Retomada tradução de Machado de Assis

Em junho de 1870, o editor do Jornal da Tarde, um vespertino carioca, recebeu uma carta em que um de seus mais ilustres colaboradores lamentava não poder mais continuar a tradução em capítulos de Oliver Twist, de Charles Dickens, como vinha fazendo havia semanas. O motivo da desistência não foi detalhado, mas seu pesar era sincero: "Eu fazia esse trabalho com mais vontade que aptidão", lamentou o escriba, no final do texto. Não fosse assinada a carta, hoje não se saberia que o autor do trabalho era Machado de Assis, que traduzira quase metade do texto de Dickens e o publicara no jornal sem assinatura. "Foi seu nome que despertou nossa atenção e que nos motivou a publicar em livro sua versão do Oliver Twist", conta Iuri Pereira, um dos diretores da Editora Hedra, que pretende lançar a edição em julho.A versão machadiana será o terceiro volume da Coleção Tradutores, que reúne grandes obras que receberam uma versão em português de um escritor renomado - o primeiro volume, Metamorfoses, de Ovídio, foi traduzido por Bocage, enquanto As Minas de Salomão, de Rider Haggard, recebeu o texto elegante de Eça de Queiroz. O problema com Oliver Twist era a versão incompleta de Machado de Assis, que trouxe um impasse para a editora: ou era publicado assim ou seria terminada por outro escritor."Mesmo com as dificuldades, preferimos a segunda opção", afirma Pereira, que ainda impôs algumas restrições. "O texto resultante da tradução contemporânea deveria considerar marcas de estilo presentes no texto machadiano e também marcas próprias de um trabalho do final do século 19 para que o leitor não sentisse tanto a diferença de registro." Com isso, a lista de pretendentes se resumiu a um único nome: Ricardo Lísias, um jovem autor de 25 anos.Seu perfil atendeu às necessidades: mestre em Teoria Literária pela Unicamp, tradutor de textos para a Anistia Internacional, Lísias é autor do livro Cobertor de Estrelas (Rocco, 128 páginas, R$ 16), ficção que trata da vida na sarjeta sob a perspectiva de uma criança, sem qualquer concessão à pieguice. "De várias formas, o tema se aproxima muito da história de Oliver Twist", pondera Pereira. "E ainda ele é bastante jovem para aceitar uma tarefa que talvez o torne objeto de duras críticas."Inicialmente incomodado com a perspectiva da negativa em relação ao seu trabalho, Ricardo Lísias logo se motivou com o ineditismo da tarefa, que lhe permitiu uma estimulante pesquisa estilística e lhe trouxe o desafio de escrever de acordo com o formato de uma época. "Temo apenas a interpretação errada dessa empreitada, pois não quero concorrer com Machado", argumenta. "Como a crítica literária ainda é cheia de epígonos, sei que não contentarei a todos."Livre do peso que rondava sua consciência, Lísias esquematizou seu trabalho. Começou com uma leitura atenciosa da tradução feita por Machado de Assis, a partir de pesquisas nos originais do Jornal da Tarde, arquivados na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Em seguida, releu a obra do autor na época em que iniciou a tradução, em 1870. "Trata-se de um Machado jovem que, na época, publicou alguns contos e o romance Ressurreição, que reli para estudar a linguagem."Lísias descobriu que, para realizar sua tradução, Machado de Assis utilizou uma edição em francês de Oliver Twist, o que, somado ao seu próprio estilo, repercutiu no ritmo do texto. "Ele tomou diversas liberdades: cortou longos trechos e acrescentou outros, além de modificar a paragrafação" comenta. "O resultado final é um texto um pouco mais leve e com um certo ar irônico."Estilo dissecado - O estudo permitiu ainda dissecar o estilo do escritor do século 19 - a posição pronominal, por exemplo, é quase sempre posterior, ou seja, com um grande número de próclises; há também expressões pouco comuns, inclusive para a época, como "lho" e "to"; um uso demasiado de expressões no infinitivo e quase raro de gerúndios; uma larga utilização de imperativos e de regências diversas ("pisar o cão" e não "no cão") e, finalmente, pouca aglutinação de preposições com artigos ("em casa de" e não "na casa de")."O que achei mais saboroso foi encontrar expressões que estão fora de uso, como "pecurrucho", "dou-lhe cabo do canastro" que significa "mato", e "rinchar os sapatos" (arrastar)", comenta Lísias, que comparou o texto de Machado com o original em inglês e a tradução francesa para iniciar o seu trabalho. "As três versões são meus guias agora."Na diversidade de estilos, Lísias prefere seguir o de Machado para manter a unidade do texto. A começar pelo próprio título do livro, Oliveiro Twist, decidido pelo autor de Dom Casmurro e mantido na versão atual. "Sinto-me um pouco também traduzindo o próprio Machado."Todos os caminhos adotados para a continuação da tradução serão detalhados em uma introdução a ser escrita por Lísias, que não é estreante no ramo - além de se exercitar com versões que faz informalmente dos poemas de Dylan Thomas e das peças de Samuel Beckett (um de seus preferidos), ele foi aluno de tradução de um especialista, Eric Sabinson. Prepara, ainda, o lançamento de um livro para crianças, Sai da Frente, Vaca Brava, a ser editado também pela Hedra, iniciando uma coleção sobre os direitos infantis.O trabalho de Machado de Assis vai continuar alimentando a série de traduções. "Vamos lançar ainda a versão que ele fez para Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo", comenta Cláudia Pinheiro, que também dirige a Hedra. Outros escritores, como Rubem Braga, Paulo Leminski e Carlos Drummond de Andrade, figuram na lista das próximas edições. Futuramente, a coleção pode se diversificar. "Estudamos a possibilidade de convidar diversos nomes, como Ignácio de Loyola Brandão, para traduzirem clássicos especialmente para a nossa série", afirma Iuri Pereira. "Aos poucos, estamos conquistando a confiança de todos."

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