Biblioteca Pública de Nova York
Biblioteca Pública de Nova York

Ressignificaram a escravidão

Programa desconsidera a presença longeva das comunidades quilombolas em região

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2022 | 03h00

Carlos Gomes deu um concerto no Teatro São Carlos de Campinas para a elite rural, cuja renda reverteu para libertar escravizados. Fazendas de cana, algodão, café trouxeram fortunas para o Estado, junto com desgraça, dor, estupro, sangue: a tragédia da escravização. 

Abolicionistas compravam fazendas para libertar escravizados. Visconde de Indaiatuba chegou a alforriar 100 negros antes da abolição e ofereceu a libertos salário. Barão Geraldo também alforriou os seus. A Unicamp fica numa parte da sua fazenda.

No boom do café, metade da população do entorno de Campinas era escravizada, trabalhava 18 horas por dia. Os maus-tratos eram no tronco do Largo do Pelourinho, hoje conhecido como Largo das Andorinhas. 

Não há referências, monumento, apagaram da memória, mas foi em frente de onde hoje é a prefeitura que rolavam as chibatadas. A cidade ganhou fama de ser cruel. Tinha até uma cantiga: “Rio de Janeiro é Corte, São Paulo é capitá, Campinas é purgatório, onde o nego vai pená”.

Se não fosse a Unesco, a Cidade Maravilhosa, principal destino de escravizados africanos nas Américas, deixava aterrado o Cais do Valongo, “mais importante vestígio físico da chegada dos escravos africanos ao continente americano”, redescoberto durante escavação na zona portuária do Rio para a Olimpíada de 2016.

Ainda hoje, moradores do entorno encontram colares, anéis, pulseiras em piaçava, crânios, amuletos, botões, ossos de africanos recém-chegados. O Brasil precisa urgentemente de um Museu do Holocausto Negro.

Causou revolta o Globo Repórter do dia 8 sobre a revitalização de fazendas do Vale do Paraíba. “Apesar de fazer referência às práticas negras, como o jongo e a folia de reis, reduz a existência negra na região à reminiscência cultural e desconsidera a presença longeva do campesinato negro. Não por acaso, a reportagem invisibiliza os territórios das comunidades quilombolas da região. Talvez porque suas trajetórias expõem as intrínsecas conexões entre racismo estrutural e os projetos de desenvolvimento para a região, voltados para fortalecimento do turismo com foco nas antigas fazendas de café”, escreveu Mariléa de Almeida, historiadora da Unicamp.

O filme Pureza, de Renato Barbieri, narra a história real de uma mãe do Maranhão, dona Pureza (Dira Paes), que, em 1993, saiu em busca do filho, depois de ele desaparecer num garimpo do Pará. Ela trabalha em fazendas com escravizados e testemunha: navio negreiro vira pau de arara, capitão do mato anda de picape; na chegada, perdem a identidade e ganham apelidos. Foge, mobiliza a Pastoral da Terra, vai a Brasília, pressiona o poder. Ressignificaram a escravidão.  

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

 

Tudo o que sabemos sobre:
Escravidão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.