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Respeitável vitrine

Maior festival de teatro do País retoma o rumo após anos de edições inconsistentes

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , CURITIBA, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2013 | 02h12

Ao anunciar sua programação para 2013, o Festival de Curitiba já prenunciava ser melhor que o de anos anteriores. Promessa que, de fato, se cumpriu, durante os 13 dias do evento. Nesta 22ª edição, não é que os tropeços tenham desaparecido. Eles lá estavam. Mas não se pode deixar de admitir que as escolhas da curadoria tenham soado mais acertadas desta vez.

Primeiro, é preciso destacar a grande surpresa deste ano, e ela veio da ala internacional. Até então, a regra em Curitiba era encontrar esmaecidos títulos estrangeiros, alguns já vistos em outros festivais ao redor do País. A escolha da atração coreana Pansori Brecht mudou esse quadro. Acompanhada apenas por três músicos, a cantora e atriz JaRam Lee reinventou o sentido de Mãe Coragem e Seus Filhos, clássico de Bertolt Brecht. Transportou o enredo para a China, interpretou sozinha todos os personagens da trama com um notável virtuosismo, seja no canto seja na representação. Um daqueles assombros, que só aparecem de tempos em tempos. Nitidamente filiada à tradição oriental do Pansori - gênero de canção narrativa muito popular na Coreia - sua obra não teme abraçar outras referências. JaRam Lee concebeu uma ópera, algo épica, algo pop. Tão modesta quanto refinada.

Para além das boas montagens que selecionou, um dado a ser comentado neste festival é o retorno aos seus princípios. Desde sua criação, a mostra da capital paranaense chamou para si a responsabilidade de ser uma "vitrine" do que se faz no teatro nacional. O conceito, em si, não é imune a críticas. Um festival, afinal, pode ter outras tantas funções. O que vinha acontecendo, contudo, é que o recorte que Curitiba apresentava, ano a ano, não condizia nem fazia jus à diversidade da cena nacional. Ficavam alijados aspectos importantes do teatro atual: O fortalecimento dos grupos estáveis, especialmente em São Paulo. O surgimento de novos dramaturgos. As experimentações da linguagem cênica.

Em 2013, a mostra curitibana mostrou-se mais próxima da ideia de vitrine que pretende abraçar. As pesquisas dos mais instigantes encenadores contemporâneos passaram por aqui: Marcio Abreu, Enrique Diaz, Roberto Alvim, Maria Thais, Leonardo Moreira e Grace Passô trouxeram seus trabalhos.

Se quisermos lançar luz sobre alguns títulos, devemos admitir que, mais uma vez, brilhou a Companhia Brasileira de Teatro. Nas últimas edições, o grupo de Curitiba marcou presença no Fringe - programação paralela do Festival. Neste ano, foi alçado à grade principal e, novamente, apresentou o melhor espetáculo nacional da temporada. Esta Criança, que marca a parceria do conjunto com a atriz Renata Sorrah, teve que agendar sessões extras para dar conta do público. A grande demanda não ocorreu por acaso. A agudeza do texto do francês Joël Pommerat encontrou intérpretes à altura. E uma encenação, a cargo de Marcio Abreu, capaz de potencializar os seus sentidos.

Também merece ser nominalmente destacada Recusa, criação de Maria Thais e da companhia Balagan. Para dar conta das ambiguidades do universo ameríndio, a encenadora apoiou-se nas interpretações preciosas de Antonio Salvador e Eduardo Okamoto.

Coproduções. O Festival deu um passo adiante ao investir em coproduções. Deixou de apenas esperar pela oferta disponível e tratou de intervir no mercado, fomentando alguns projetos. Os resultados dessa iniciativa foram ora mais ora menos felizes. Um acerto neste setor foi, certamente, Cine Monstro - Versão 1.0. Dirigida e interpretada por Enrique Diaz, a peça ainda está em processo de criação. Mesmo incompleto, porém, esse novo mergulho de Diaz na obra do canadense Daniel MacIvor já prenuncia suas potencialidades.

Nessa seara das coproduções, a grande decepção foi Homem Vertente. Parceria do Brasil com o grupo argentino Ojalá, o espetáculo enfrentou uma série de problemas técnicos. Chegou a ser adiado e nem assim conseguiu sanar suas dificuldades. A performance, que deveria durar quase uma hora, foi interrompida após 12 minutos e frustrou o público presente.

Fringe. Todos os anos, seja qual for o balanço que se faça do festival, retorna-se invariavelmente às fragilidades do Fringe. Imensa, a mostra paga o preço de sua própria grandiosidade. Foram 381 espetáculos encenados, com representantes de 20 estados brasileiros e de cinco países.

O incentivo da organização do festival a mostras setorizadas dentro desse universo mostra-se uma boa medida. Ainda que insuficiente para dar conta de tantas fragilidades. Nesse contexto, é preciso fazer justiça à Mostra Baiana. O conjunto de espetáculos, com curadoria de Wagner Moura, não tinha qualidade homogênea. Mas ficou como exemplo de iniciativa bem sucedida.

Mesmo fora de mostras temáticas, alguns títulos do Fringe conseguiram demarcar território. Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial, com direção de Carolina Mendonça, é montagem que merece ser vista em outras praças.

O grupo Magiluth, de Recife, também deve ser lembrado. Depois de compor a mostra oficial em 2012, eles voltaram este ano para participar do Fringe e trouxeram uma criação que reafirma suas qualidades. Em Viúva, Porém Honesta mostraram uma leitura anárquica e inventiva da obra de Nelson Rodrigues.

Agora, surpresa, surpresa mesmo, veio do interior do Rio de Janeiro. Sediada na pequenina cidade de Três Rios, a jovem Cia. Cortejo exibiu Antes da Chuva. Obra sem grandes efeitos, delicada, centrada essencialmente no trabalho de seus dois intérpretes. Prova da beleza que só a simplicidade pode ter.

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