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Ressaca pós-eleições

A menos que todas as urnas do país deem tela azul ou o Brasil entre em guerra com o Butão, por algum motivo que me escapa, no momento em que esta coluna for publicada já teremos o resultado das eleições presidenciais.

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2014 | 02h06

Logo pela manhã, os eleitores do candidato vencedor irão tirar sarro dos rivais junto à máquina de café da firma. Serão propagadas piadinhas infinitas a respeito do adversário; haverá quem falte no trabalho alegando motivo de doença. Os campeões irão proferir discursos insuportáveis e elencar as grandes obras que seu candidato há de empreender nos anos vindouros, prevendo pujança, progresso e a erradicação de todo o mal sobre a Terra. Muitos sairão às ruas com orgulhosos adesivos colados ao peito. Outros vão gritar: "Eu já sabia!" e dizer que, desta vez, o povo votou com consciência.

(Lembro da minha vizinha baixando o vidro do carro, vibrando e gritando: "Agora é Collor!" com genuína alegria.)

Do lado contrário, vão dizer que a maioria é ignorante e não sabe votar. Haverá birra e indignação nas redes sociais, onde irá pairar o mesmo clima das noites de quarta-feira em que o Corinthians perde de goleada.

Com o passar do tempo, porém, os ânimos se acalmarão e restará o vago revanchismo de quem deseja que as coisas deem errado só para ter razão.

Pensando no vazio deixado pelo fim das eleições e na necessidade constante de bloquear maus amigos nas redes sociais, sugiro a imediata adoção de novos e acirrados bipartidarismos. A única condição é que haja intransigência e que o outro seja tachado de "burro", "mal-intencionado" ou simplesmente "errado". Exemplos:

Destros vs. canhotos: Destros são conservadores e intolerantes às minorias. Canhotos são criativos e liberais.

Gatos vs. cachorros: Felinos são dissimulados, ariscos e interesseiros. Cães são sinceros e heroicos.

Tesourinha vs. trim: Refere-se sobretudo à habilidade do indivíduo para cortar as unhas da mão dominante. Falta destreza (e honestidade moral) aos adeptos do cortador.

Agrião vs. rúcula: Quem é pró-rúcula defende a manutenção de privilégios herdados, a especulação imobiliária e a pochete.

Ninjas vs. samurais: Ninjas são vândalos e desordeiros. Samurais têm honra e lutam por ideais.

Tucuruvi vs. Jabaquara: É inegável que os habitantes da zona norte exalam uma sofisticação muito difícil de suplantar.

Balzac vs. Flaubert: Sempre declarar devoção a quem perde o sono em busca da palavra justa, em detrimento da produção febril e do enriquecimento fácil.

Coxinha vs. empadinha: Os tempos não andam propícios para quem é do primeiro time - e com razão.

Praia vs. campo: Praia é coisa de coxinha que gosta de rúcula e mora no Jabaquara.

Repassem.

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