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Respeitável músico

Cada vez mais um artista sinfônico, Yamandu Costa fala de culturas e costumes que convivem nas salas de concerto

Julio Maria, Rio, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2013 | 02h10

Os 80 músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira silenciam e um abismo se abre diante de Yamandu Costa. De repente, ele ouve a pausa mais profunda com a qual já se deparou e se vê diante do convite: tem que se jogar ali mesmo, em um salto sem paraquedas. Yamandu sabe que não tem o preparo dos mestres que já pisaram naquele palco centenário do Teatro Municipal do Rio. Suas mãos nem sempre obedecem o que está na partitura. Sua emoção pode falar mais alto do que sua técnica. Suas frases podem vir mais sujas do que o aceitável. Mas Yamandu se lança nas frases que Paulo Aragão criou em seu Concerto Nazareth para Violão e Orquestra e dá certo. Nas subidas mais quentes, se levanta do banco. Fecha os olhos, se contorce. A orquestra o vê com os olhos brilhando. Um violinista acompanha o ritmo com os pés e um sorriso querendo sair dos lábios. A peça acaba e a plateia aplaude como se estivesse em um show pop do Credicard Hall. Algo saiu de controle.

A música erudita faz encontros com a música popular desde sempre. Músicos defendem que a tal barreira que separaria os dois universos nem existe mais. "Acho que cada vez essas denominações significam menos coisas reais e tangíveis e servem apenas para sustentar velhos preconceitos que estão soando cada vez mais caducos. Existe a boa música e a música ruim, como dizia Duke Ellington", diz o pianista e compositor André Mehmari.

Se o que se ouve ganha trânsito cada vez livre entre uma e outra jurisdição, uma carga genética cultural ainda reserva diferenças. Yamandu, depois de gravar com todo o universo de chorões do País, entre nomes da nova e velha guarda, é abraçado pelos eruditos com um calor que surpreende ele próprio. Em abril do ano que vem, estará no Canadá para ser solista da Orquestra Filarmônica de Calgary, regida pelo mesmo Minczuk da OSB. Antes disso, tem concertos à frente da Orquestra de Leipzig, na Alemanha, e com a Orquestra de Paris. "Tenho uns cinco ou seis concertos inéditos que ainda preciso registrar de alguma forma", diz, sobre as peças que vem tocando nestas apresentações.

Yamandu não lê partituras. Ou melhor, só o faz para tirar dúvidas - algo que poderia no mínimo ser classificado como uma estranheza nos padrões da música clássica. "Não leio, gosto é de tocar com os olhos fechados." A forma como aprendeu a tocar todo o concerto Ernesto Nazareth, de Paulo Aragão, é curioso e impensável pelos grandes conservatórios. Em vez de ler notas, Yamandu decora sons. Fez uma dúzia de visitas a Paulo para ouvir trecho por trecho até que conseguisse ter todos gravados em seu iPod. "Diferentemente de quem usa a partitura, a memória assim não apaga nunca."

O compositor Edu Lobo também tem recentes experiências sinfônicas, como sua presença como compositor para a Orquestra do Estado de São Paulo, em 2012. Se sentiu resistências por parte de músicos, plateia, críticos? "Existe resistência sim, infelizmente. Não só entre músicos e plateia mas também dos críticos que condenam esta forma de trabalho. Um grande compositor e trompista americano de Nova York, Gunther Schuller, resolveu a questão usando o termo third stream (terceira corrente) para denominar esse tipo de música popular e extremamente sofisticada. Um bom exemplo seria o da trilha composta por Leonard Bernstein para o West Side Story. É popular sim, claro, mas com vários grandes sucessos como Maria, Tonight, America, I Feel Pretty. E claro, a música de Tom Jobim é totalmente 'terceira corrente'".

Sobre as diferenças técnicas nas execuções do que é composto, Edu Lobo reafirma que ainda sente diferenças entre os dois universos: "Como eu estava lá e vi, podem acreditar no que estou dizendo. Existe uma diferença, é claro, na estrutura da própria obra. Dependendo do orquestrador, há sempre a possibilidade de 'empurrar' uma canção para esta terceira corrente. Mas o contrário também existe: seria impossível popularizar o frevo que compus para a Osesp". Os aplausos a Yamandu comprovaram que nem todos ali queriam apenas sua técnica.

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