Retórica plena de dor e melancolia

No poema Explicação, da década de 1920, Drummond assim representava tanto uma certa divisão de sua personalidade como uma perspectiva diante do Brasil: "No elevador penso na roça, /na roça penso no elevador." Lembrei-me disso ao fim da leitura do novo romance de Francisco J. C. Dantas, Caderno de Ruminações. Desde sua estreia em 1991, com Coivara da Memória, Dantas vem obtendo bom acolhimento e prêmios por sua ficção. Vem também marcando com extrema singularidade uma opção sua que, neste novo livro, se acentua: a escolha de uma retórica de gosto inabalavelmente passadista. É de dentro dela que emerge o protagonista, identificado como homem de ética rígida, mas derrotada, aberto às emoções, mas vincado pelo ressentimento, metódico nos horários, mas perdido no tempo: eis o Dr. Rochinha, médico proctologista competente, mas caipora, para ficar com um termo antigo.

Alcides Villaça , O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h10

Determinante do sentido de uma narrativa é a escolha da linguagem que a produz. O acacianismo me parece forçoso: Dantas está de tal modo ancorado num gosto literário de feitio antigo, numa retórica em que convivem pontadas de eficácia e brilhos preciosistas já frequentados desde o século 19, que o engenho verbal se torna uma espécie de personagem provocadora do romance. O problemático passadismo do Dr. Rochinha tem na linguagem do narrador mais que um caminho de expressão: é um aliado moral, é um correspondente ético. Mas é também - e vejo aqui uma conquista do autor - um espelho assumidamente problemático. Explico.

Na infância, Rochinha conheceu o amor e o abandono de sua mãe, a felicidade e a desventura de seu pai, a solidez e a liquidação da fazenda dos ancestrais. Vividos esses extremos, é levado a Aracaju pelo pai moralmente liquidado, agarrado à religião e ao futuro do filho como compensações possíveis. Rochinha se faz estudante exemplar e médico de alta competência - qualidades que despertam inveja e se tornam agentes de infortúnio. Excluído dos viciosos círculos de poder, Rochinha tem ambição e hábitos aristocráticos, contrastados com a mundanidade da burguesia vitoriosa e com os rebaixamentos do popular ao popularesco. Seus hábitos refinados instalam-se em clínica modesta, em setor comercial e desprestigiado, onde se alimenta de suas convicções. Respeitabilidade e elegância são também traços do estilo de narrar, aqui e ali submetidos a um contraste, entre amargo e risível, com as imagens de um mundo nada elegante e sem respeitabilidade. O leitor transitará entre as ansiedades, por vezes poéticas, da intimidade do médico, e o pragmatismo cínico dos vilões e oportunistas. A caricatura comparece como um risco permanente, e cobra seu preço; as indignações do Dr. Rochinha convertem-se em passagens que lembram editoriais moralistas. O patético Dr. Rochinha recupera algo da feição idealista do amanuense Belmiro, no magistral romance/diário de Cyro dos Anjos.

O "caderno de ruminações", propriamente, é um diário do médico melancólico que fragmentariamente vai sendo transcrito, aqui e ali, dialogando em primeira pessoa com o corpo dominante da narração em terceira. Esse desdobramento constitui uma ponte de identificação entre o protagonista e o narrador (quase estou dizendo: o autor). A profunda insegurança desse médico, seus dilemas éticos, sua canhestra busca de justiça e delicadeza, tudo faz ressoar o desejo de um mundo mais orgânico, na contramão do moderno. Até uma expressão como shopping soa estranha nesse universo linguístico. Rochinha ocupa, no consultório com ar condicionado, uma poltrona que pertenceu ao bisavô, grande demais para ele, "desproporcional". Seu pai, Aristeu, perdeu o mundo das plantações do sisal para o advento da indústria do plástico, onipresente. Tudo contabiliza irrecuperáveis perdas da marcha do tempo.

Os infortúnios do Dr. Rochinha poderiam cessar com a paixão tardia despertada por Analice, com quem acaba se casando. Mas o enlace é oportunidade para mais desventura: o médico está fadado a ser objeto das manipulações da mulher, e as palavras finais do romance soam como um vaticínio de outras frustrações e melancolias. Não, leitor, não lhe estrago o prazer possível: este dependerá da forma como você irá se instalar na linguagem de Francisco Dantas, avessa aos minimalismos e crises que vêm marcando a ficção atual. A certa altura, lê-se este alerta sintomático: "Olhe... Olhe... Não recaia na rasura do passado. Cadê seu dinamismo, aquela energia positiva?" Formula-se assim a questão propriamente crítica desse romance.

Alcides Villaça é professor de literatura brasileira da USP

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