Imagem Mario Vargas Llosa
Colunista
Mario Vargas Llosa
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Retorno a Berlim

Agora, a Potsdamer Platz reluz à noite com seus belos e gigantescos edifícios, um dos quais é o famoso Museu do Cinema, e outro é o Teatro Marlene Dietrich

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2020 | 03h00

O olfato dizia ao poeta José Emilio Pacheco se os livros eram bons ou ruins. Estive com ele em uma livraria nos Estados Unidos; farejava as prateleiras e o nariz lhe ordenava o que comprar e o que recusar. Comigo e as cidades ocorre algo parecido ao que ocorria com ele e os livros; basta chegar a um aeroporto ou estação e, imediatamente, sei se aquela cidade me aceita ou se resiste a mim.

Com Berlim, soube imediatamente que poderia passar a vida inteira ali, e também que meu esqueleto repousaria feliz em terras berlinenses. Passei lá todo o ano de 1992 e agora voltei por apenas três dias, também para visitar a Wissenschaftskolleg, para escutar a exposição de um novo pesquisador, meu amigo Efraín Kristal, que vai escrever um livro a respeito de Borges. Explica-nos com riqueza de detalhes o trabalho já avançado que, sem dúvida, será um ensaio repleto de revelações e surpresas.

Por mais que os 28 anos transcorridos tenham transformado seu aspecto – antes estava ainda em ruínas, principalmente do lado oriental, e agora cresce e se reconstrói de maneira desaforada –, a cidade continua sendo o paraíso da música, dos museus e do teatro: um formidável centro cultural. Há quase três décadas, passear pela Unter den Linden até a Ilha dos Museus era andar entre ruínas; agora, reapareceram os palácios e as óperas, e mansões suntuosas e por vezes feias, como a embaixada russa, que ocupa todo um imenso quarteirão.

Naquela época, o arquiteto italiano Renzo Piano tinha idealizado a restauração da Potsdamer Platz; lembro que traziam mergulhadores russos, que trabalhavam submersos na água e voltavam à Rússia de avião para passar o fim de semana com suas famílias. Agora, a Potsdamer Platz reluz à noite com seus belos e gigantescos edifícios, um dos quais é o famoso Museu do Cinema, e outro é o Teatro Marlene Dietrich, a quem os berlinenses parecem ter perdoado por ter cantado para os soldados americanos durante a guerra.

Não sei se existem no mundo muitos centros como o Wissenschaftskolleg, mas, de todo modo, deveriam ser abundantes. Trata-se de um centro público que convida todos os anos algo entre 30 e 40 pesquisadores de diferentes países e disciplinas, por períodos de um semestre ou um ano, para que concluam uma investigação ou terminem um livro. A única obrigação dos convidados é fazer uma apresentação para os demais convidados a respeito do trabalho que estão fazendo e, claro, almoçar duas ou três vezes por semana com os demais pesquisadores. 

No ano que passei lá, o personagem mais misterioso era um romeno; fora professor universitário nos tempos de Ceausescu. Lecionava um curso marxista contra a religião, mas, de acordo com sua explicação, converteu-se secretamente naquilo que vilipendiava em suas aulas, e agora era um especialista em anjos, ou seja, um angeólogo. Fez uma exposição de destaque a respeito do olhar dos anjos – e todas as suas variantes e números – que habitam o paraíso. Mas nunca conseguimos saber se ele realmente acreditava naquilo que nos contava. 

Vinte e oito anos mais tarde, fico sabendo que até hoje ninguém conseguiu descobrir a verdade; e, desde então, o romeno em questão chegou a ser nada menos que ministro das relações exteriores do seu país. Está claríssimo que, acreditando ou não em anjos, estes, agradecidos, acreditam nele.

Outro dos pesquisadores convidados, com quem me encontrava todas as manhãs no ginásio, era igualmente extraordinário. Tinha sido aceito em Oxford, onde esperava se dedicar ao estudo do Egito. Mas o arabista que o orientava convenceu-o a dedicar sua atenção ao Sudão, país do qual a universidade tinha acabado de adquirir documentos muito antigos. Assim o fez e, a julgar pela bela apresentação que nos fez, é um grande especialista neste país. Conhecia sua história, sua geografia, as variações do seu idioma. Mas nunca tinha pisado no país fundamentalista ao qual dedicara a vida – e nem viria a pisar, pois era judeu e, ainda por cima, israelense. Havia investido toda a sua ciência e toda a sua vida em um país no qual jamais colocaria os pés. E não há dúvida que ele o desejava com todo o coração. Falava emocionado dos sudaneses que, disfarçados e tomando mil precauções, viajavam para serem entrevistados secretamente por ele na Europa.

Mal chego ao Kolleg, encontro Eva, que nos dava aulas de alemão ao amanhecer. Pensei aterrorizado se ela me perguntaria se ainda trazia na memória o poema de Goethe que, nos dias de euforia, eu saía recitando aos gritos. Mas, felizmente, ela não o fez. Também estava ali como se saído das profundezas do tempo aquele que dirigia a instituição quando estive entre os convidados: Wolf Lepenies. Passou muitos anos no Instituto de Estudos Superiores de Princeton, e agora voltou a Berlim como convidado da instituição que dirigiu durante anos com maestria. 

Filósofo, ensaísta, poliglota, Lepenies nos deixava deslumbrados cada vez que abria a boca e, principalmente, quando propunha algum brinde: ele o fazia citando alguma ideia, verso ou frase que invariavelmente combinava com a ocasião. Para ele, os anos não passaram; continua o mesmo de antes, pelo menos em se tratando da simpatia e talento. Apresentou-me ao romancista deste ano, o búlgaro Georgi Gospodinov, e à nova diretora do Kolleg, a historiadora Barbara Stollberg-Rilinger.

Uma coisa que me impressiona é o fato de que todos os convidados deste ano parecerem muito jovens; dizem que há entre eles muitos músicos e um médico que dirige um grande hospital nos Estados Unidos. Lembro que entre nós havia um coreógrafo que ensinava exercícios de relaxamento à noite. A instituição distribuía ingressos para os concertos, óperas e peças de teatro. Ficava encantado principalmente com aqueles espetáculos montados na Berlim Oriental por jovens que criavam seus cenários entre as ruínas, e que eram, em geral, imigrantes dos países do leste. 

Sua presença era um indício da pujança e versatilidade da vida cultural da antiga capital alemã, que recuperava já naquela época, no campo da cultura, sua condição de aberta ao mundo, de cidade multicultural e multilinguística.

Graças a Wolf Lepenies, pude estudar e fichar muitos desenhos e gravuras de George Grosz, espalhados pelos museus e galerias de Berlim. Ainda devem estar lá, em alguma maleta esquecida, as muitas anotações que fiz para um ensaio que nunca escrevi a respeito do virulento desenhista e pintor que, acredito, encarnou melhor do que ninguém as convulsões dos anos de Weimar. Trabalhei muito no assunto e cheguei a visitar, nos Estados Unidos, um de seus filhos, um músico de jazz que me mostrou cartas e até um álbum de família de Grosz. 

Imediatamente, nessa viagem, tive uma vontade irresistível de retomar esse projeto, esquecido desde então. Pobre Grosz: salvou-se por milagre dos nazistas, que queriam matá-lo, enfurecidos com as ferozes caricaturas que o artista fazia deles. Foram ao seu apartamento em Berlim, e ele os recebeu com educação, fazendo-se passar por mordomo do pintor, aproveitando a confusão para fugir pela janela. Nos Estados Unidos, o terrível Grosz se deixou suavizar e perdeu o ódio e a fúria que o faziam pintar. 

Tornou-se bom e seus quadros perderam a agressividade e a virulência de antes. Voltou a Berlim somente em 1945. E, naquela noite, festejado pelos amigos, bebeu até não poder mais; ao voltar ao apartamento que lhe tinham emprestado, caiu na escada, e o zelador o encontrou morto na manhã seguinte, no porão, em decorrência dos ferimentos sofridos. 

Grunewald, o bosque onde fica o Wissenschafskolleg, não mudou tanto quanto o resto da cidade. Ali estão os lagos e as árvores, agora nuas por causa do inverno, as revoadas de tordos que resistem ao frio e, claro, os corredores que enfrentam os ventos atrozes e o gelo. Caminhei muitas vezes por esse bosque naquele ano e fui dando forma a esse enxame de anotações que me permitem lembrar e descrever a campanha eleitoral que, durante três anos, me manteve afastado da máquina de escrever e dos livros, minha verdadeira vocação. Voltei a ela, e por isso sempre me senti muito grato ao ano que passei em Berlim. Essa rápida viagem, 30 anos depois, é um bom momento para me lembrar dele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.