Restauração, poluição, reflexão

Na sessão para jornalistas de 2 Coelhos, o assessor de imprensa da Imagem Filmes, Rodrigo Fante, disse que o filme de Afonso Poyart que estreia hoje é uma aposta da distribuidora para conquistar o público jovem, aquele que não costuma gostar de cinema brasileiro. O repórter aproveita para brincar com o diretor. Como ele pertence a uma geração mais velha, isso o libera de ter de gostar, de tomar partido. Poyart rebate - principalmente no começo, ele adota o ponto de vista do garoto, o personagem de Fernando Alves Pinto. E porque se trata de um perfeito representante dessa geração que vive intensamente a era dos computadores, o visual é cheio de efeitos, poluído. Mas logo as coisas começam a fazer sentido - se o espectador pensar. É por isso que Poyart espera atingir mais que o público jovem. Ele sustenta que seu filme é reflexivo.

O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2012 | 03h08

Publicitário bem-sucedido, Poyart sempre sonhou com seu longa. Numa crise de urgência, ele começou a achar que seu tempo estava passando. "Ou eu fazia o filme correndo ou desistia. Banquei com recursos próprios da empresa, a Black Maria. Quase fui à falência", ele explica. O filme se abre com a imagem de um acidente. Uma mulher e uma criança são brutalmente mortas por um carro desgovernado. Termina com a imagem de um homem, uma mulher e uma menina. A família restaurada.

Desde as primeiras imagens, o personagem de Fernando Alves Pinto se refere ao seu 'plano'. Como ele pretende roubar dinheiro de um político corrupto, mancomunado com o crime, o espectador pensa que o plano é esse. Mas o plano é outro e precisa ser descoberto dentro da estrutura não linear de 2 Coelhos. "O roteiro já nasceu assim, não linear", diz o diretor. O roteiro foi o que atraiu os atores. "Ler roteiro é muito chato, mas o de 2 Coelhos me prendeu e eu viajei no que podia vir a ser o filme, enquanto lia", diz Alves Pinto. "É um roteiro muito bem escrito e intrigante", define Caco Ciocler. Alessandra Negrini arremata. "Foi o que me fez apostar no Afonso."

Desde sua participação na minissérie Engraçadinha, Alessandra virou uma atriz de culto - e um objeto de desejo do público masculino. Ela agradece à TV - e à Globo, da qual é contratada - pelos bons papéis. Acha até que está na hora de voltar à televisão e espera que a emissora a chame (para alguma coisa boa). Nos últimos anos, Alessandra virou atriz de cinema. "Sempre quis fazer." Cinema de autor. Os autores - Júlio Bressane, Karim Aïnouz - a descobriram. Melhor ainda.

Ela foi a Cleópatra de Bressane. "Ensaiava o papel na sala da casa dele. Julio me abasteceu de imagens, pinturas, gravuras. Foi construindo a personagem no meu imaginário. E a gente tem de falar o diálogo dele como foi escrito." O caso de 2 Coelhos foi diferente. Até por sua estrutura (a)temporal, o filme só existia na cabeça do diretor. "Nos entregamos ao Afonso", Alessandra fala no plural. "E ele queria que a gente improvisasse dentro das cenas, dava liberdade para que a gente recriasse o diálogo, por exemplo."

O filme, segundo ela, é como uma viagem de skate. "Dá medo, mas se a gente se libera a vertigem é gostosa." Alessandra contracena muito com Marat Descartes. Ele faz o bandido da história. É o melhor personagem e, com todo respeito pelos outros, o melhor ator. Um bandido otário. "Lidero um bando de atrapalhados", ele observa, rindo. Se Alessandra anda com saudade da TV, Marat anda com saudades do teatro, que foi sua casa original. Ele tem feito muitos filmes, e sai-se cada vez melhor. Mesmo assim, os distribuidores ainda não confiam nele como chamariz de público. Marat Descartes não teve direito a foto no cartaz de 2 Coelhos, embora seu personagem seja decisivo (e apareça mais do que outros que ali estão).

O importante é que o labirinto do filme faz sentido. Uma dica importante é a cena da aula, quando Caco Ciocler fala para seus alunos da morte. Veja quem é um dos alunos. A temporalidade do filme nasce dali. / L.C.M.

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