Restaurar certo ou não restaurar: eis a lição

Na semana passada, os arquitetos Paulo Mendes da Rocha, Eduardo Argenton Colonelli e Welinton Ricoy Torres conquistaram o Prêmio Mies Van der Rohe para a América Latina, uma das mais importantes premiações da arquitetura. Disputando com profissionais de todo o continente, os arquitetos brasileiros venceram pela restauração, reforma e adaptações do prédio da Pinacoteca do Estado de São Paulo, construído entre 1896 e 1900. A conquista joga luzes, mais uma vez, sobre o trabalho de preservação e restauração do patrimônio de um país.A necessidade de manter a memória histórica de um povo é o mote das atividades de restauro. Mas a falta de um curso universitário para regulamentar a profissão e a ausência de uma legislação impedindo a atividade de leigos fazem com que os apreciadores de arte vivam em um eterno conflito: restaurar ou não restaurar. Segundo o artista plástico e conservador do acervo da igreja paulista de São Francisco, Weligton Olmar, "metade gosta e respeita o profissional, o restante acredita que a obra deve seguir sua trajetória e envelhecer sem ninguém interferir". Para a restauradora da Pinacoteca de São Paulo, Valéria de Mendonça, tudo vai depender da intenção do trabalho. "O artista tem de se expressar livremente e às vezes ele nem quer que a obra dure". Uma atitude comum na arte contemporânea, que utiliza materiais diversos como chocolate e gelo.A ausência de normas já provocou danos irreparáveis. Há cerca de quatro anos, durante um congresso da Associação Brasileira de Conservadores - Restauradores de Bens Culturais (Abracor), em Salvador, o frei Felisberto Britto, responsável em acompanhar as obras de restauro da Igreja de São Francisco, denunciou publicamente sua insatisfação com o resultado do trabalho. Para ele, a restauração foi feita por "gente desclassificada, que só quis pegar dinheiro". "O trabalho foi tão mal feito que depois de três meses os azulejos começaram a cair", disse ele. Morando atualmente em um convento em Penedo, Alagoas, Britto não soube informar o valor gasto na reforma, nem o nome da empresa contratada num processo de licitação feito pela secretária de Patrimônio Público do Estado. Para a presidente da Abracor, Maria Luiza Soares, o trabalho feito na remoção da azulejaria foi grotesco. "O profissional chegou a reconstituir os desenhos colocando as asas de alguns anjos no sentido contrário, e em uma santa retiraram um dos seios, que na peça original tinha três". Um outro incidente ocorreu com uma imagem de Santa Ifigênia, em uma igreja de Mariana, em Minas Gerais. O "restaurador", que não foi encontrado, raspou a tinta da imagem, tirando toda a sua policromia original. A obra foi levada ao Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis Escola de Belas Artes (Cecor), - na Faculdade de Minas Gerais -, mas apesar das tentativas, o erro, segundo a restauradora Beatriz Coelho, foi irremediável. "Não dava para fazer mais nada, apenas limpamos e colocamos uma camada protetora". O Cecor é uma das poucas instituições brasileiras que oferecem curso de especialização."Reestaurado" - Segundo Maria Luiza, quando há um erro tenta-se a "reestauração". "E isso infelizmente é muito comum", diz. "Fizemos esse trabalho com as obras restauradas na década de 20 e 30, pois nesse período as técnicas eram bem diferente e sem muito cuidado". Mas os riscos da dupla interferência são ainda maiores. Outro fator muito comum que estraga as obras são as famosas receitas caseiras, que indicam até o uso de cebola e batatas para recuperar o brilho de uma tela.O esclarecimento do que é o restauro estético também deverá ajudar a evitar a polêmica da intervenção em obras raras. Maria Luiza Soares cita um trabalho realizado em um material queimado durante o incêndio no Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio de Janeiro. "Em algumas folhas deixamos aparente o dano, até porque têm um conteúdo pedagógico nisto", diz. "Se fizéssemos toda a restauração a obra sofreria interferências: poderia até ficar uma gravura perfeita, mas aí passaria a ser eu a criadora".Maria acredita que o trabalho de restauração será bastante valorizado nos próximos anos já que a profissão funde arte, história, técnica e informática. "O ano de 2001 será um marco para nós", disse ela, que espera a aprovação de um curso de graduação de restauro na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. O projeto já está em última instância no Ministério da Educação. "O restauro vai se tornar finalmente uma profissão".

Agencia Estado,

08 de julho de 2000 | 00h03

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