sobre a necessidade da intervenção do Estado na economia e sobre a qualidade da democracia mesmo nos países ricos, esse conflito parece estar muito longe do fim.

O contexto do embate, cuja gênese se encontra no século 19, é o fim da segurança: a novidade da multidão criou o anonimato onde antes todos se conheciam; a pobreza causada pela exploração do trabalho chegou a um nível até então desconhecido, mas a miséria era qualificada como condição hereditária; a tese da superioridade racial, sustentada pela ciência, levou ao nível de povos inteiros o confronto que antes se restringia às relações entre nobreza e plebe; o nacionalismo criou situações diplomáticas incontornáveis, ensejando um clima de enfrentamento cada vez mais violento e, pior, desejado. É, portanto, um momento de grande excitação com as possibilidades abertas pela industrialização da produção e pela velocidade das comunicações, mas é também um momento de evidente ruptura, em que a solidez dá lugar à fragmentação, em que a tradição é atropelada pela modernidade.

A arte refletirá esse esvaziamento de referenciais - o dadaísmo abole a lógica, e o surrealismo liberta os sentidos no momento em que a civilização enfrenta o grande mal-estar do controle das pulsões. A ânsia por encontrar sentido onde tudo parece miseravelmente atomizado deu um verniz de evangelho ao materialismo histórico de Marx. O livro dedica boa parte de seu esforço a desmascarar o discurso esquerdista fabricado na Moscou soviética e cuja radicalização foi, segundo os autores, fortemente responsável pelas piores tragédias do período. "O marxismo engatou a marcha à ré, instaurando novamente a primazia do destino, ao determinar o rumo e o sentido da história. Esse ato de revolta contra a modernidade representou a anulação do indivíduo", descrevem os autores.

Eles fazem então uma arqueologia da Revolução Russa, com especial ênfase à adesão de intelectuais de todo o mundo, embevecidos pela ideia de que a igualdade enfim deixaria de ser uma quimera. Essa cumplicidade ignorou os sinais de que a liberdade estava sendo sacrificada no altar da utopia soviética e chancelou a mentira e a barbárie.

Por outro lado, mas em menor escala, o livro disseca a transformação do mundo na "arena do capitalismo" a partir de 1848 e ressalta as contradições entre o ideal de liberdade econômica e a formação de monopólios. Até a quebra da Bolsa de Nova York em 1929 e a subsequente Grande Depressão, a doutrina econômica apostava todas as fichas no indivíduo e no poder de seus interesses. O valor dos bens é meramente subjetivo, vinculado a desejos que podem ser criados por meio de propaganda. O "sonho americano" traduzia-se, assim, como meio de participação no entorpecente mundo do consumo - a "Era do Jazz", nos anos 20, representou essa fase de estonteante progresso material nos EUA. Era um país em estado de negação - racista e nacionalista.

Como mostra o livro, sucessivos erros das autoridades monetárias americanas, porém, fizeram o vigoroso mundo capitalista entrar em parafuso nos anos 30. O liberalismo chegara a sua mais importante encruzilhada - e dela emergiram duas figuras decisivas: John Maynard Keynes e Franklin Delano Roosevelt. O primeiro denunciou o "fetiche do dinheiro", defendeu o uso de recursos públicos para oxigenar a economia e propôs a prosperidade global como meio de evitar novas guerras. O segundo foi o líder político que se tornou o elo plausível entre igualdade e liberdade. A ele se credita a invenção da democracia de massas.

Ao mesmo tempo, porém, o liberalismo era desafiado pela solução fascista, incensada pela ideia segundo a qual a democracia era a porta de entrada do vírus da desordem. O Estado corporativo, em que cada um tem seu lugar, tornou-se modelo de vários países europeus e transformou a violência em instrumento legítimo de ação. Na versão totalitária desse modelo, o inimigo não deveria ser derrotado, mas aniquilado. Contra isso, os EUA e seus aliados propuseram-se a lutar até que o inimigo se rendesse de modo "incondicional". A modernidade encaminhou-se, desse modo, para a morte em escala industrial. O Holocausto e a explosão das duas bombas atômicas sobre o Japão, ao final da Segunda Guerra, representaram o auge dessa mentalidade e sacramentaram a era de desintegração, sobre cujas ruínas o Anjo da História ainda paira em busca de algum sentido.

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