Semana Pirelli de Cinema/Divulgação
Semana Pirelli de Cinema/Divulgação

Retrato de Tognazzi, por sua filha Maria

Homenagem ao ator marca começo da Semana do Cine Italiano

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2010 | 00h00

Maria Sole tinha 18 anos quando seu pai morreu. Ele, Ugo Tognazzi, era considerado um dos maiores atores da Itália, um ícone da arte da representação - e da comédia. Seus grandes filmes com Dino Risi, Mario Monicelli, Alberto Lattuada e outros mestres da comédia all"italiana haviam feito de Tognazzi um mito. Transpondo as fronteiras nacionais, ele iniciou na França uma série que iria correr mundo e virar cult - A Gaiola das Loucas. Aos 18 anos, Maria Sole Tognazzi, como muitas jovens, não sabia direito o que queria da vida. O cinema, apesar da projeção do pai, não lhe interessava particularmente. Mas, como precisava trabalhar e era mais fácil pedir emprego aos amigos do pai, a quem, afinal, conhecia, ela foi trabalhar no cinema. Nos sets de filmagem, descobriu sua paixão. Virou diretora.

Maria está no Brasil, integrando a delegação que veio ao País promover a 6.ª Semana de Cinema Italiano. Veio para São Paulo, participou de um encontro com estudantes na Faap e hoje está no Rio. Sua história, abreviada, Maria Sole contou-a ao repórter na noite de terça-feira. Ainda estava impactada com a recepção dos estudantes da Faap. "Foram muito interessados. Queriam saber bastante de meus filmes, sobre o ofício de cineasta, mas também estavam curiosos sobre meu pai." Pois o filme de Marisa Sole que integra a semana não é outro senão o documentário Ritratto di Mio Padre. Em outubro, no dia (27) em que se completavam 20 anos da morte de Ugo, Ritratto inaugurou o Festival de Roma.

A partir de hoje, a Semana homenageia Tognazzi exibindo alguns de seus filmes, e o documentário de Maria, no Belas Artes. Na próxima sexta, dia 26, começa outra programação especial, integrada por dez títulos da produção italiana do biênio 2009/2010 que fizeram sucesso na Europa, em salas e/ou festivais. Os filmes no Belas Artes incluem dois de Risi - Os Monstros e Esse Crime Chamado Justiça e em ambos Tognazzi divide a cena com Vittorio Gassman, outro ator mítico -, um terceiro de Antonio Pietrangeli, O Magnífico Traído, em que a jovem e sexy Claudia Cardinale transforma o marido (Ugo) no "cornuto" do título original, e Il Mantenuto, que ele próprio realizou.

Machismo. Numa cultura machista e patriarcal como a italiana, Maria reconhece que o fato de ser mulher talvez tenha ajudado no começo de sua carreira. "As pessoas queriam proteger-me. Havia muito mais cobrança com meu meio-irmão Ricky Tognazzi, que, além de ator e diretor, carrega o nome de papai." Mas ela não se ilude com essas facilidades. "Está muito difícil fazer cinema na Itália, ainda mais paras quem quer ser independente. O país está à deriva, nunca estivemos tão baixos em matéria de prestígio e autoestima."

Por seu primeiro longa, Passato Prossimo, Maria ganhou o Nastro D"Argento de melhor diretora de 2003. Ela sempre se considerou uma autora de ficção, mas adorou fazer o documentário sobre seu pai. Do extenso material público e privado que pesquisou, retirou um filme de 1h20. "Teria material para uma metragem mais extensa, mas era a encomenda e me mantive nela." Maria não pensa em fazer outra versão mais longa, para cinema nem TV. O documentário deu-lhe outra visão, mais abrangente, de Ugo, seu pai. Levou-a a testar sua habilidade em outro campo de atuação. Nada garante que a ficcionista não volte a "documentar".

RETROSPECTIVA UGO TOGNAZZI

Belas Artes.

Rua da Consolação, 2.423, 3258-4092. R$ 10/ R$ 5. Até 15/11.

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