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Resoluções

Videntes e profetas se aproveitam da falta de memória do público para manter suas reputações intactas, mesmo quando erram

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2018 | 02h00

Videntes e profetas se aproveitam da falta de memória do público para manter suas reputações intactas, mesmo quando erram. É conhecido o caso daquele homem santo que viu, nos búzios, a morte do papa, e ficou célebre. Ninguém se lembrou que ele previa a morte do papa todos os anos, um dia tinha que acertar. Reportagens com videntes e profetas sobre o que nos espera no futuro, feitas no começo do ano, nunca são checadas no fim do ano para sabermos no que erraram e acertaram. As pessoas preferem a ilusão de um futuro conhecido, pelo menos por alguns iluminados, à realidade de um futuro imprevisível. Preferem ser enganadas à enfrentar o mistério.

Como no caso das previsões, são raras as resoluções de começo de ano que resistiriam a uma checada, no fim. Quais resoluções foram cumpridas, quais esquecidas, quais frustradas? Resolvi fazer um teste com as minhas próprias resoluções – as que consegui me lembrar – tomadas no raiar de 2017.

Ler A montanha mágica, do Thomas Mann – Ficou para este ano. Sério.

Arrumar meus livros e discos – Comecei, mas aí choveu, chegaram visitas...

Dar a volta ao mundo de skate – Continua nos planos.

Conhecer a Ana de Armas (não no sentido bíblico, claro) – Continuo esperando uma chance.

Conhecer a Ana de Armas no sentido bíblico – Continuo me preparando, inclusive com uma dieta de carboidratos.

Fazer cócegas no Gilmar Mendes – Não surgiu a oportunidade.

Ser uma pessoa melhor, mais tolerante com políticos e governantes, e acreditar no caráter e nas melhores intenções de todos à minha volta – Isto é, emigrar. Não deu.

Comer mais verdes – Ficou para este ano. Juro. 

Cortar o sal – Tentei. Não consegui.

Cuidar o açúcar – Estou cuidando. Estou cuidando! 

Em suma, minhas resoluções para 2017, com algumas exceções, fracassaram. Quis praticar boas ações, mas a primeira velhinha que tentei ajudar a atravessar a rua começou a gritar “Ladrão! Ladrão” e a me bater com sua bolsa. Desisti da caridade. E tomei uma resolução para 2018 que me livrará de futuros vexames: não tomar nenhuma resolução para 2018.

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