Retrato de um personagem de si mesmo

Charles Bukowski foi um beat? A pergunta procede pela associação de ambos, do autor de Cartas na Rua e desse movimento, que acompanha sua boa recepção brasileira. Pedaços de Um Caderno Manchado de Vinho, coletânea de contos e crônicas que cobre desde sua estreia em prosa até seus derradeiros escritos, contribui para a resposta. Fica claro que religiosidade e misticismo, fortes em Ginsberg, Kerouac ou Snyder, são algo ausente de seu interesse. Além disso, Bukowski, individualista radical, jamais teria lugar em algo coletivo: "Eu era um movimento de protesto, sozinho", resume. E, como exposto na crônica Deveríamos Queimar o Rabo do Tio Sam?, achava ingênuas as rebeliões juvenis daquele período, encabeçadas por Ginsberg e outros beats.

Claudio Willer, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Por outro lado, tendo sido cronologicamente anterior à beat, pois começou a publicar na década de 1940, sua circulação mais ampla, antes de vir a ser impulsionada pelas adaptações para o cinema (Crônica de Um Amor Louco, de Marco Ferreri, de 1981, e o sombrio Barfly, de 1987, de Barbet Schroeder) ocorreu no quadro da valorização do alternativo. E do arrefecimento da censura, após uma luta pela liberdade de expressão protagonizada por autores da geração beat. Em comum, também, a recusa da prosperidade burguesa: "À medida que uma pessoa fica mais rica ela se torna cada vez menos humana", declara.

Bukowski foi mais um dos personagens de si mesmo. Os relatos na primeira pessoa, protagonizados pelo alter ego Harry Chinaski ou por ele mesmo, confundem ficção, depoimento e a deformação de acontecimentos reais. "Combina fantasia com autobiografia", observa David Stephen Callone no articulado prefácio de Pedaços de Um Caderno Manchado de Vinho - no qual também propõe uma interpretação de Bukowski à luz de Bataille, o pensador da transgressão, que certamente se aplica a textos mais obscenos, como o elogio ao excremento em uma das Notas de Um Velho Safado.

Talvez alguns relatos passassem apenas por medianos, e seu interesse esteja na proporção daquele suscitado pela figura de seu autor. Mas Pedaços de Um Caderno Manchado de Vinho traz bastante do melhor Bukowski. Em primeiro lugar, o depoimento do leitor, na bela homenagem a John Fante (a quem contribuiu decisivamente para resgatar do esquecimento). E nas crônicas sobre Antonin Artaud, Ezra Pound e William Wantling.

Mas seu modo dominante e mais bem-sucedido é a sátira, por entender que "a verdade em si costuma ser mais cômica do que séria". É dirigida a outros escritores, ao mundanismo cultural, à sociedade burguesa como um todo; e a si próprio, bem como às mulheres que foram suas parceiras (na vida real, na ficção ou em ambos). Seus principais recursos são a deformação e o sarcasmo. É implacável na ironia: "Na verdade, os maus escritores geralmente têm mais fé em si mesmos do que os bons." Não poupa a cena underground: "A maioria dos poetas lê mal. São ou muito vaidosos ou muito estúpidos. Leem ou muito alto ou muito baixo. E, é claro, a maior parte de suas poesias é ruim." Um mestre do julgamento taxativo: "Estava ouvindo Mahler, que faz Beethoven e Bach parecerem uns veadinhos." Inigualável na depreciação: "O teto era alto, branco e adornado com telas de mau gosto, todas pintadas pelo mesmo artista, uma mistura do que havia de pior em Picasso com o que havia de pior em Orozco." A sucessão de tiradas desse calibre garante a diversão dos leitores de Bukowski (e de quem o resenha).

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