Retrato de Frida de corpo inteiro

Livro de fotos complementa biografia de Le Clézio e ainda revela sua conturbada relação com o marido e os amantes

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2010 | 00h00

Um dos mais conhecidos quadros de Frida Kahlo, de 1939, mostra duas irmãs siamesas sentadas de mãos dadas e com os dois corações unidos pela mesma artéria. Para o escritor francês J.M. Le Clézio, trata-se do mais sincero autorretrato feito pela pintora entre os muitos que pintou. As Duas Fridas seriam tanto a artista sonhadora que vivia nas nuvens como a mulher sofrida que aos 6 anos foi atingida por uma poliomielite e aos 18 teve a coluna vertebral fraturada num acidente de ônibus. Le Clézio se propõe, em seu livro, a contar a turbulenta história de amor dessa mulher dividida com o também pintor Diego Rivera, mas, discreto, evita outros casos - com homens e mulheres - que esclarecem muito sobre a vida da pintora surrealista - rótulo, aliás, que detestava. Assim, o livro Frida Kahlo - Fotos, com lançamento mundial no Brasil, Alemanha, Canadá, EUA, França e México, avança no ponto em que Le Clézio recua, mostrando como a garota precoce construiu sua autoimagem fazendo intervenções em alguns de seus retratos, seja melhorando seu rosto ou eliminando os de pessoas que, de algum modo, detestava, como a segunda mulher de Rivera, Lupe Marín, cujo rosto rasgou numa das fotos.

Embora negasse ser fotógrafa, Frida herdou do pai o talento e a mania dos autorretratos, gênero cuja presença na história da arte revela uma tentativa de autoconhecimento, mais do que pura vaidade. E ela produziu inúmeros deles, além de fotos experimentais como as de seu pai, fotógrafo profissional. A mais impressionante faz alusão ao acidente sofrido em 17 de setembro de 1925, em que o corrimão de um ônibus transpassou-lhe o ventre e saiu por sua vagina: trata-se de uma boneca de pano jogada ao lado de um cavalinho de madeira. Outra mórbida alusão à tragédia é a foto de uma caveira de arame largada num jardim. Não são fotos assinadas, como as do pai, mas a diretora do Museu Frida Kahlo, Hilda Trujillo Soto, que fez a catalogação do arquivo, garante serem ambas obras da pintora.

No acervo da Casa Azul onde morou Frida, foram encontradas, segundo a diretora, fotografias de Stalin que a pintora utilizou para fazer seu último quadro, inacabado, Frida e Stalin (1954). Foi um dos seus poucos quadros "revolucionários" em que pintou, por miopia ideológica, o retrato do sanguinário ditador morto um ano antes. Frida era comunista, mas fez de sua pintura um exercício intimista de autorretratos e naturezas-mortas, ao contrário de Rivera, que dividia com ela a mesma ideologia e pintou retratos de líderes comunistas russos - um deles o de Lenin, imiscuído num painel encomendado (e destruído) pelo milionário americano Rockefeller em 1933. Rivera, contraditório, também admirava profundamente o bilionário Henry Ford, de quem se tornou amigo.

Le Clézio diz que Frida, descendente de judeus, jamais entendeu a paixão do marido por Henry Ford, antissemita assumido. No entanto, cumpriu à risca o papel que lhe reservaram nessa encenação teatral em solo americano. Nela, "Diego fazia o papel de libertador e ela, o de princesa asteca", segundo o Nobel francês. Foi lá o começo da derrocada amorosa do casal. Não sem razão, tanto Trotski como o líder do movimento surrealista André Breton entraram na vida dos dois no momento em que essa união se desfazia, em 1936. Le Clézio sustenta que Frida seduziu Trotski em 1937 por capricho, fazendo o revolucionário se comportar como um colegial, com direito a bilhetinhos e encontros secretos.

Já a pintora, segundo um dos ensaístas do livro de fotos, o curador Pablo Ortiz Monasterio, teria sido ao mesmo tempo a Blanche DuBois e o Stanley Kowalski da peça Um Bonde Chamado Desejo. Ou seja, "frágil e patética como ela e forte e sedutora como ele". Confere. O biógrafo Le Clézio diz o mesmo de sua dividida personalidade: "Ele (Rivera) é o homem nela; ela (Frida), a mulher nele", resume, definindo a relação do casal como um doentio ritual de interdependência, em que Frida seria uma Jocasta a cuidar de um gigante da arte mexicana como se fosse um menino perdido. Díspares, ambos foram criadores e revolucionários, mas a seu modo. O engajamento político de Frida, reforçado por sua relação com a fotógrafa Tina Modotti, não impediu que ela separasse arte e política - ela mesma dizia que sua pintura não era revolucionária. Tampouco que considerasse seus amigos surrealistas idiotas. Le Clézio afirma que ela passou a detestar Breton e sua turma de "estúpidos intelectuais". O mesmo sentimento ambivalente ela conservou com relação à mãe, quase ignorada no livro do Nobel, mas analisada no livro de fotos por Masayo Nonaka: os trajes regionais e o gosto por chamar a atenção vieram dela. Sem Matilde Calderón (1876-1932) o mundo jamais teria conhecido a Frida de trajes indígenas e coque.

UMA VIDA EM IMAGENS

Obsessão

Ao fotografar brinquedos populares em 1929, Frida recria a cena de seu trágico acidente de 1925.

Paixão

Frida Kahlo ao lado de Tina Modotti (1928): fotógrafa foi mentora ideológica e a mulher que mais admirou

Moderna

A emancipada Frida fumando na Casa Azul, hábito que provocava a sociedade mexicana em 1930.

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