Restauradas obras em cedro de Aleijadinho

Parte daquela que é considerada a mais significativa e monumental obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, será reaberta hoje ao público, após ser submetida a um criterioso processo de restauração. Durante pouco mais de um ano, uma equipe de profissionais trabalhou na recuperação das 64 imagens em cedro esculpidas há mais de dois séculos por Aleijadinho em sua oficina, que compõem os Passos da Paixão de Cristo, no Santuário de Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas (MG). A última grande reforma do conjunto - distribuído em seis capelas e que representa as estações da Via-Crúcis - foi feita há quase 50 anos. Desde então, as peças em tamanho natural sofreram a ação do tempo e apresentavam problemas por conta de algumas intervenções "inadequadas", segundo a coordenadora da restauração do acervo escultórico, Lucienne Maria de Almeida Elias. "Encontramos uma miscelânea de problemas", recorda a restauradora, listando os principais desafios enfrentados por sua equipe, como combater a infestação de cupins e recuperar as pinturas danificadas e as fraturas que surgiram na madeira de algumas imagens. Todas as peças foram esculpidas entre os anos de 1796 a 1799, quando o mestre do barroco brasileiro deu um aspecto mais expressionista às suas obras. Aleijadinho já tinha na época uma idade avançada. "É incrível ver que numa época daquela, uma pessoa, no auge de sua doença, construiu um acervo tão magnífico", surpreende-se a restauradora, de 36 anos. Ela chama a atenção para os semblantes dos Cristos, que retratam a paixão e morte na cruz. O trabalho em Congonhas é reconhecido por especialistas como a obra-prima do escultor barroco, que depois de talhar as peças em madeira, esculpiu (de 1800 a 1805) os 12 profetas em pedra-sabão, colocados no adro da igreja. As três primeiras capelas (da Ceia, do Horto e da Prisão) só foram finalizadas em 1819, um ano após a morte de Aleijadinho. Durante o processo de recuperação das imagens, os técnicos comprovaram uma antiga suspeita. Foram identificadas debaixo da tinta azul das capelas trabalhos atribuídos a Manuel da Costa Ataíde (1762-1830), o Mestre Ataíde, considerado o maior expoente da pintura rococó. A suspeita é que as pinturas tenham sido cobertas na última grande reforma, realizada em 1957. Ataíde e Aleijadinho costumavam ser parceiros em trabalhos nas igrejas mineiras. A restauração das pinturas depende ainda de um projeto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Iniciado no final de novembro do ano passado, o projeto abrangeu também a recuperação do conjunto arquitetônico e paisagístico do entorno da basílica. As capelas, cujas cúpulas apresentavam várias trincas, também precisaram ser tratadas. A arquiteta Silvana Emídio Souza explica que o reboco externo foi substituído por uma cobertura de cal e areia, mais próxima do original. Várias intervenções foram feitas ainda nas fachadas das casas do Beco dos Canudos, que originalmente serviam para abrigar os romeiros que visitavam o santuário e hoje concentra o comércio religioso do local.

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