Reprodução Porta dos Fundos
Reprodução Porta dos Fundos

'Resolvi abordar a generalização com deboche', diz roteirista do vídeo 'Sudestino'

Vídeo do grupo Porta dos Fundos viraliza (e cria polêmica) nas redes ao brincar com estereótipos atribuídos ao Nordeste

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

21 de julho de 2021 | 14h16

Podem procurar no dicionário Michaelis, referência em pesquisa. A palavra ‘sudestino’ não está nele. Tampouco no Aulete ou Aurélio. O verbete ‘nordestino’, sim. E, de forma geral, está descrito como algo que pertence à região Nordeste. O Michaelis usa como sinônimos de nordestinos os substantivos ‘paraíba’ e ‘baiano’. Esses dois últimos termos quase sempre utilizados de forma preconceituosa e homogênea.

Entretanto, o termo ‘sudestino’ entrou em discussão quando, nesta segunda-feira, 19, o grupo Porta dos Fundos publicou a esquete de humor ‘Sudestino’ em seu canal do YouTube. Nela, há uma inversão dessa questão. Os moradores do Sul/Sudeste são tratados de forma estereotipada. 

Na história, o paulistano Bruno, interpretado pelo ator Gregório Duvivier, está em uma videoconferência com a recifense Júlia, papel da atriz e jornalista pernambucana Ademara Barros. Ela é encarregada de dar as boas-vindas a Bruno, que está começando na empresa. Quando o iniciante revela que é de São Paulo, Júlia solta ‘ê trem bão, meu’, misturando gírias de Minas Gerais e da capital paulista. Ela ainda fala em pão de queijo com chimarrão. 

“Olha, vai se acostumando. Desceu do Espírito Santo é tudo Sudeste. Um monte de branco comedor de pinhão”, diz a personagem. Ela também ressalta a prosódia de Bruno. Outro personagem, vivido pelo humorista baiano João Pimenta, diz ‘o cara tem uma cara de sudestino da porra’.

A certa altura, já irritado, Bruno diz ‘vocês estão falando como se toda pessoa fosse igual no Sudeste. O Sudeste tem vários lugares diferentes’.

 

A temática, de certa forma, já havia sido abordada no filme Bacurau, dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, lançado em 2019. No longa, dois matadores contratados por uma organização criminosa estrangeira que atua no Nordeste respondem aos ser questionados se eram amigos da vítima. “A gente não é dessa região. A gente é do Sul do Brasil. Uma região muito rica. Com colônias alemãs e italianas. Somos mais como vocês." 

O roteirista do vídeo, o potiguar Edu Araújo, que trabalha no Porta dos Fundos há 1 ano e meio, diz que a ideia da esquete o acompanha há algum tempo. “Quando entrei no Porta, a Márcia Zanelatto, que era chefe da sala de roteiro, me disse: onde te dói? Acesse sua dor. O humor vem disso. A gente pega um pouco da raiva que sente do mundo e joga nele. Ele é uma crônica. A esquete nasceu justamente desse incômodo com a naturalização dessa generalização. Resolvi abordá-la com leveza e deboche ", diz.

Além do livro A Invenção do Nordeste e Outras Artes, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr, um papo com uma amiga sobre a dificuldade das pessoas identificarem sotaques foi uma das “lamparinas" para o tema, segundo Araújo. “Parece que as pessoas entram em um Uber e falam ‘me deixa no Nordeste’. Que Nordeste é esse que está na cabeça delas? Eu tenho que carregar o peso de 9 Estados nas costas? Tenho muito orgulho dos signos, comediantes, atores, escritores que me trouxeram até aqui. Mas queremos mais. Queremos contar um outro Nordeste”, diz Araújo, que também cita a vencedora do BBB 21, Juliette Freire, como uma importante voz nesse debate.

Araújo diz que, para além da audiência e repercussão que o vídeo gerou, o importante é como ele chega na comunidade que o Porta criou em quase 9 anos de existência. “De verdade, não esperava esse barulho todo. É um dos vídeos que eu mais batalhei pelo roteiro para chegar no melhor texto. Fico feliz de tirar do gogó o que as pessoas estão com vontade de dizer - e não sabem como dizer. É o tipo de vídeo que a gente manda no ‘zap’”. 

O empresário André Dias Barreto, 44 anos, nasceu em Fortaleza e há 14 mora em Indaiatuba, no interior de São Paulo. Ele foi um dos que comentou o vídeo nas redes. “Eu me senti representado. Quando cheguei aqui na cidade, a toda pessoa que eu era apresentado, eu passava pelo mesmo roteiro do vídeo. Entendo que é algo amplo, cultural. Por mais que eu fale, pontue, não resolve. As pessoas não percebem o erro, não mudam.”

Um dos pontos que Barreto gosta de deixar claro para as pessoas é o fato de ser cearense e não nordestino. “Essa generalização eu não aceito. Muito se debate a xenofobia, mas essa questão da generalização não é discutida”, diz. “Os meios de comunicação usam muito ‘a modelo nordestina’, ‘a cantora nordestina’, e, por outro lado, usam ‘o arquiteto paulista’, ‘o profissional carioca’. É um preconceito claro.”

O sotaque também é outro ponto de estereotipação, segundo o empresário. “Muita gente vem dizer que meu sotaque está errado, pois a referência é o baiano e pernambucano padrão da Globo. Nem na Bahia todo mundo fala ‘meu rei’”, diz. Barreto também comenta a prosódia usada no filme e série Cine Holliúdy, nascida no Ceará, que virou uma referência do cinema nacional.

“Eles usam expressões idiomáticas cearenses bastante interioranas. Lá o sotaque é mais forte, diferente da capital. O filme apela para o caricato. Não sei se está certo ou errado. Na minha opinião, no final, a maioria das pessoas o absorvem como um sotaque ruim, feio, engraçado”, opina.

Racismo. Na opinião do historiador e professor convidado da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) Durval Muniz de Albuquerque Jr, o vídeo Sudestino produzido pelo Porta dos Fundos é “extremamente infeliz”. “Ele pode ter a boa intenção de discutir essas generalizações, invertendo o discurso, ou seja, colocando os nordestinos para generalizar aspectos que seriam sudestinos. Porém, o vídeo mostra dois (personagens) nordestinos completamente ignorantes, que não sabem nada, conversando com um paulistano que sabe tudo, que corrige dois desinformados e emburrecidos. O paulista mais uma vez aparece como aquele que domina a vida intelectual”, afirma.

“Fiquei curioso com essa afirmação do professor. Vou querer ouvi-lo mais, entender. A ideia é justamente a inversão, provocar o que a gente ouve do outro lado. Claro, respeito sua opinião, sobretudo porque traz uma multiplicidade de olhares” , diz o roteirista Edu Araújo.

No início deste mês de julho, Durval Muniz escreveu um artigo publicado no Diário do Nordeste com o título Do que se está falando ao se dizer povo nordestino? que aborda justamente a discussão levantada agora pelo vídeo do Porta dos Fundos. No texto, o historiador fala que o fato de uma pessoa ter nascido em um dos nove Estados da região não significa que ela tenha uma identidade homogênea, como a mesma forma de pensar ou falar, por exemplo. Ele atribui essa ideia de ‘povo nordestino’ ao racismo.

“A região Norte do país é a mais antiga da colonização, com uma presença enorme dos africanos – em São Paulo é também um dos primeiros pontos, mas com uma colonização que se deu por índios e brancos. A chegada do negro se deu no século 18, e no século 19, se deslocou do norte para o sul. E lá houve um processo de branqueamento da população, um projeto das elites paulistas, com a vida dos imigrantes europeus. Já o Norte do País é claramente área de miscigenação indígena, africana e branca. A visão pejorativa do corpo nordestino é racista”, diz. 

O vídeo também toca na questão política. No final, a personagem Júlia diz que os sudestinos só têm um defeito: não sabem votar, que gostam de ‘milicianos’. ‘Basicamente é por causa do voto de vocês que o Brasil não vai para frente’, ela diz, novamente em referência à frase muito usada contra os nordestinos nas últimas eleições.

“É mais uma generalização que não cabe. Não foram só as pessoas do Sudeste que votaram em (Jair) Bolsonaro. As classes médias do Nordeste também votaram nele. A questão é que elas estão concentradas no centro-sul. Entretanto,em  uma cidade como Campina Grande, típica de classe média, venceu nos dois turnos. Venceu em João Pessoa. Essa divisão de Sudeste bolsonarista e o Nordeste de esquerda, resistência, é bastante simplista”, diz o historiador.

Para Durval Muniz, a correção dessas distorções passa pelos meios de comunicação e, na forma individual, pela busca de conhecimento. “Atualmente há informações disponíveis sobre qualquer parte do País, até mesmo nas redes sociais. Não tem mais cabimento alguém do Nordeste chegar a São Paulo e ser perguntado se aqui só existe terra rachada. Ou dizer que a região é toda quente. Não existe um corpo nordestino, não existe o cabeça chata. Não há essa homogeneidade. É preciso se abrir para a diversidade e não operar com o preconceito e o estereótipo”, opina.

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